Egresso da Sociologia da UFRGS vence Prêmio SOBER de Melhor Tese

Pesquisa de André Luiz de Souza revela como diversificar mercados fortalece a autonomia de agricultores assentados; premiação será entregue em 28 de julho, no 63º Congresso da SOBER, em Passo Fundo (RS).
A Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (SOBER) escolheu a tese “A construção da autonomia através das relações com os mercados: um estudo sobre as estratégias de comercialização no Assentamento Ander Rodolfo Henrique, Oeste do Paraná”, de André Luiz de Souza, como a melhor de 2024 em Sociologia Rural. O autor, egresso do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da UFRGS, receberá o Prêmio Professor José Gomes da Silva em 28 de julho, às 16h30, durante a assembleia da SOBER que integra o 63º Congresso da entidade, sediado pela Universidade de Passo Fundo (RS).
O que a pesquisa mostra
Dependência de canais tradicionais – Cooperativas empresariais concentram 58 % das vendas das 108 famílias analisadas; atravessadores respondem por 29 %.
Acesso limitado a políticas públicas – Programas institucionais, como o PNAE, representam apenas 2 % das transações.
Autonomia em disputa – A baixa diversidade de mercados amplia assimetrias de poder e restringe a capacidade de negociação dos agricultores.
“A conquista da terra não garante, por si só, autonomia econômica; é indispensável disputar regras de mercado e ampliar opções de venda”, afirma André Luiz.
Trajetória e impacto
Natural do Paraná, André Luiz cursou graduação e mestrado na UNIOESTE e especialização na Unicamp antes de ingressar, em 2020, no doutorado da UFRGS sob orientação do professor Sérgio Schneider. Desde janeiro de 2025, é docente no Instituto Federal do Acre (IFAC) – Campus Cruzeiro do Sul, onde coordena projetos de extensão em agroecologia e pesquisa cadeias da sociobiodiversidade, conectando a discussão sobre mercados à realidade amazônica.
Próximos passos
O pesquisador pretende investigar certificação agroecológica e agregar valor a produtos amazônicos, articulando ensino, pesquisa e extensão. Ele destaca que o prêmio “projeta a agenda dos mercados agroalimentares como eixo central para o desenvolvimento rural sustentável”.
Conheça todos os detalhes da trajetória e das recomendações do pesquisador:
1. Como surgiu o interesse em investigar as estratégias de comercialização no Assentamento Ander Rodolfo Henrique e relacioná-las à construção da autonomia das famílias assentadas?
Meu interesse nasceu no próprio Assentamento Ander Rodolfo Henrique. Sou filho de assentados — minha família ainda reside lá —, militei no MST de 1998 a 2008 e vivi no assentamento até 2012. Ao longo da minha trajetória acadêmica percebi uma lacuna: boa parte dos estudos sobre reforma agrária destaca a conquista da terra, a organização coletiva e os significados culturais, mas dedica pouca atenção aos mercados que os agricultores efetivamente acessam depois de assentados.
Essa ausência me inquietava, pois a autonomia das famílias não se encerra com a desapropriação do latifúndio; ela se consolida — ou se esvazia — no cotidiano das relações com os canais de comercialização. No PPGS/UFRGS, sob orientação do Prof. Dr. Sergio Schneider, encontrei espaço para transformar essa inquietação em objeto de pesquisa: analisar a estrutura e o funcionamento dos mercados e as estratégias de comercialização adotadas pelas famílias do Assentamento Ander Rodolfo Henrique, no Paraná.
Não existe um único modelo de negócio. A inserção nos mercados é heterogênea e condicionada por fatores que geram assimetrias de poder e posição social, tornando seu estudo um fenômeno sociologicamente relevante.
Adoto, portanto, uma concepção material e relacional de autonomia. Ela não é um ideal abstrato nem apenas um sentimento subjetivo; é um fenômeno concreto, mensurável pelo grau de agência que os agricultores ganham ou perdem nas trocas de mercado. Ao mapear esses canais e comparar seus efeitos sobre renda, tempo de trabalho, participação política, poder de barganha e formação de preços, procurei evidenciar quais arranjos fortalecem — e quais fragilizam — a autonomia de mercado das famílias assentadas.
2. Quais resultados do estudo mais evidenciam como diferentes canais de mercado influenciam a autonomia econômica e política dos agricultores familiares?
Aplicando a metodologia de “anatomia dos mercados” desenvolvida pelo Prof. Dr. Sergio Schneider para analisar os canais de comercialização acessados pelos agricultores assentados, emergiram evidências significativas sobre a realidade das 108 famílias do assentamento.
No Assentamento Ander Rodolfo Henrique, 58 % das vendas destinam-se a cooperativas empresariais e 29 % a atravessadores, revelando forte dependência de mercados convencionais com 97%. Os canais institucionais, como o PNAE, representam apenas 2 %, e os de proximidade, como a venda porta-a-porta, apenas 1 % — porcentuais ainda marginais, mas com grande potencial de autonomia. Entre as Unidades de Produção Familiar (UPFs), 33 % utilizam um único canal canal de comercialização , 63 % acessam dois ou três e apenas 4 % operam em quatro ou mais.
Os dados demonstram que a autonomia é um processo de construção de capacidades, resultante da mobilização de recursos materiais e intangíveis nas relações de mercados. Essas relações criam condições para que indivíduos e famílias ampliem seu poder de escolha e decisão diante dos condicionantes sociais que enfrentam. A baixa diversidade de canais — com predominância dos mercados convencionais, seguidos pelos de proximidade e pelos institucionais — gera relações de subordinação que limitam opções e restringem a autonomia dos agricultores assentados. Famílias que não diversificam seus canais de comercialização ficam sujeitas aos interesses de agentes econômicos externos, o que compromete sua capacidade de ação, dificulta a consolidação da autonomia de mercado e reduz a agência e a resiliência das famílias assentadas.
3. Que recomendações você daria a quem pretende pesquisar agricultura familiar, mercados agroalimentares ou assentamentos rurais, especialmente sobre métodos de campo e construção de parcerias locais?
Nossa análise dos achados da pesquisa revela um cenário fértil para novas investigações, tanto na Sociologia quanto em outras áreas que se dedicam à agricultura familiar, sobretudo nos assentamentos da reforma agrária. O método de “anatomia dos mercados”, desenvolvido por Sergio Schneider, inaugura uma agenda instigante ao colocar os mercados agroalimentares no centro do debate — um tema que, via de regra, permanece em segundo plano nas pesquisas acadêmicas e nas próprias políticas públicas. O diagrama de atores gerado por esse método não só expõe conflitos latentes, como também indica portas de entrada estratégicas para o trabalho de campo.
Ao analisar a autonomia de mercado nos assentamentos, a pesquisa mostra de que forma as famílias transformam a posse da terra em renda estável e dignidade. Mapear os canais de venda revela tanto os problemas enfrentados pelos agricultores quanto as falhas das políticas estatais que deveriam apoiá-los. Fica claro que autonomia não é sinônimo de autossuficiência isolada, mas de capacidade relacional: cooperativas, certificações participativas e parcerias urbano-rurais deslocam o poder dos intermediários para os próprios produtores, fortalecendo o tecido econômico local.
Estudar essas estratégias também ilumina caminhos de desenvolvimento territorial inclusivo. Quando os assentados agregam valor aos produtos — seja pela agroindustrialização, seja pela identidade sociocultural — geram benefícios econômicos, sociais e ambientais que se espalham pela região. As evidências sobre margens de lucro, volumes comercializados e gargalos logísticos fundamentam críticas ao subfinanciamento de linhas específicas do PRONAF e embasam a criação de programas de compras governamentais adaptados à realidade desses territórios.
Em síntese, ao demonstrar que os assentamentos podem ser espaços de inovação econômica, e não apenas de carência, a pesquisa reposiciona a narrativa sobre a reforma agrária no século XXI. Compreender a construção da autonomia por meio dos mercados torna-se, portanto, decisivo para alinhar teoria sociológica, ação estatal e práticas agrícolas em favor de um desenvolvimento rural socialmente justo e ambientalmente sustentável.
A reforma agrária é muito mais que uma política de redistribuição de terras; ela cria um espaço onde se consolidam novas formas de trabalhar a terra e de se relacionar com os mercados. Nesse processo, os sujeitos do campo reescrevem a própria história da agricultura, desenvolvendo as capacidades — individuais e coletivas — que Amartya Sen aponta como fundamentais para ampliar a liberdade e o bem-estar. Em contrapartida, a consolidação da autonomia de mercado torna-se o alicerce que transforma a posse da terra em liberdade econômica e poder de decisão para as famílias assentadas.
4. O que representa para você receber o Prêmio Prof. José Gomes da Silva e como esse reconhecimento pode impulsionar futuras pesquisas na área?
Receber o Prêmio Prof. José Gomes da Silva, concedido pela SOBER, é, antes de tudo, um reconhecimento tanto individual quanto coletivo. Individual, porque concluir um doutorado em Sociologia em uma universidade de excelência como a UFRGS ainda é privilégio de poucos neste Brasil marcado por desigualdades. Ser agraciado com um prêmio dessa magnitude demonstra que sujeitos que, muitas vezes, são objeto de pesquisa também têm potencial para produzir ciência de qualidade, a partir de suas próprias realidades.
Coletivo, porque sou filho de agricultores sem-terra e o primeiro doutor da minha família. Essa premiação simboliza o compromisso de transformar a pesquisa acadêmica em conhecimento concreto e aplicado à realidade dos assentamentos rurais. Sinto uma imensa gratidão por esse reconhecimento, que também pertence a todos que caminharam comigo.
Do ponto de vista acadêmico, a honraria projeta uma agenda que recoloca os mercados agroalimentares no centro do debate sobre reforma agrária. Ela dá voz a uma população historicamente negligenciada pelas políticas públicas, fortalece novos arranjos institucionais e estimula parcerias interdisciplinares — além de ampliar o acesso a editais de pesquisa e extensão. Trata-se de uma perspectiva que, parafraseando Max Weber, assume a ciência como vocação.
Em síntese, o prêmio não representa um ponto de chegada, mas um impulso para continuar investigando, com rigor científico e responsabilidade social, como a terra, os mercados e os agricultores podem construir um futuro mais justo e sustentável.
5. Quais linhas de investigação e projetos de extensão pretende desenvolver a partir dos resultados da tese e das demandas que observa na Amazônia Ocidental?
Na Amazônia Ocidental, onde atuo como professor do IFAC – Campus Cruzeiro do Sul, estamos desenvolvendo diversas pesquisas relacionadas à temática abordada em minha tese de doutorado. Essa inserção tem possibilitado articular de forma concreta os três pilares da vida acadêmica: ensino, pesquisa e extensão. As habilidades adquiridas ao longo da formação acadêmica estão sendo colocadas em prática por meio de um conjunto de ações e objetos de investigação que dialogam com a realidade local.
Compreendemos a Amazônia como um verdadeiro laboratório a céu aberto, ainda pouco explorado por diversas áreas do conhecimento, inclusive pela Sociologia. Nesse contexto, temos direcionado esforços para compreender as dinâmicas dos mercados vinculados à sociobiodiversidade e às cadeias produtivas da bioeconomia regional.
Apesar dos avanços normativos e do crescente reconhecimento do potencial da sociobiodiversidade, persistem desafios estruturais significativos para consolidar uma bioeconomia que seja, de fato, inclusiva e sustentável. Esses desafios se expressam especialmente em três dimensões interdependentes: (1) a necessidade de geração de renda e melhoria dos meios de vida das populações locais; (2) a promoção da segurança alimentar por meio da inclusão produtiva; e (3) o fortalecimento das economias regionais, com acesso a infraestrutura, serviços e mercados. O grande “gap” identificado não está apenas na valorização simbólica dos produtos da sociobiodiversidade, mas na criação de condições concretas para que esses produtos sustentem uma nova economia amazônica, ancorada nos territórios, saberes e recursos naturais das populações locais.

