IFCH Trajetórias: A jornada internacional de Thales Speroni
Mais uma entrevista da série IFCH Trajetórias, que destaca a trajetória de egressos do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS.
Egresso do curso de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia do IFCH/UFRGS, Thales Speroni construiu uma trajetória acadêmica internacional voltada ao estudo da migração e da proteção social transnacional. Atualmente, é pesquisador de pós-doutorado no Centre Norbert Elias, na França, onde integra o projeto Ancestral Citizenship.
Thales destaca a importância da formação no IFCH para sua carreira, especialmente a orientação das professoras Lorena Holzmann e Cinara Rosenfield, que incentivaram sua internacionalização. Nesta entrevista, ele compartilha sua experiência acadêmica, os desafios da pesquisa sobre migração e suas reflexões sobre o papel da ciência no debate migratório global.
Para mais informações sobre sua trajetória e pesquisas, acesse sua página pessoal: www.tsperoni.com e o site de seu projeto de pesquisa atual: ace.hypotheses.org.
Você se formou em Ciências Sociais e concluiu o mestrado e o doutorado em Sociologia na UFRGS, em parceria com a Universidade Autônoma de Barcelona. Como essa formação influenciou sua trajetória acadêmica e sua escolha pelo estudo das migrações e da proteção social transnacional?
Minha formação no IFCH foi fundamental para minha trajetória acadêmica. O ambiente instigante de curiosidade e debate intelectual de alto nível que vivi ali todos esses anos me proporcionou uma base teórica sólida e diversificada que abriu portas para que eu pudesse escolher com maior autonomia e fundamento a minha área de especialização. Os professores e professoras que tive - em particular as minhas orientadoras de TCC, dissertação e doutorado, as professoras Lorena Holzmann e Cinara Rosenfield - foram mentores que constantemente incentivavam e contribuíam para a internacionalização da formação, o que me motivou a buscar parcerias com instituições estrangeiras, como a Universidade Autônoma de Barcelona. Também é importante destacar o apoio do pessoal técnico do Instituto para que isso fosse possível e o contexto daquele momento, em que existiam políticas do governo federal de amplo espectro para a internacionalização da ciência.
Sua pesquisa tem um forte foco na proteção social transnacional e nas estratégias adotadas por migrantes para superar desigualdades. Como surgiu esse interesse e quais foram os principais desafios e descobertas ao longo dos anos?
Eu escolhi as migrações e as dinâmicas transnacionais porque são um componente central da reconfiguração da questão social e, portanto, estudá-las permite que eu tenha uma carreira implicada com os desafios sociais contemporâneos. Também me permitem abordar a questão teórica que mais me interessa: como as pessoas e as instituições atuam frente a um quadro de complexificação da sociedade que leva a inúmeras dinâmicas contraditórias, tensionadas e incongruentes? Como os sujeitos atuam em um mundo que se despedaça, que não nos oferece certezas, e que ao mesmo tempo oferece instrumentos para conhecê-lo, mas muitas vezes obstaculiza a sua transformação positiva?
No que concerne aos desafios, eu chamaria a atenção para dois aspectos interrelacionados. Por um lado, existe uma desigualdade importante entre o sul e o norte global no que concerne aos recursos disponíveis para pesquisa, e isso tem implicações profundas sobre como as migrações são estudadas. Há uma tendência generalizada de as migrações serem vistas como um "problema" para o norte, havendo poucos incentivos institucionais para o desenvolvimento de pesquisas de caráter transnacional, em colaboração com pesquisadores e pesquisadoras do sul global. Ao mesmo tempo, há uma tendência de invisibilização das migrações sul-sul.
Quanto às descobertas, destaco como a transnacionalização contemporânea se caracteriza por processos de ação intersticial "desde baixo". Não estamos diante do mito da globalização de um mundo completamente conectado, mas sim de uma realidade onde os muros persistem (e aumentam em número), enquanto simultaneamente surgem mais ferramentas para construir relações sociais, culturais e políticas através das fronteiras. Observamos também um crescimento na necessidade e no desejo de migrar - seja por precariedade nas condições de vida, pela busca de sonhos inimagináveis para as gerações anteriores, ou pela fuga de conflitos armados e perseguições.
Você possui uma trajetória acadêmica e profissional internacional, tendo trabalhado e pesquisado em instituições na Espanha, França, China, Canadá e Brasil. Quais foram os principais desafios e aprendizados ao atuar em contextos tão distintos?
Embora seja verdade que existem condições e culturas de trabalho muito diferentes entre os países, algo que sempre exige dos acadêmicos-migrantes uma flexibilidade e capacidade de adaptação, eu acredito que os principais desafios da ambição de construir uma carreira internacional têm a ver com a distância da família, o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, e a constante necessidade de integração em cada novo destino.
Quanto aos aprendizados, cada contexto me ensinou formas distintas de produzir e comunicar conhecimento. No IFCH, eu consegui ter todas as ferramentas teóricas, foi onde eu passei a ser sociólogo e também foi onde eu pude ter contato com outras formas de fazer sociologia. Na UAB, em Barcelona, foi onde eu pude me especializar no estudo das migrações, ter contato com projetos internacionais de maior envergadura e poder desenvolver uma prática profissional com impacto direto na sociedade.
Atualmente, você atua como pesquisador de pós-doutorado no Centre Norbert Elias, vinculado ao CNRS, na França, no projeto "Ancestral Citizenship". Poderia nos contar mais sobre esse projeto e como ele se relaciona com suas pesquisas anteriores sobre migração e proteção social?
O projeto "Ancestral Citizenship" investiga como o acesso extraterritorial à cidadania por vínculos sanguíneos molda a construção da Europa, vinculando gerações nascidas dentro e fora do continente. Ele foca em três estados-membros da UE – Alemanha, Itália e Bulgária – e examina as políticas de cidadania, as aspirações individuais dos requerentes e os intermediários que facilitam esse processo. Essa pesquisa se relaciona diretamente com meu interesse em entender as dinâmicas de transnacionalização dos sujeitos, seus direitos e pertencimentos.
Com sua experiência acadêmica internacional, quais sugestões você daria para os estudantes do IFCH que desejam expandir sua atuação para além do Brasil? Quais estratégias podem facilitar essa inserção internacional?
Hoje, a internacionalização da carreira não precisa envolver necessariamente a mobilidade física. Eu recomendaria que os estudantes se engajassem em redes internacionais, mesmo que por meios virtuais. Também é fundamental ter uma visão sobre a própria trajetória que não seja nem chauvinista nem caia na armadilha da síndrome de vira-lata. A mobilidade entre diferentes instituições deve acontecer com uma abertura para experiências diversas.

