Santa Casa de Misericórdia de Pelotas

Paula Viegas

Fundada em 20 de junho de 1847, a Santa Casa de Misericórdia de Pelotas é a primeira instituição assistencial da cidade e um hospital de grande destaque na zona sul do Rio Grande do Sul. Sua história é atravessada por diversos acontecimentos marcantes do século XIX, como a Guerra dos Farrapos, a urbanização da cidade e a escravidão.

Figura 1: Imagem aérea da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas

Fonte: Site da Instituição[1]

O objetivo deste estudo é compreender o contexto social, econômico e cultural da cidade no momento da inauguração da Santa Casa, além de identificar os problemas que ele pretendia resolver. Também serão destacados alguns atores e organizações que se mobilizaram para isso. Por fim, busca-se compreender como essa história está relacionada com as informações que temos acesso hoje sobre a instituição.

Para isso, foram coletadas pesquisas relacionadas à Santa Casa através da plataforma Google Scholar[2]. Numa busca pelo termo “santa casa de misericórdia de pelotas” foram encontrados 566 resultados, de textos publicados desde 1970 até hoje. Também foram coletadas informações atuais nos canais de comunicação da instituição, fazendo um contraste entre as informações expostas no material institucional e na produção científica.

Para sistematizar as informações coletadas, o texto foi dividido em quatro seções. A primeira trata da história da cidade de Pelotas, seu surgimento, os fenômenos sociais,  culturais e sanitários que ocorreram no século XIX. Na segunda seção foi abordada a implementação da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, especialmente a partir de estudos históricos específicos sobre a instituição. Na terceira parte, foram destacados alguns estudos de diferentes áreas da saúde que analisam casos que atravessam de algum modo a instituição. Por fim, foram coletados alguns materiais institucionais a partir dos canais de comunicação da Santa Casa e algumas informações atuais sobre sua gestão.

 

1 História da saúde em Pelotas

Conhecida como “Princesa do Sul”, devido ao seu desenvolvimento cultural e econômico significativo na região[3], a cidade de Pelotas tem sua história marcada por tradições portuguesas e africanas. A cidade está localizada a 250 km da capital do estado, Porto Alegre. É reconhecida pela produção de doces tradicionais, destacada em um evento anual, a Fenadoce[4], e também pelas charqueadas. Mais informações sobre a cidade podem ser acessadas em documentários como Olhares sobre Pelotas[5], que trata do período pré-colonial até os dias atuais a partir de temas como a Praça Coronel Pedro Osório, A sociedade do Charque, Culturas e Tradições da Princesa do Sul.

Entre as primeiras referências históricas sobre o surgimento do município, está a doação que Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadela, fez ao Coronel Thomáz Luiz Osório, das terras que ficavam às margens da Lagoa dos Patos em 1758. O que popularizou a cidade inicialmente foi a vinda de habitantes da Vila de Rio Grande que buscaram refúgio devido à invasão espanhola, em 1763, e a chegada de retirantes da Colônia do Sacramento, entregue pelos portugueses aos espanhóis em 1777. A então Freguesia de São Francisco de Paula, fundada em 07 de Julho de 1812, foi elevada ao status de vila em 1832 e de cidade em 1835, com o nome de Pelotas[6].

Foi neste período que a cidade começou a esboçar um fenômeno urbano, criando uma ideia de cidade como estilo de vida, assim como ocorria em outras do Rio Grande do Sul. Este fenômeno está ligado à modernização e desencadeia uma série de de novos valores e conquistas tecnológicas a partir da internacionalização de uma ordem burguesa de matriz europeia (DOS ANJOS, 1999). Principalmente devido à indústria do charque, a cidade desenvolveu economicamente e se organizou de modo cosmopolita na busca por um ideal de cidade moderna a partir da arquitetura, moda, comportamento, etc. Neste período, além da instalação da rede de esgotos e do sistema de transporte público, foram fundados estabelecimentos como a Biblioteca Pública Pelotense e grandes jornais da época.

