Telemedicina e a Redução de Filas no SUS: Estudo publicado na RIPS

A telemedicina tem emergido como uma solução relevante para melhorar a eficiência do Sistema Único de Saúde (SUS). Um estudo recente, desenvolvido no âmbito do curso de Políticas Públicas da UFRGS e publicado na Revista Interdisciplinar de Promoção da Saúde (RIPS), apresenta evidências do impacto positivo dessa tecnologia na gestão de filas de espera em consultas especializadas. O artigo é assinado por Villenev Vilella Munhoz Guazina, egresso do curso de Políticas Públicas, e pela professora Marília Patta Ramos, do Departamento de Sociologia e do PPG em Políticas Públicas da UFRGS.
Com foco no Projeto Médico Online, implementado em Canoas (RS), a pesquisa utilizou métodos científicos para mensurar a redução do tempo de espera por consultas em cardiologia. Os resultados indicaram uma redução de 81% no tempo médio de espera durante o período de utilização da telemedicina.
Abaixo, compartilhamos a entrevista completa com Villenev Vilella Munhoz Guazina, que detalha a motivação para a pesquisa, os desafios enfrentados e os aprendizados adquiridos ao longo do processo.
Entrevista com Villenev Vilella Munhoz Guazina
Poderia nos contar um pouco sobre o desenvolvimento do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que serviu de base para o artigo publicado? O que o motivou a escolher esse tema e quais foram as etapas mais marcantes do trabalho?
Inicialmente, posso dizer que foi muito gratificante construir este trabalho em cooperação com a Dra. Marília Patta Ramos, que foi quem me orientou no TCC e sugeriu submeter à publicação para a Revista Interdisciplinar de Promoção da Saúde (RIPS). Sem ela, este trabalho não teria sido possível, então meus agradecimentos a ela.
A motivação foi verificar, a partir do método científico, se minha hipótese inicial estava correta. Essa hipótese referia-se à impressão sobre o impacto positivo que a prestação de serviço em telemedicina estava proporcionando aos cidadãos usuários do SUS em Canoas. Eu atuei como analista administrativo júnior na empresa que prestou o serviço de telemedicina ao município, lidando diariamente com os dados do projeto. Essa experiência permitiu-me unir os conhecimentos teóricos adquiridos na graduação com minha vivência prática para testar a hipótese.
Sobre as etapas marcantes, destaco três:
O tempo de espera para autorização do uso dos dados para pesquisa;
O trabalho de convencimento junto à Secretaria de Saúde para obter essa autorização;
As saídas de campo para debater pessoalmente com agentes públicos, agilizando os trâmites para cumprir os prazos do TCC.
De onde surgiu a ideia para desenvolver sua pesquisa sobre o impacto da telemedicina na fila de espera por consultas em cardiologia no município de Canoas?
A ideia surgiu da minha experiência como analista administrativo no projeto e da oportunidade de "unir o útil ao agradável": utilizar minha atuação profissional nos bastidores do Projeto Médico Online, vinculado a uma política pública, para desenvolver uma pesquisa que contribuísse cientificamente com o tema. Além disso, lidar diariamente com os dados de resultados da telemedicina me permitiu entender a relevância do projeto e o impacto que ele poderia gerar nos usuários do SUS.
Quais foram os principais desafios encontrados ao aplicar o método de séries temporais de Ignácio Cano para avaliar o Projeto Médico Online?
O maior desafio foi conceitual, relacionado à definição do termo "impacto" nos resultados após a intervenção em telemedicina. Apesar de a metodologia ter sido adequada, acredito que o número de casos analisados no pós-intervenção talvez não tenha sido suficiente para usar o termo "impacto". Por isso, considerei mais seguro empregar o termo "associação" ao descrever os resultados no artigo.
Quais são os principais aprendizados que essa pesquisa trouxe sobre o papel da telemedicina na gestão de filas na atenção especializada?
O principal aprendizado é que é possível reduzir significativamente as filas de espera por consultas com especialistas no Brasil por meio de estratégias em saúde digital. Além disso, a pesquisa reforça que vontade política, estudos de viabilidade técnica e o uso de boas práticas em gestão pública podem fornecer instrumentos eficazes para enfrentar a demanda reprimida por consultas especializadas.
Você acredita que os resultados obtidos podem ser replicados em outras áreas ou ampliados para toda a rede do SUS?
Sim, acredito que a telemedicina tem potencial para ser expandida, especialmente com o avanço de tecnologias como a inteligência artificial. A regulamentação do uso da telemedicina em 2022 foi um passo importante, mas novos estudos de viabilidade econômica e experiências em parcerias público-privadas serão fundamentais para garantir sustentabilidade.
Você pretende dar continuidade a essa linha de pesquisa?
Sim, pretendo aprofundar a análise de outro aspecto importante: o absenteísmo em consultas no SUS. Esse indicador é essencial para avaliar a gestão de filas e pode contribuir tanto para a fase de monitoramento quanto para a avaliação de impacto de políticas públicas.
Sobre a Revista
A Revista Interdisciplinar de Promoção da Saúde (RIPS) é a publicação oficial do Programa de Pós-Graduação em Promoção da Saúde e do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), no Rio Grande do Sul.

