Estudantes produzem entrevista sobre coaching e religião

A disciplina ‘Divulgação Científica IFCH’ tem sua carga horária e currículo totalmente dedicados à prática de atividade de extensão e está aberta para estudantes dos cursos de Filosofia, Políticas Públicas e Ciências Sociais. Ofertada em 2024/02 pelo professor Emerson Giumbelli, a proposta de trabalho final aos 21 estudantes foi entrevistar autoras e autores de trabalhos de conclusão defendidos na pós-graduação.

O desafio era apresentar os resultados e o processo de pesquisa desses trabalhos em uma linguagem voltada para um público mais amplo. Ainda que visasse um público universitário, seria uma linguagem não restrita a especialistas das áreas em que os trabalhos foram desenvolvidos.

Com esta ideia em mente, os estudantes de Ciências Sociais, Mauricio Bastos Russo, e de Filosofia, Matheus do Nascimento Bessestil entrevistaram o professor de sociologia no ensino médio, Taylor Pedroso de Aguiar, que concluiu em 2024 sua tese sobre religião e coaching para obtenção de doutorado em Antropologia Social pela UFRGS.

 

Leia o perfil do autor  e a entrevista realizada por Maurício Bastos Russo, graduando em Ciências Sociais, e Matheus do Nascimento Bessestil, graduando em Filosofia.

 

Taylor Pedroso de Aguiar é Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais e Mestre e Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Sua tese “Cristianismo não-religioso: uma etnografia do coaching em igrejas, prisões e corporações de segurança pública no Brasil”, concluída em 2024 na UFRGS, resultou de um doutorado no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social e contou com um período sanduíche na École Pratique des Hautes Études (França). Teve como orientador o Professor Emerson Giumbelli. É pesquisador vinculado ao Núcleo de Estudos da Religião (NER/UFRGS) e ao grupo de pesquisa “Religião, arte, materialidade, espaço público: grupo de antropologia” (MARES). Atualmente é professor de sociologia no ensino médio em escola pública estadual em Santa Catarina. 

Sua tese aborda como o coaching é mobilizado em relação com linguagens, atores e instituições cristãs no Brasil. O autor observou a incidência de cursos, treinamentos e dinâmicas de coaching em igrejas e organizações evangélicas, nas suas diversas formas, dentre elas a formação de críticas teológicas e controvérsias em torno de uma “Teologia do Coaching”. Outra metodologia de coaching específica analisada foi a do Coaching Integral Sistêmico (Método CIS), em prisões e corporações de segurança pública. Segundo o autor, o Método CIS “combina elementos bíblico-cristãos e científicos em um vínculo com referências extraídas da neurociência, da psicologia positiva e da física quântica”.

 

Matheus do Nascimento Bessestil (MNB) - Segundo relato na introdução da tese, seu interesse pelo tema surgiu um pouco por acaso em decorrência de um trabalho realizado numa disciplina do PPGAS/UFRGS. Como isso ocorreu? O que o motivou a seguir adiante?

Iniciei o doutorado em março de 2020, no momento em que a pandemia de Covid-19 chegava em Porto Alegre. Meu plano inicial era aprofundar a pesquisa de mestrado, que eu havia concluído e apresentado no mês anterior. O tema com o qual eu trabalhava era o crescimento das "igrejas de parede preta", ou churches, no meio evangélico. Meu foco etnográfico era a incidência desse modelo de igreja e culto entre os jovens da Brasa Church, uma comunidade evangélica de Porto Alegre. Para desenvolver a nova fase da pesquisa, seguindo o que fora estipulado, seria necessário ampliar o trabalho de campo e visitar outras igrejas na região metropolitana. O projeto foi paralisado por um tempo, porque as igrejas fecharam as portas para a realização dos cultos presenciais em razão da emergência sanitária. Cultos online não demoraram a surgir, mas trouxeram consigo a dificuldade de acompanhar aspectos relevantes da materialidade desses cultos - e era essa justamente a minha proposta, entender como as pessoas reagiam e interagiam com sons, luzes e outros estímulos sensoriais nos cultos das churches.