Figura 2: Linha do tempo no início do século XIX


Fonte: Site da prefeitura de Pelotas[7]

Toda essa modernização e desenvolvimento econômico foi baseado na violência de povos escravizados, o que não aparece muitas vezes em textos sobre a história da cidade. As conhecidas charqueadas foram espaços em que muitas pessoas negras foram escravizadas, exploradas e torturadas. Atualmente estes lugares são pontos de turismo e promovem festas como raves e casamentos, além de ser cenário de muitas fotos de formatura. Ou seja, assim como em todo Brasil, podemos observar uma tentativa de camuflagem e negação deste passado violento[8].

Conceição e outros (2008) apontam que com a elevação à categoria de cidade em 1835 e a ligação comercial do município com grandes centros do país e do exterior, Pelotas se desenvolveu economicamente sendo reconhecida por suas indústrias, como curtumes, fábricas de velas, sabões e adubos. Toda essa produção foi sendo pautada com muitas contradições devido a desumanidade do trabalho escravo e a formação de uma elite aristocrática riquíssima. Neste começo de século, a vida cultural era muito intensa. O Teatro Sete de Abril, por exemplo, um dos mais antigos do Brasil, foi inaugurado em 1834 ao lado de casarões dos charqueadores ao redor da Praça Coronel Pedro Osório.

Figura 3: Mapa de Pelotas em 1935


Fonte: Gutierrez (1993) apud Conceição e outros (2008)

Segundo Loner, Gill e Scheer (2012), o povoamento da cidade ocorreu com a vinda de pessoas da região de Rio Grande, que era muito ventosa, trazendo prejuízo para qualidade do charque, e porque Pelotas tinha muitos rios e arroios, o que permitia o rápido escoamento. Além disso, a planura do espaço e a vegetação local eram proveitosos para o desenvolvimento. Apesar disso, no século XIX, as condições sanitárias da cidade ainda eram muito precárias, provocando muitas doenças. E ainda havia muitas pessoas escravizadas, mesmo com a campanha de liberdade condicional ou definitiva que, no Rio Grande do Sul, teve seu ápice em 1884.

“As doenças que afetavam a vida dos escravos eram aquelas comuns à maioria da população, ampliadas pelas condições precárias de exercício dos diversos trabalhos manuais com os quais se ocupavam. Dessa forma, foram muitos os casos de tuberculose que ocasionaram a morte de imenso número de pessoas; de varíola, especialmente quando relacionada a uma espécie de pico de contágio; de disenteria e de febre tifoide, vinculadas às péssimas condições de saneamento da sociedade; de boubas, também conhecidas como úlceras bubáticas e febre bubeira” (LONER; GILL; SCHEER, 2012, p. 142).

A tuberculose era a doença mais provocava mortes na cidade de Pelotas na virada no século XIX para o XX, afetando principalmente os pobres, como homens naturais da zona urbana, jornaleiros, domésticos, negros ou pardos, solteiros, com idade entre 21 e 35 anos  (GILL, 2021). Isso ocorria especialmente porque os pobres viviam em locais com infraestrutura precária e trabalhavam em lugares insalubres. No começo do século XX, outra epidemia que ganhava destaque era a gripe espanhola, que gerou grande mobilização civil, como a Revolta da Vacina, que fez Pelotas realizar campanhas intensivas e contínuas de vacinação. A internação nos hospitais possibilitava que os doentes fizessem exames e tomassem remédios, mas também separava-os de seus parentes e dos ambientes produtivos. A hospitalização abarcava poucos adoentados e a maioria ainda falecia em casa.

 

2 O Hospital Santa Casa de Misericórdia de Pelotas

Neste contexto de modernização, urbanização, desenvolvimento econômico e desigualdade, a Santa Casa de Misericórdia de Pelotas foi fundada em 20 de junho de 1847. Santa Casa remete ao “Compromisso da Misericórdia de Lisboa”, composto por 14 obras de misericórdia, que são:

“ensinar os simples, dar bons conselhos, castigar os que erram, consolar os tristes, perdoar as ofensas, sofrer com paciência, orar pelos vivos e pelos mortos – e sete corporais – visitar os enfermos e os presos, remir os cativos, vestir os nus, dar de comer aos famintos e de beber aos sedentos, abrigar os viajantes e enterrar os mortos” [9].

