Plataforma busca expandir o conhecimento antropológico para além das fronteiras acadêmicas

Louise Pasteur de Faria: idealizadora da plataforma

 

A Halo Ethnographic Bureau é uma plataforma de divulgação do pensamento etnográfico com sede em Londres. O ambiente digital foi criado por Louise Pasteur de Faria, Doutora em Antropologia pelo Departamento de Antropologia Social da UFRGS, e Lívia Stroschoen Pinent, mestre em Antropologia pelo mesmo departamento e Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho. Ambas são pesquisadoras associadas ao GAEP - Grupo de Antropologia Econômica e Política (NUPECS). 

 

A plataforma, lançada em fevereiro de 2019, tem o objetivo de promover a antropologia para além das fronteiras disciplinares, através de produção de conteúdo e workshops em universidades, empresas e eventos. 

 

A Halo produz conteúdo sobre pesquisa antropológica e antropologia aplicada, através de uma rede de colaboradores espalhados pelo mundo, envolvidos em projetos dos mais variados como: pesquisa acadêmica, desenvolvimento e empreendedorismo social, startups, consultoria e desenvolvimento urbano. 

 

Na entrevista, realizada por e-mail, Louise Pasteur de Faria fala sobre os planos para o futuro da plataforma e sobre possibilidades de inserção profissional dos antropólogos.

 

1) Como surgiu a ideia da plataforma?

A ideia que deu origem à plataforma Halo Ethographic Bureau surgiu em 2017. Foi fruto de uma profunda reflexão sobre carreira acadêmica, trajetória profissional e a importância do saber Antropológico nos dias de hoje. O conhecimento etnográfico - situado, repleto de nuances e em busca constante de equilíbrio entre teoria e prática - é fundamental no mundo em que vivemos. Mais do que defender a importância da etnografia, queríamos chamar atenção de antropólogos para a necessidade de pensar suas próprias carreiras, dentro e fora da universidade. O mercado de trabalho acadêmico é extremamente competitivo mundo afora e a universidade nem sempre é o melhor lugar para crescer como profissional. É preciso pensar a carreira acadêmica de maneira mais ampla e não simplesmente restrita a uma posição dentro da universidade. A Halo foi pensada para ser uma plataforma não só para divulgar e advogar pela importância da antropologia e da etnografia, mas para inspirar novas possíveis trajetórias e servir como um ponto de articulação para materializar novos caminhos.  

 

2) Qual a importância da iniciativa?

Já temos brilhantes iniciativas que expandem os limites da prática antropológica. Plataformas como Allegra Lab e Savage Minds são exemplos disso. Cada vez mais antropólogos estão se dedicando a pensar possíveis futuros para a disciplina e já é bastante claro que temos que nos engajar com o mundo lá fora para continuarmos relevantes. Pensamos a Halo Ethographic Bureau para ocupar um espaço ainda pouco explorado nesse diálogo, que é encurtar a distância entre academia e indústria, e servir como uma ponte de melhores práticas para esses dois universos. Trazer o know-how da indústria para a academia e levar conhecimento denso para o mercado. 

 

3) Que tipo de contribuições a Halo traz ao pensamento antropológico e ao fazer etnográfico?

Do ponto de vista teórico, refletimos sobre a importância da linguagem e da tecnologia para o pensamento antropológico. A escrita, parte fundamental de nossa  formação enquanto antropólogos, é muitas vezes negligenciada na rotina acadêmica. Pensar linguagem enquanto modo de expressão e engajamento com o mundo é fundamental para diminuir a distância entre a disciplina e o público leigo. Em nossas plataformas, desenvolvemos conteúdos, a partir de uma análise de audiência, de forma, estilo e gênero literário. Um ótimo exemplo é o modo como gerenciamos o nosso perfil no Instagram. Todas as quintas-feiras, publicamos, no Instagram Stories, conteúdo sobre teoria antropológica que chamamos de #TBT Throwback Theory. É o nosso dia de maior audiência. Com ajuda de imagens e recursos de linguagem digital, conseguimos chegar até pessoas que nunca ouviram falar sobre Marcel Mauss ou Claude Levi-Strauss- de uma maneira acessível e simpática. Um outro ponto importante é a nossa busca em situar a especificidade da prática etnográfica entre o público leigo. Dividimos exemplos de pesquisadores ao redor do mundo, além de produzir artigos sobre etnografia e pesquisa. 

 

4) Como explicar a um leigo a relevância disto que chamam antropologia aplicada?

Não é de hoje que antropólogos são contratados por empresas para conduzir estudos etnográficos. Desde a década de 1980, isso se tornou uma prática bastante comum em diferentes indústrias. Apesar disso, a antropologia mantém uma aura de mistério e curiosidade nesses campos profissionais. Da mesma forma, para antropólogos acadêmicos, a vida fora da universidade parece opaca e abstrata. Durante nossa formação acadêmica, não somos estimulados a pensar a nós mesmos enquanto profissionais; muito menos a imaginar novos caminhos fora da rotina acadêmica. Isso é extremamente prejudicial para nossas carreiras. Um meio de desmistificar a antropologia aplicada é mostrando bons exemplos- que não são poucos; e também o caminho das pedras- que não é tão difícil assim. 

 

5) Como vocês desenvolvem os workshops, palestras e cursos?

Nós criamos nosso próprio método didático, baseado no pensamento etnográfico. Entendemos adaptabilidade, transparência, pensamento metodológico e empatia como eixos fundamentais de aprendizado. Nossos workshops oferecem a oportunidade de entender a complexidade e o caráter relacional do humano, para trabalhar, a partir dessas perspectivas, para resolver problemas práticos e atingir objetivos concretos, sejam estes acadêmicos ou dentro das organizações. Para isto, incluímos também alguns métodos práticos dos processos criativos, como os frameworks e os mapas conceituais, para ajudar o aluno a visualizar o problema e desenhar a solução, sem deixar nenhuma etapa para trás, combinando criatividade e rigor científico.

 

O antropólogo e jornalista Calvin da Cas Furtado colaborou com a matéria.