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Da falta de multilateralismo ao “Comunavírus”, professor analisa demissão do chanceler Ernesto Araújo

Dawisson Belém Lopes, da UFMG, relembra situações que tornaram insustentável a continuidade do diplomata no cargo de ministro das Relações Exteriores.

Henrique Letti / #EntrevistaHumanista

Com situação política desgastada, Ernesto Henrique Fraga Araújo (foto) pediu demissão do Ministério das Relações Exteriores na manhã da última segunda-feira (29). O agora ex-chanceler não resistiu à pressão do Congresso Nacional. Para entender o contexto da demissão, o Humanista conversou com o professor Dawisson Belém Lopes, especialista em Política Internacional e Comparada e diretor-adjunto de Relações Internacionais na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Os últimos dias vinham sendo tumultuados para o ex-chefe do Itamaraty, que se envolveu em polêmicas com o Senado e se viu pressionado pelo Congresso Nacional. Para Belém Lopes, a situação de Ernesto Araújo não era confortável, tendo como exemplo a carta publicada por 300 diplomatas pedindo sua saída. “Isso dá mais de 20% do corpo diplomático. E, note, são pessoas que se comprometeram, que abriram o jogo” argumenta o professor. “É claro que há outros tantos que pensam a mesma coisa e que acharam pouco conveniente se expor. A resistência é grande dentro de sua própria pasta [Ministério de Relações Exteriores], quanto a isso não há dúvidas.”

Ernesto Araújo era considerado pelo Congresso um entrave para a aquisição dos insumos para vacinas contra a Covid-19 em razão das opções ideológicas que fez, como a denúncia de uma suposta criação proposital do novo coronavírus (que chamou de “Comunavírus”) pela China (um dos principais parceiros comerciais brasileiros, estratégico na produção de vacinas). Sua demissão se deu em meio à outras cinco trocas em ministérios do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).


Favas contadas
Dawisson Belém Lopes

Na opinião do professor Dawisson Belém Lopes, o ex-ministro se preparava para uma saída do governo há um bom tempo, denotando que não há surpresas em seu pedido de demissão. “Nos últimos meses, ele investiu em agendas de uma natureza mais populista, fazendo visitas junto com o presidente ao nordeste para inaugurar pontes, participando de ocasiões muito pouco solenes, informais, em churrascarias”, exemplifica. “Ele se tornou essa figura que é aspirante a desempenhar uma carreira política em algum momento futuro. É um movimento que lembra o que Abraham Weintraub fez antes de sair do MEC (Ministério da Educação)”.

Em meio às polêmicas por ele causadas, como ao afirmar que nazismo e fascismo foram movimentos de esquerda, o ex-chanceler também adotou uma postura antagônica aos princípios diplomáticos e da política externa brasileira. “Há alguns dias, tive a ocasião de participar de uma banca de doutoramento, e o trabalho era sobre os discursos dos Presidentes da República e dos chanceleres desde a redemocratização. O ponto fora da curva era, justamente, Ernesto Araújo, inclusive comparado com Jair Bolsonaro”, pontua Belém Lopes. “Os discursos, a forma, os tópicos trazidos para a conversa, todos discrepam muito em relação à nossa tradição”.

O professor explica que, dentre as tradições do Brasil, no âmbito da política externa, estão o multilateralismo, que é o trabalho em conjunto com diversos países, e as agendas dos Direitos Humanos e do Meio Ambiente. “Elas vão sendo colocadas em segundo plano, enquanto outras propostas vão para o plano principal. Associar a política externa com religião, uma ideia muito forte da atual política externa brasileira, não encontra qualquer precedente histórico. É novidadeiro, e de uma forma ruim, porque limita as possibilidades estratégicas do país”, detalha.

As tensões com a China também marcaram o período de Ernesto Araújo no Itamaraty. O tema aumentou o descontentamento do Congresso Nacional com o ex-ministro, principalmente por ter influência direta no combate à pandemia no Brasil. O país asiático também fez parte da última polêmica a qual Araújo protagonizou no cargo, quando atacou a senadora Kátia Abreu (PP-TO), acusando-a de lobby em favor do 5G chinês.

“É perigoso, quase suicida, ter uma relação difícil com a China. A situação só não se deteriorou mais porque os contratos de agronegócio são, geralmente, de médio e longo prazo”, comenta Belém Lopes. “Há questões no horizonte, no entanto, que têm o condão de mudar esse equilíbrio. A disputa tecnológica [relacionada ao 5G] é um ponto a ser observado de perto. Há uma tendência de colaborar com os Estados Unidos, mas, neste momento, há um certo resfriamento das relações bilaterais desde que Biden chegou ao poder”.

O novo ministro das Relações Exteriores é Carlos Alberto Franco França, diplomata de pouca expressão no Itamaraty. Ele era assessor-chefe da Assessoria Especial da Presidência desde o ano passado. Apesar de ter sido nomeado embaixador em 2019, jamais liderou embaixadas brasileiras no exterior.

Para Belém Lopes, a equação para a obtenção do perfil do chanceler era complicada. “Ir em uma direção provavelmente pretendida pelo agronegócio, mais afinada com a China, seria trair todo o caminho que foi trilhado até o momento [pelo atual governo]. Não é simples essa reorientação de curso. Toda a retórica antiglobalista, sinofóbica em alguns momentos, terá de ser substituída por um novo pacote”, aponta.


FOTO DE CAPA: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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