Estas doutrinas são baseadas em fundamentos cristãos. A primeira a ser fundada foi a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, em 1498. No Brasil, a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia surgiu no período colonial e se destinava a enfermos dos navios dos portos e moradores das cidades, através de práticas que não eram científicas. As primeiras cidades em que foram implementadas tais instituições foram, respetivamente, Olinda (1539), Santos (1543), Salvador (1549), Rio de Janeiro (1582), Vitória (1551), São Paulo (1599), João Pessoa (1602), Belém (1619), São Luís (1657) e Campos (1792)[10].

Em Pelotas, a Santa Casa “surgiu com o espírito de caridade e assistência aos pobres, própria de sua organização no período medieval, mas com postura que, algumas vezes, pode ser relacionada ao paradigma antigo e, em outras ocasiões, ao paradigma do novo hospital” (LONER; GILL; SCHEER, 2012, p.148). Naquele período, o Brasil passava por uma mudança de mentalidade em relação à morte e à doença. O espaço do hospital também era visto como uma forma de descanso a corpos fragilizados pelo trabalho. Os negros escravizados, que eram por volta de 30% da população de Pelotas nessas décadas, deviam ser curados para que pudessem continuar exercendo suas atividades laborais.

A Misericórdia de Pelotas foi fundada durante o Segundo Império, como um auxílio aos pobres, e possuía diversas atividades de assistência. Além do hospital, que recebia enfermos, a Santa Casa monopolizava enterros no cemitério (fundado em 1855) e mantinha duas capelas para rezar missas pelos irmãos e benfeitores, que eram os dirigentes e as elites políticas e econômicas, favorecendo o controle dos mais ricos aos mais pobres Segundo Tomaschewski (2007), o fim da escrevidão e à queda da Monarquia, no final da década de 1880, marcaram este período, fazendo com que elites locais perdessem o poder político, e fazendo com que as irmandades fossem organizadas em um novo acordo político e social. Neste período, então, o hospital deveria receber não apenas os pobres, mas também aqueles que podiam pagar.

Figura 4: Imagem da Santa Casa em seus primeiros anos

Fonte: Site da Santa Casa de Pelotas[11]

Os trabalhadores de obras também eram frequentemente internados naquele período, devido a sua jornada de trabalho excessiva. De acordo com Bendjouya Gutierrez (2009), na Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, os obreiros eram originários de diferentes países, sendo 30,6% de portugueses; 23,1% de brasileiros; 12,4% de alemães; 9% de franceses; 6,4% de italianos; 5,7% de africanos; 2,7% de ingleses; 2,6% de espanhóis; 1,4% de norte-americanos; 1,1% de uruguaios; 1% de prussianos. Ou seja, mais de três quartos eram estrangeiros. Além disso, no período entre 1848 e 1888, os construtores hospitalizados na instituição eram 76,1% brancos, 12,8% negros e 10% “pardos”.

Com o passar do tempo, diferentes públicos começaram a ser atendidos na instituição. Segundo Vanti (2002), a família era a única responsável pelo gerenciamento das crianças até o século XIX, mas em 19 de março de 1848, a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas abriu as portas para crianças abandonadas, baseada no Estatuto das Casas de Caridade portuguesas.

Figura 5: Atendimento a crianças na Santa Casa

Fonte: Site Santa Casa de Pelotas[12]

De acordo com Tomaschewski (2014), a fundação das santas casas centralizava os serviços em uma única instituição típica do Império Português, recebendo assim o apoio real. A autora aponta que as irmandades se alinhavam ao estado, ao mercado e à dádiva, se organizando em nome da caridade, mesmo com a ligação com o Estado que as garantia o monopólio de assistência, especialmente pelo cuidado dos mortos.

Ao analisar as enfermidades de escravos nos Livros de Registro dos Internamentos do Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas (RS), entre 1870 e 1880, Loner, Gill e Scheer (2012) percebem que não havia tanto preocupação com a forma como o trabalho escravo era exercido, numa rotina intensa e rígida, que ocasionava sérias consequências para a saúde. Além disso, havia uma grande dificuldade em fazer com que os doentes buscassem o espaço hospitalar enquanto havia tempo para cura. Relatórios oficiais indicavam que 90% das pessoas morriam em casa naquele período.

 

3 Pesquisas diversas sobre a instituição

Diversas pesquisas relacionadas à Santa Casa foram publicadas especialmente nas duas últimas décadas. Estes estudos trazem informações nem sempre destacadas pela Santa Casa em seus materiais institucionais. