Após o assassinato de George Floyd, um homem negro que foi asfixiado por um policial branco de Mineápolis, nos Estados Unidos, em maio de 2020, uma onda de protestos invadiu as ruas e as redes sociais do mundo, lembrando aos governos de que Vidas Negras Importam (Black Lives Matter, em inglês, como a expressão se popularizou). No basquete, a situação não foi diferente. Atletas, técnicos e federações movimentaram as estruturas sociais, contrariando quem acredita que política e esporte não se misturam.
Na NBA, a temporada 2019/20, que iniciou com os jogos Utah Jazz vs New Orleans Pelicans e Los Angeles Lakers vs Los Angeles Clippers, foi marcada por uma série de protestos e manifestações pacíficas contra o racismo. Todos os jogadores, árbitros e membros das comissões técnicas aderiram ao movimento Vidas Negras Importam, se ajoelhando durante a execução do hino nacional dos Estados Unidos antes das partidas. Além disso, os atletas usaram camisetas pretas com os dizeres “Vidas Negras Importam”, “liberdade” e “equidade”, que foram autorizados pela NBA.
A morte de Floyd completava um ano em maio de 2021 quando o Humanista foi atrás de histórias que provam que o esporte, pode, sim, dar a sua contribuição para um tema social e político como é o combate ao racismo, e que inspiram a luta por um mundo mais justo e fraterno.
Dos EUA ao Brasil
Para além do basquete estadunidense, no Brasil, a Confederação Brasileira de Basketball (CBB), órgão responsável pela organização dos eventos e representação dos atletas do esporte no país, foi uma das primeiras a aderir ao protesto virtual Blackout Tuesday. O movimento em rede também motivado pelo homicídio de George Floyd, teve como segunda pauta a morte de João Pedro, um menino negro de 14 anos assassinado por policiais no Rio de Janeiro.
De acordo com o Gerente de Comunicação da CBB, Thierry Gozzer, o enfrentamento e posicionamento da federação esportiva contra a desigualdade racial é de suma importância: “A pessoa precisa claramente saber qual a posição da CBB em relação a isso. Eu acho que hoje ninguém tem dúvida. A gente tem vários exemplos de atletas do Brasil, que estão na seleção brasileira, ou que já passaram ou que viveram esse tipo de cenário. Então, sempre que temos a possibilidade, abraçamos esse tipo de causa, porque a gente entende que é importante e que precisamos estar do lado dos nossos atletas. Assim como eles defendem o Brasil quando jogam, nós também temos que defendê-los.”
Além disso, Thierry também acredita que um posicionamento contra o racismo por parte da federação de basquete é essencial, porque é um esporte muito praticado por negros: “Achamos que é certo um posicionamento em um esporte muito praticado por negros como o basquete. E nesse esporte, você tem um histórico de jogadores negros, como Marta e Alessandra no feminino, Gilson e Gérson no masculino. Agora você tem o Nenê, o Felício e Leandrinho. São pessoas que também abraçam essa causa, então sentimos a obrigação de participar.”
Para Luciano Jorge de Jesus, pesquisador e membro do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, movimentos como o Vidas Negras Importam são importantes para abalar as estruturas e instituições racistas.
“Pressiona que poderosos se posicionem e até mesmo revelem suas contradições. E o mesmo acontece com as nossas práticas cotidianas. Movimentos como o Vidas Negras Importam e os vários movimentos negros no Brasil são um motor importante para o enfrentamento e para a denúncia do racismo e de outras opressões. Esses movimentos nos convidam a pensar em outras vidas. A vida de mulheres, a vida de crianças, a vida das pessoas LGBTQIA+, a vida de outros grupos étnicos que são oprimidos pelo mundo. E nesse sentido, podemos ir incorporando, ou pelo menos notando que existe mais gente para ser aliada nessas lutas.”
Dentro e fora de quadra
Apesar da maioria dos atletas do basquete serem negros, o cenário ainda se mostra muito racista. Das injúrias na quadra ao racismo estrutural, quase todo atleta passa por alguma situação de preconceito racial.
Almir Gerônimo, conhecido como Anjo Negro no sul, fez parte do único time gaúcho a ganhar um título nacional, o Pitt/Corinthias. A equipe, que foi comandada pelo técnico Ary Vidal, derrotou Franca na final em playoff que terminou em 3×2 para o time, mudando a história do basquete gaúcho. A trajetória do time virou livro e documentário. As mãos de todos os jogadores do time ficaram eternizadas em gesso na Calçada da Fama do Basquete pelo feito. De 1994 até hoje, o time é lembrado na cidade.
Apesar do marco no esporte gaúcho e dos feitos profissionais, Almir conta já ter passado por alguns episódios de racismo durante sua trajetória enquanto atleta: “Por incrível que pareça, não sofri nada no sul. Porém, quando eu jogava aqui no Rio, eu sofri isso dentro da quadra com o técnico Marcel. Fomos para os tribunais e teve uma repercussão muito grande”. Almir sofreu injúrias raciais, em 1999, pelo técnico à época, Marcel. Além das injúrias raciais, Almir teve que lidar com o racismo estrutural. “Fui acusado de não ir em programas para falar sobre isso, mas não me convidaram. Até nisso eu sofri massacres”.
Almir ainda conta que muitos amigos de quadra estavam presentes enquanto os ataques aconteceram, que havia muitas evidências, mas mesmo assim obteve pouco apoio de seus companheiros:
“Todo mundo se omitiu. Aquilo me magoa demais”
Felizmente, Almir conseguiu enfrentar essas estruturas racistas e ganhar o processo. “Me pediram para retirar o processo, deixar para lá. Falaram que eu estava de cabeça quente. Mas eu sei da verdade, eu mereço que me peça desculpa, que vá até o final do processo. Então, eu quis fazer a versão correta e ganhei”. O técnico foi julgado pelo Tribunal de Justiça Desportiva da CBB, que recebeu uma suspensão de três jogos.
O ex-atleta explica ainda que viu a vitória do Pitt/Corinthias como um movimento de ocupação da periferia nos espaços urbanos da cidade: “Mas tinha uma coisa que me chamou a atenção e era a periferia. O pessoal do jogo ia embora para casa depois do jogo e algumas pessoas ficavam. Esse pessoal era da periferia. Eu senti o time abraçando a periferia. Então, depois do jogo na base, íamos para a cidade e eles começaram a nos seguir. Então a cidade começou a ficar cheia de pretos. ‘Se não fosse vocês não estaríamos aqui porque as pessoas não aceitavam’”.
Hoje em dia, Almir usa do basquete para combater as mazelas sociais. O ex-atleta já fez projetos sociais em algumas comunidades do Rio de Janeiro, como na Rocinha, no Pavão-Pavãozinho, levando basquete gratuitamente para as crianças e adolescentes, em parceria com escolas. Porém, por conta da violência, esse projeto teve que ser descontinuado. Mas isso não fez Almir desistir de enfrentar os problemas sociais por meio do esporte.
Entendendo o esporte como um catalisador de cidadania, há 15 anos, o ex-atleta comanda o projeto “Basquete das Estrelas: Amigos do Almir”, que acontece sempre no mês de dezembro. O evento reúne artistas, como Pedro Bial, e atletas em um jogo de basquete, com o intuito de arrecadar brinquedos para as crianças carentes.

Já Damiris Dantas, única brasileira na Women’s National Basketball (WNBA) Association, ou liga profissional de basquete feminino, e um dos destaques do time Minnesota Lynx, se consolidou como um símbolo de luta e representatividade dentro e fora de quadra. Em diversas entrevistas e em suas redes sociais, Damiris fala abertamente sobre o enfrentamento ao racismo.
Além disso, a atleta também se posiciona a respeito da igualdade feminina. Em conjunto com suas companheiras de equipe, Damiris iniciou o movimento #LevanteABolaDelas, com o intuito de aumentar a igualdade no esporte, em especial no basquete. Entre as principais pautas do movimento, estão o maior apoio dos clubes e mais investimentos e patrocínio no basquete feminino.