Naqueles meses, comecei a frequentar remotamente a disciplina de Seminário de Doutorado, ministrada pelo professor Ruben Oliven no PPGAS. Era a única atividade que eu continuava frequentando na UFRGS no período crítico da pandemia, não havendo nela riscos de exposição ao vírus. Ao final da disciplina, como os demais colegas, eu deveria escrever uma monografia sobre um tema que a mim fosse desafiador, no sentido de que não estivesse acostumado a pesquisá-lo. E, da quase aleatoriedade do ato de navegar pela Internet - pois que tal ato sempre é condicionado pelos algoritmos que refletem nossos gostos e interações -, lembrei de ter tomado conhecimento de duas controvérsias em torno da relação entre coaching e religião que haviam sido noticiadas pela mídia, e que muito despertaram a minha curiosidade. Como comentei na introdução da tese, eram polêmicas que envolviam 1) a nomeação de um reitor de universidade federal que era pastor, e que ministrava no departamento de Administração da instituição uma disciplina chamada "Espiritualidade e liderança", com base na Bíblia e em livros de coaching; e 2) uma tentativa de acordo entre o Ministério da Educação, através da CAPES, e uma universidade cristã estadunidense especializada em cursos de coaching. Parecia-me que o coaching, tão pouco conhecido e ao mesmo tempo tão mal comentado em meu círculo pessoal, era um ótimo tema para explorar no trabalho. Para fazer jus à proposta da disciplina, não aprofundei estudos sobre a relação entre coaching e religião naquele momento. Na busca de maiores informações sobre o coaching na Internet, soube de sua prática entre professoras, por meio do chamado coaching educacional. Realizei entrevistas remotas, fiz algumas leituras e escrevi minha monografia sobre essa forma de coaching, o que me incentivou a continuar explorando esse universo. Ele se demonstrava relevante em sua influência crescente sobre diversos campos sociais, inclusive o religioso.

 

Maurício Bastos Russo (MBR) - Parte do seu trabalho ocorreu durante a pandemia de COVID-19. Como isso impactou suas escolhas metodológicas? Quais foram os ajustes necessários para lidar com as dificuldades do período pandêmico?

A principal dificuldade foi modelar um campo para a pesquisa, em um contexto no qual a mobilidade física entre igrejas estava impedida ou reduzida e o interesse no tema do coaching se desenvolvia cada vez mais, pondo em segundo plano o projeto de voltar a trabalhar com as churches. À época, conversei com meu orientador, o professor Emerson Giumbelli, que compreendeu as limitações que se impunham à pesquisa e também ressaltou a originalidade e a potencialidade que residiam na ideia de acompanhar a incidência do coaching sobre o universo religioso. O coaching havia chegado para ficar e estávamos dispostos a dar uma chance a essa novidade.

A alternativa adotada foi realizar um mapeamento da relação entre coaching e religião através da principal ferramenta de que eu dispunha sem sair de casa: a Internet. Por meio de motores de busca, sites, blogs e redes sociais consegui identificar os principais coaches brasileiros cuja influência se notabilizava sobre o público evangélico. Além disso, à medida que o isolamento causado pela pandemia se reduzia, visitei igrejas e contatei agentes religiosos que desenvolviam projetos de estímulo ao empreendedorismo. Entendi que, por meio deles, eu poderia chegar a treinamentos e processos de coaching propriamente ditos, o que não aconteceu de maneira automática. Não necessariamente aquelas igrejas e instituições, como a Verbo da Vida e a ADHONEP - Associação de Homens de Negócio do Evangelho Pleno, mantinham uma associação direta e inevitável com o coaching. Exceção coube à Casa Lugar de Gente Feliz - Casa LGF, uma church porto-alegrense que eu intencionava visitar ainda no projeto inicial, e que anunciou em um dos cultos em que estive nela presente, coincidentemente, que abriria as inscrições para um curso chamado "Inteligência emocional", ministrado por um coach local no âmbito da própria igreja. Participei do curso como aluno, realizando assim meu primeiro trabalho etnográfico em um espaço onde coaching e religião se encontravam nitidamente. De forma complementar, investi na compra e na leitura de livros de coaches evangélicos, sobretudo Paulo Vieira e Tiago Brunet, para conhecer melhor suas ideias e práticas, observando como articulavam suas concepções de coaching com pressupostos religiosos. O resultado foi uma pesquisa que foi parcialmente baseada em livros. O contato com o best-seller "O poder da ação", de Paulo Vieira, foi um importante passo para o acompanhamento que posteriormente realizei de seu Método CIS (Coaching Integral Sistêmico), na segunda parte da pesquisa e da tese. Em resumo, o contexto desencadeado pela pandemia de Covid-19 abriu outras possibilidades de desenvolvimento para a pesquisa, influenciando não somente a mudança de tema, mas ampliando minha visão para trabalhar com a Internet e com livros, para além do espaço físico das igrejas.

 

MNB - Poderia nos dizer o que é um coach? Quais são os tipos de coach e as principais diferenças entre eles? Em que medida as estratégias comunicativas do coach e do pastor se assemelham?

Um coach - palavra em língua inglesa que quer dizer "treinador" - é um profissional da área de desenvolvimento pessoal que visa conduzir seu coachee (treinando ou cliente) ao estabelecimento de metas e objetivos e ao alcance de resultados, quaisquer que sejam. O coaching não se confunde com a psicologia, embora procure embasamento em algumas de suas correntes, como a psicologia positiva. Também não se trata de um processo terapêutico, definindo-se no campo das práticas que se alinham com a ideia de desenvolvimento pessoal, a exemplo da mentoria e do aconselhamento. Os coaches podem atender seus coachees de forma individualizada, cobrando determinado valor monetário pela hora de atendimento ou pelo serviço prestado - uma forma tradicional de trabalho com o coaching, surgida no ambiente empresarial dos anos 1980, com vistas ao aprimoramento das habilidades profissionais e da performance no mundo do trabalho. Mas há também coaches que realizam eventos sob a forma de treinamentos coletivos, em espaços físicos ou na virtualidade de cursos oferecidos pela Internet, reunindo um grande contingente de seguidores e clientes.

Essa segunda forma de coaching tem sido denominada "coaching de palco" ou "empreendedorismo de palco", e reúne os coaches reconhecidos como mais famosos, ricos e/ou influentes, incluindo aqueles que segui mais de perto em minha pesquisa: Paulo Vieira, Tiago Brunet e Pablo Marçal são exemplos. Propus que os coaches aderentes à tendência do empreendedorismo de palco se diferenciam de coaches cuja ação é caracterizada por outras quatro tendências: 1) coaching autoidentificado como cristão, 2) coaching de identidade denominacional, 3) coaching com foco eclesiológico e 4) coaching voltado para o nicho de mercado cristão. Em todos os grupos se pode encontrar pastores que também são coaches, embora eles não componham maioria ou condição sine qua non. É perfeitamente possível que um coach cristão não seja pastor e nem liderança religiosa, e mesmo assim tenha influência religiosa considerável. Suas estratégias comunicativas se assemelham, sem dúvida - e este é um ponto a ser observado através de seus modos de ação. Nas igrejas e fora delas, o coaching praticado por cristãos tem sido modelado a partir de referências que se encontram bem presentes no vocabulário e no discurso de pastores. Vários são os aspectos que conectam as figuras do coach e do pastor: o uso de versículos bíblicos, histórias de conversão, ideias correntes sobre espiritualidade, músicas gospel... Tudo isso pode estar presente em cultos e em sessões de coaching, confundindo as fronteiras entre o que é um rito religioso e o que é um processo de desenvolvimento pessoal. Embora os aspectos que ressaltei remetam ao nível do discurso, há ainda certa forma de falar, de se expor, de se vestir, de conceber a si e a Deus, etc.

A associação entre coach e pastor pode funcionar em alguns casos e ser aventada em comentários sobre como ambas as funções se tornam cada vez mais parecidas; mas ela nem sempre é bem vista, como destaquei a partir do acompanhamento das tensões e negociações inerentes à presença do coaching na religião. Trata-se também, sob meu ponto de vista, de uma disputa sobre quem tem o poder de falar em nome do religioso. Coaches cristãos certamente estão ocupando um espaço de influência no cristianismo e na sociedade. Enfatizar como eles agem nas igrejas e em outros espaços, como prisões e corporações de segurança, é crucial para entender esse fenômeno.

MBR - "Cristianismo não religioso" é uma formulação central de sua tese. O que ela quer dizer?

Por cristianismo não religioso não estabeleço a classificação de uma nova fase do cristianismo, uma constatação de perda de poder da religião ou qualquer terminologia de pretensão teórica. Através dessa expressão pretendo me referir, com base na pesquisa, ao que determinados coaches cristãos constroem a partir de suas práticas: um acionamento do cristianismo que não depende da religião para funcionar. Em outras palavras, isso quer dizer que os coaches podem evocar Cristo, a igreja, a Bíblia, os hinos e outros elementos associados ao religioso para promover o desenvolvimento pessoal dentro das igrejas, através de diferentes estratégias, evitando intencionalmente que isso se confunda e concorra com a religião. Por outro lado, é possível aos coaches cristãos adentrar instituições de segurança pública sem que suas práticas sejam percebidas como religiosas. Como demonstrei na tese, isso depende da percepção produzida diante de variados atores: para os detentos do sistema prisional, por exemplo, o religioso é hipervisível, no que o coaching de Paulo Vieira possui de cristão; para os agentes da gestão penitenciária, o religioso é invisível, pois se trata o Método CIS como um projeto de reinserção social através do coaching.

Na articulação de coaches com a política para a implementação do Método CIS como política pública de segurança, vislumbrando a sua ampliação para outros domínios, como a saúde, a educação e a administração pública, o religioso é estrategicamente situado como o subsídio para a transformação pessoal de detentos, policiais, bombeiros e outros agentes associados às dinâmicas da violência, da criminalidade e da segurança pública. Tudo isso, argumento, é possível por conta do modo de ação desses coaches cristãos: apropriando-se de um repertório cristão não religioso, ou seja, do que é compreensível como cristão a seus públicos, faz-se um coaching que não está necessariamente vinculado a estruturas de poder religiosas, como igrejas, mas a empresas e empreendedores no ramo do coaching e do desenvolvimento pessoal. Esse coaching promovido por cristãos é, de fato, uma forma de fazer cristianismo na contemporaneidade. Para entendê-la, julgo necessário ultrapassar os limites da noção mais clássica de religião, tal qual a temos concebido até aqui, acoplada que é, ao poder das instituições e das lideranças religiosas convencionais.

MNB - O sistema prisional é um local historicamente dominado pelos agentes religiosos, no que se refere a tentativas de "mudança de vida" dos/das detentos/as. Como o crescimento do coaching nestes espaços pode impactar a segurança pública?

O primeiro aspecto a se destacar é o fato de que o coaching já é uma política pública colocada em prática na área de segurança. Ele também é um projeto de política pública, no sentido de que há planos para sua expansão para vários domínios, como comentei na pergunta anterior. Pude verificar que existem projetos de lei em tramitação, no Congresso Nacional e em Assembleias Legislativas, para a inclusão do coaching no currículo escolar, através da nomenclatura "inteligência emocional". Na sessão solene em homenagem a Paulo Vieira e à sua empresa, a FEBRACIS, realizada na Câmara dos Deputados em 2022, também foram ressaltadas ações de inclusão do coaching no âmbito da administração pública - o treinamento dos servidores da prefeitura de Balneário Camboriú pelo Método CIS sendo paradigmático. Também se mencionou a ideia de que o coaching deveria estar presente em hospitais e outras instituições, sempre com o mesmo propósito: "transformar a vida das pessoas". Relatei que essa perspectiva sobre o coaching reflete a concepção de uma política pública com vocação universalista. Ou seja: de alguma forma, o coaching serviria para resolver tudo.

No âmbito da segurança pública, os desafios detectados para resolução através do coaching são de duas ordens. Por um lado, existe a noção de ressocialização, ou reinserção social dos detentos do sistema prisional. O coaching é visto por determinados agentes sociais, incluindo políticos, magistrados e funcionários da gestão penitenciária, como uma ferramenta eficaz de transformação da condição de vida dos presos. O coaching trabalharia as emoções de maneira a gerar uma "reprogramação de crenças" que os incentivaria a abandonar o crime. Por outro lado, o foco do treinamento com policiais, bombeiros, peritos criminais e outros profissionais identificados como de segurança pública é a ideia da prevenção e da garantia da saúde mental. Os operadores de segurança pública são tomados como um grupo suscetível ao adoecimento psíquico, por conta da exposição cotidiana a situações de crise e violência. O coaching se constituiria, portanto, em uma ferramenta para a diminuição dos índices de suicídio e outras consequências situadas em um nível mental, de trabalho com as emoções. Para ambos os grupos, incluindo ainda um terceiro - o dos dependentes químicos -, o Método CIS é oferecido gratuitamente, sem qualquer custo para os treinandos/clientes ou para o Estado. A institucionalização dessas ações se encontra em diferentes graus de consolidação nos estados brasileiros, como destaquei nos dois últimos capítulos de minha tese. Tal processo depende de decisões político-administrativas e de questões internas às corporações de segurança e às estruturas de gestão penitenciária, atravessadas estas últimas também pela ingerência do Poder Judiciário. É importante observar como o coaching se insere nesses contextos, pois cada um deles possui sua especificidade. No sistema prisional, por exemplo, a presença da religião e de atores religiosos é um dos fatores predominantes na reconstituição de projetos de vida e de métodos de sociabilidade dos presos. O que se destaca do Método CIS, para os detentos, é o seu aspecto religioso, valorizado junto ao desabafo de que "Jesus é a única coisa que funciona aqui". Esse religioso hipervisível aos detentos é invisível ao Estado, que compreende o coaching de Paulo Vieira como projeto de reinserção social ou ressocialização, despindo-o de qualquer sentido religioso.

Diante desses dados e constatações, posso inferir que o impacto do coaching na segurança pública advém de sua capacidade de mobilizar a ideia de transformação pessoal para diferentes fins e com diferentes públicos. Essa transformação tem sentidos que circulam entre o religioso e o secular, abrangendo uma (in)visibilidade que é própria do que chamo de cristianismo não religioso, ou seja, da mobilização de referências cristãs amplamente compartilhadas sem que haja uma vinculação à religião. O ideário em torno da transformação é precisamente um dos pontos nevrálgicos que o coaching trabalha em termos de segurança pública.

 

MBR - Você acredita que é possível utilizar sua pesquisa para compreender o fenômeno político que representou Pablo Marçal na candidatura da prefeitura de São Paulo? Quais seriam os pontos principais a serem destacados?

Sem dúvida. A candidatura de Pablo Marçal e sua repercussão tomaram minha atenção nos últimos meses, como de resto foi importante acompanhar sua pré-candidatura à Presidência da República em 2022, enquanto era realizada a pesquisa de doutorado. Penso que há pelo menos dois pontos cruciais a se destacar para uma análise do "fenômeno Marçal" na política, e ambos estão relacionados com o coaching. O primeiro é a constituição de uma plataforma política própria, que Pablo Marçal denomina "governalismo". O segundo é a articulação que ele produz com o cristianismo não religioso, algo que passa despercebido do escrutínio público por Marçal não ser um pastor ou liderança religiosa. Para mim, a entrada de Marçal na política é representativa da junção de três aspectos: coaching, conservadorismo moral e liberalismo econômico.

A influência do coaching sobre o político - definido frequentemente como "ex-coach", sem que o tenha deixado de ser - se manifesta expressamente na ideia marçalista de que o caminho mais seguro para o sucesso é o indivíduo tomar as rédeas da própria vida, responsabilizando-se por seus atos e encontrando em si próprio a solução de seus problemas. Essa receita nada mais é do que a ampliação do pressuposto de uma autonomia radical do indivíduo que se encontra amparada na relação coach-coachee, onde o próprio treinando deve encontrar as respostas para suas demandas, sendo apenas auxiliado pelo coach a organizar emoções, planos e pensamentos. Marçal se coloca, assim, como um grande coach que irá guiar a sociedade à superação de seus problemas e dilemas a partir dos indivíduos e de sua interioridade e autovalorização como capitais humanos, sem que dependam do Estado e da sociedade para prosperar - ou para alcançar os melhores resultados, num sentido mais amplo e menos financeiro. Aplicada à política, essa é a lógica do "governalismo", que Marçal não considera ser nem capitalista, nem socialista, mas uma terceira alternativa de sistema econômico e social. Ora, o que é possível depreender dessa concepção é que ela revela precisamente um aprofundamento do individualismo capitalista, no que ele possui de mais predatório. No tocante à associação com o cristianismo não religioso, percebe-se que Marçal faz uso estratégico de uma linguagem compreendida como cristã, enquanto coach e enquanto político. Direcionando essa linguagem a um público cristão genérico, de todo modo conservador, ele elaborou sua relação com um cristianismo que define como "estilo de vida" e não como religião ao longo de diversos posicionamentos e entrevistas em sua candidatura, por meio de verbos como “servir”, “honrar” e “abençoar”, além de expressões um tanto quanto originais, como “jejum do crime” e “ideologia de gênesis”.

Em 2022, também era explícita sua intenção de intervir em pautas morais como as relativas ao aborto, endurecendo as políticas de criminalização dessa prática a partir de argumentos calcados no religioso. O que aponto com a tese é a evidência de que Pablo Marçal representa mais do que um coach cristão convencional. Seu "governalismo" e candidaturas podem ser o laboratório experimental de uma nova e insidiosa forma de conceber a política, através dos caminhos pragmáticos do cristianismo não religioso. Sob essa formulação, Marçal não precisa ser autorizado pela religião para falar com o público cristão de uma forma compreensível e eloquente. Talvez não por outra razão Silas Malafaia compre brigas com ele.

 

Esta entrevista foi produzida como atividade de extensão universitária no âmbito da disciplina “Divulgação Científica IFCH”, oferecida em 2024/2 pelo professor Emerson Giumbelli. Objetiva a divulgação de teses e dissertações concluídas em cursos de pós-graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRGS.