Eventos religiosos no espaço público: entrevista com Izabella Bosisio

A tese de doutorado de Izabella Bosisio analisa eventos religiosos que ocupam o espaço público em Porto Alegre, investigando como diferentes tradições religiosas se manifestam nas ruas da cidade e quais as implicações dessas ocupações no cenário urbano. O estudo, intitulado “Quando a religião se faz pública: um estudo sobre eventos religiosos no calendário e nas ruas da cidade de Porto Alegre”, foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS (PPGAS/UFRGS), sob orientação do professor Emerson Giumbelli.

A pesquisa aborda três manifestações religiosas – a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, a Marcha para Jesus e a Marcha Estadual pela Vida e Liberdade Religiosa – analisando como essas celebrações se articulam no calendário oficial da cidade, suas relações políticas e a produção de visibilidade pública.

Leia a entrevista realizada por Laura Coelho Barreto, Thaise Caroline Rodrigues e Paloma Franco Garcia, graduandas em Ciências Sociais, que também elaboraram o perfil da autora da tese.

Esta entrevista foi produzida como atividade de extensão universitária no âmbito da disciplina “Divulgação Científica IFCH”, oferecida em 2024/2 pelo professor Emerson Giumbelli. O objetivo da atividade é divulgar as teses e dissertações concluídas nos programas de pós-graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS.

 


 

Entrevista com Izabella Bosisio

Sua tese trata de eventos entendidos como expressões públicas de religiões em Porto Alegre. O que motivou a escolha do tema?

A escolha do tema da tese decorreu de um longo caminho de reflexões que foram se desenvolvendo desde o mestrado e em diferentes etapas do doutorado. Minha dissertação envolveu um mapeamento da institucionalização de feriados religiosos em calendários oficiais no Brasil, analisando a legislação e o processo legislativo que regulamentam essas datas. A partir dessa pesquisa e de cursos que acompanhei durante o doutorado, comecei a refletir sobre a ocupação religiosa do tempo público, um tema ainda pouco explorado nos estudos sobre religião e espaço público no Brasil. O objetivo foi investigar como diferentes religiões se produzem como públicas e quais são os efeitos dessa exposição para o campo religioso e para o espaço público da cidade. Para isso, procurei articular diferentes aspectos na observação dos eventos, como sua presença no calendário, as articulações políticas envolvidas, as ações dos atores religiosos e a produção de visibilidade.

Você enfrentou desafios específicos ao realizar uma pesquisa de campo nesses eventos? Se sim, como os superou?

Como os eventos acontecem em deslocamento pelas ruas da cidade, um dos principais desafios foi o registro das informações. Para garantir um material detalhado, utilizei registros fotográficos, vídeos e anotações rápidas no celular para facilitar a recuperação das informações posteriormente. Além disso, participar da organização dos eventos em momentos prévios, como reuniões preparatórias, permitiu que eu fizesse anotações mais detalhadas.

Outro desafio foi trabalhar com três eventos distintos, que envolvem religiões diferentes e possuem suas próprias dinâmicas organizacionais e políticas. Cada evento apresentava formas distintas de mobilização, divulgação e participação, o que exigiu que eu desenvolvesse estratégias de aproximação específicas para cada um. Para estruturar a tese, optei por trabalhar com quatro eixos de análise – calendário, religião, política e visibilidade – que ajudaram a comparar os eventos e identificar suas intersecções e singularidades.

Quais critérios você utilizou para escolher os atores/interlocutores que fizeram parte da pesquisa?

Como eu queria compreender a organização dos eventos e a atuação dos atores religiosos, busquei entrevistar os principais organizadores. Para a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, conversei com o provedor da Irmandade dos Navegantes, entidade responsável pela organização da festa.

Na Marcha para Jesus, participei de um encontro preparatório, onde identifiquei e entrevistei um dos pastores coordenadores da marcha, que indicou outro organizador para a entrevista.

Na Marcha Estadual pela Vida e Liberdade Religiosa, meu primeiro contato ocorreu em uma reunião organizativa divulgada nas redes sociais. Diferente dos outros eventos, essa marcha teve um formato mais aberto de interlocução, com interações constantes no grupo de WhatsApp da comissão organizadora, o que possibilitou um acompanhamento contínuo da construção do evento.

Em que medida você acredita que esses eventos fortalecem a identidade coletiva dos grupos religiosos em Porto Alegre?

Esses eventos são manifestações públicas que conferem visibilidade a grupos religiosos, ajudando-os a se afirmar como coletivos com características e interesses comuns. Além disso, cada evento reflete diferentes modos de articulação entre religião e espaço público, evidenciando como a cultura e a política moldam suas formas de expressão.

O fortalecimento da identidade coletiva ocorre de diferentes maneiras. Na Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, há um reforço da tradição e do pertencimento comunitário. Na Marcha para Jesus, a ênfase está na mobilização e na evangelização. Já a Marcha Estadual pela Vida e Liberdade Religiosa busca afirmar a diversidade religiosa e o direito à liberdade de crença.

Quais foram as principais reações das pessoas não participantes durante os eventos religiosos no espaço público? Houve casos de conflito ou contestação por parte de moradores ou entidades públicas?

De maneira geral, as reações foram respeitosas, e não presenciei manifestações contrárias durante os eventos. No caso da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, por ser feriado municipal, o fluxo de pessoas é majoritariamente de participantes da procissão.

Na Marcha para Jesus, a interação com o público externo ocorre principalmente durante ações de evangelização, que incluem distribuição de alimentos e materiais religiosos. Já na Marcha Estadual pela Vida e Liberdade Religiosa, é comum ver transeuntes observando a manifestação, registrando fotos e ouvindo os discursos.

Quanto à relação com o poder público, como os três eventos fazem parte do calendário oficial da cidade, há a necessidade de autorizações e apoio logístico, incluindo segurança e organização do trânsito. A Festa de Navegantes, por sua dimensão, mobiliza um aparato estatal maior, contando com suporte de diversas instituições públicas e com a presença de autoridades políticas, como prefeitos e governadores.

Como você interpreta as negociações e concessões entre organizadores religiosos e autoridades públicas para viabilizar esses eventos? Essas manifestações públicas têm implicações para o debate sobre a laicidade e a ocupação do espaço público?

Todos os eventos dependem, em alguma medida, de infraestrutura pública para serem realizados. A questão da laicidade sempre está em debate quando se fala de manifestações religiosas no espaço público, mas esses eventos ocorrem assim como diversas outras manifestações políticas e sociais, fazendo parte do exercício da liberdade religiosa em uma sociedade democrática.

O que pode gerar questionamentos é a forma como cada evento se relaciona com o poder público e quais recursos são destinados a eles. Na tese, analiso detalhadamente essas articulações políticas e as presenças e ausências de figuras públicas, o que revela diferentes relações entre as religiões e o Estado.

Houve alguma descoberta ou perspectiva que a surpreendeu durante a pesquisa?

Uma das questões que me chamou atenção foi a posição dos organizadores da Marcha para Jesus em Porto Alegre, que, diferentemente de outras edições do evento em cidades como São Paulo, procuram se distanciar de discursos políticos explícitos.

Além disso, a comparação entre os três eventos permitiu compreender como diferentes tradições religiosas constroem sua presença pública de maneiras variadas, acionando discursos sobre cultura, pertencimento e direitos religiosos.