Lebron James, o maior atleta atual de basquete se constituiu como uma das principais representações no movimento negro dos Estados Unidos. O astro da NBA utilizou sua posição para confrontar o Estado, se manifestando nas quadras e nas redes sobre o racismo e a violência policial. Em 2014, o atleta também tomou a frente de ato feito por jogadores da NBA contrários ao assassinato de Eric Garner, um homem negro, que assim como George Floyd, foi morto asfixiado por um policial. Na época, Lebron James entrou em quadra vestindo uma camiseta com o dizer “I can’t breathe” (“Eu não consigo respirar”, em português).
Em 2018, também utilizando o esporte como um difusor de direitos, o atleta inaugurou o colégio público I Promisse School (Eu Prometo Escola, em português), em Akron. A escola nasceu de um sonho de Lebron James de ajudar crianças e adolescentes carentes de sua cidade. O colégio é mantido e patrocinado pela fundação Lebron James Family Foundation e se tornou uma referência nos Estados Unidos.
Comissões técnicas, cargos representativos: o racismo estrutural
Apesar do grande número de jogadores negros, tanto no Brasil quanto na NBA, existe pouca representatividade em cargos de comando, como em departamentos esportivos e comissões técnicas. Segundo o levantamento feito, em 2015, por Richad Lapchick, ativista de direitos humanos, 75% dos jogadores da NBA são negros. Porém, só 26% dos técnicos são negros. Em 73 anos de liga, nunca houve um comissário negro na NBA. No Brasil, no entanto, não existem dados sobre isso. Por outro lado, o gerente de comunicação da CBB, Thierry Gozzer, afirma que grande parte dos atletas são negros.
Almir Gerônimo conta que o espaço para negros dentro dos cargos de comando das federações ainda é muito limitado: “Nas federações e confederações dificilmente tem espaço. É de coisa futura. Não tem jeito. Não abrem. Aqui eles não deixam os técnicos negros ficarem, mesmo os com formação”. O ex-atleta destaca que muitas vezes, as pessoas usam de desculpas para manter o racismo estrutural: “Ele diz ‘ah não, ele não é bom’, porque não tem o que falar”.
Essa problemática está tão enraizada que mesmo quando amigo, o branco acredita que negros não podem ocupar aquele cargo:
“A mudança é muito dura. É bom ser amigo, mas estar junto eles não gostam. Até amigos meus que estão na política colocam filhos, mas não me querem lá. Dizem que não é bom. Então, querem que o filho fique, querem ficar, mas não querem um negro na política”.
Para Luciano Jorge de Jesus, é preciso mover todas as estruturas sociais para a efetiva participação das minorias em todas as instâncias da vida: “Para enfrentar esses desafios, precisamos de tocar em estruturas historicamente construídas para manter o poder na mão das mesmas pessoas. Então, para apontar para novas possibilidades de experiências no esporte, precisamos daquilo que precisamos em várias instâncias da vida: participação efetiva, inclusão de minorias políticas, entre tantas outras coisas. Precisamos participar de todas as instâncias no espaço esportivo: como dirigentes, técnicas/os, jornalistas, juízas/es, propondo políticas públicas para o esporte. O caminho está na ocupação desses espaços. Mas para isso, algumas estruturas precisam ser tocadas e modificadas.”, explica.
Ainda sobre o racismo estrutural, Luciano conta que é preciso pensar em como foram concebidas as camadas de decisão e gestão no esporte e como se dão as relações entre o corpo negro, a política e os espaços: “Falar sobre racismo estrutural talvez esteja diretamente ligada a forma como pessoas negras são excluídas das diferentes camadas de decisão e gestão no esporte. Mas também com a forma como foram pensadas, formas que ainda estão presentes em nosso dia a dia, de conceber o corpo negro, que estão diretamente ligadas a como o racismo toma forma no meio jurídico, na polícia, na economia. Então, falar de racismo estrutural é falar dos jogadores que não falam dos seus vínculos ligados às religiões de matriz africanas, mas pedem louvores evangélicos quando marcam três gols e fazem isso com uma naturalidade, que essa sim é uma construção estrutural. Falar de racismo estrutural é falar da forma como ainda desvalorizam o maior jogador de futebol de todos os tempos, por cobrarem dele aquilo nunca cobraram de jogadores muito mais conservadores e reacionários. Mas isso não acontece meramente pela figura do Pelé, mas é falar sobre as nossas noções de ancestralidade.”

Como os brancos podem ajudar na luta antirracista
Para Almir:
“A sua ajuda é você estar sempre apoiando quem está do seu lado. Sempre colocando a pessoa para cima. Entender que é lutadora também, não tem nada diferente, a cor da pele só, mas é igualzinho os pensamentos, os estudos.” Além disso, o basqueteiro acredita que a nova geração precisa ser diferente do que já passou. “Quando já é antigo, eu já sei. Já vem o ranço de família, achando que é superior. Mas quando é jovem, precisa romper com isso. Só que o jovem está carregando uma herança que não pode carregar. Tem que deixar lá atrás com os seus bisavôs, seus avôs, pais. Tem que ser rebelde. Ser rebelde é legal. Você tem que ser diferente. Não pode ser igual ao que já passou.”
Para Luciano:
“E aí, como fazer para enfrentar isso? Talvez pressionando instituições que se posicionem, para se afirmarem verdadeiramente como antirracistas. Por exemplo, um canal de televisão ajuda muito quando denuncia o racismo, mas isso ainda não é o bastante. Se um canal tem poucas pessoas negras em suas redações e não faz nada para mudar esse quadro, seu discurso pode ser esvaziado de sentido. E isso pode ser ruim, pois, provavelmente essas narrativas, de denúncias de atos racistas, ou de valorização de figuras negras, são construídas por pessoas que são verdadeiramente compromissadas com a luta antirracista. Ou seja, instituições precisam encarar a luta antirracista em todos os sentidos.”
O pesquisador ainda acredita que é preciso enfrentar essa problemática dentro dos times: “Clubes devem investir verdadeiramente nisso. E isso inclui dinheiro, infraestrutura, mudança em políticas internas dos clubes e de seu estatuto. Esses são os pontos que os clubes deve se preocupar. Mas isso não vai acontecer gratuitamente, isso vai acontecer com muita pressão da comunidade, de instituições como o Observatório da Discriminação Racial no Futebol e de outros grupos, coletivos e pessoas que lutam contra opressão de minorias políticas pelo Brasil e pelo mundo”, diz.
E para além das instituições, Luciano acredita que o mais importante é entender que a luta contra o racismo também toca pessoas brancas: “Não só por vivermos em uma sociedade, mas por que a noção de raça pressupõe a existência de pessoas brancas e essas precisam entender seus privilégios, a forma como as relações raciais tocam essas pessoas. A ajuda começa quando notar que existe uma noção de branquitude, que é estudada por pessoas brancas. Assim, esses temas precisam ganhar espaço, pessoas brancas precisam saber que são brancas”.
Outra forma de colaborar com a luta racial, para o pesquisador é apoiar as divulgações e dar suporte ao movimento: “Passar a palavra, divulgar pessoas que não são tão conhecidas, apoiar grandes nomes. Pessoas brancas são importantes na medida em que tomam a luta antirracista como uma necessidade de observar com mais clareza esse espelho chamado Brasil, suas contradições e potencialidades. Pessoas brancas são protagonistas na luta antirracista? Não. Mas são muito importantes nesse processo”.
*Reportagem originalmente produzida na disciplina “Jornalismo Esportivo” do curso de Jornalismo da Fabico/UFRGS no semestre letivo 2020/2, em maio de 2021, sob a orientação da professora Sandra de Deus. Edição: Humanista.










