Doutoranda do IFCH traduz obras fundamentais de William James para coleção da Penguin

Camila von Holdefer Kehl assina tradução inédita de “A vontade de crer” e “O sentimento de racionalidade”, com notas e comentários críticos, a ser publicada em 2026 pela Penguin-Companhia das Letras
A doutoranda em Filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS, Camila von Holdefer Kehl, é a responsável pela tradução inédita de dois textos fundamentais do filósofo e psicólogo norte-americano William James: A vontade de crer (The Will to Believe) e O sentimento de racionalidade (The Sentiment of Rationality). A publicação, que integra a prestigiosa coleção Grandes Ideias, da editora Penguin-Companhia das Letras, está prevista para fevereiro de 2026.
Além das traduções, o volume contará com notas e comentários críticos elaborados por Camila, que desenvolve seu doutorado sobre a obra de James sob orientação da Profa. Dra. Kathrin Rosenfield e coorientação do Prof. Dr. Tadeu Mello e Souza.
Um projeto em diálogo entre filosofia e neurociência
Camila iniciou seu doutorado com a proposta de traduzir a obra monumental The Principles of Psychology, em dois volumes, totalizando cerca de 1.600 páginas. O projeto, embora ainda em aberto, foi temporariamente suspenso em favor do avanço da tese. “Escolhi a tese, mas sigo com o projeto em aberto, esperando o tempo certo para retomá-lo”, relata.
Os textos agora traduzidos foram escolhidos em parceria com o editor da Penguin, Antonio Xerxenesky, por representarem uma excelente porta de entrada para o pensamento de James. A vontade de crer articula a epistemologia jamesiana — incluindo o pragmatismo — às reflexões presentes em As variedades da experiência religiosa. Já O sentimento de racionalidade recusa sistemas fechados de pensamento e antecipa o pluralismo defendido por James.
“São textos de transição em mais de um sentido”, afirma Camila. “Além de estabelecerem conexões conceituais dentro da obra do autor, funcionam também como um convite à sua leitura.”
O desafio de traduzir William James
Segundo a tradutora, a obra de James exige um equilíbrio fino na transposição linguística. “Sua escrita é literária, repleta de digressões e figuras de linguagem. É preciso manter o vocabulário e a sintaxe do português entre o registro formal e o informal: sem pesar o texto com mesóclise, mas sem anacronismo.”
A familiaridade com o universo do autor — que era irmão do romancista Henry James — foi essencial para o trabalho. “Você vira meio que uma equilibrista para traduzir James”, resume Camila.
Entre filosofia e neurociência: uma trajetória interdisciplinar
Além do doutorado em Filosofia, Camila também é mestranda em Neurociências pela UFRGS. Para ela, o diálogo entre as duas áreas é inevitável: “Não acho que dê para estudar consciência sem ler James. Até hoje a Association for the Scientific Study of Consciousness, a principal da área, concede o James Prize.”
Sua entrada no Programa de Pós-Graduação em Neurociências se deu a partir de seu interesse por teorias da consciência e contou com o apoio do professor Tadeu Mello e Souza, também coorientador de sua tese em Filosofia.
“Traduzir é construir pontes sobre as fronteiras. E é isso que eu tento fazer com meu trabalho: cruzar os limites disciplinares para pensar de forma mais ampla e rigorosa.”

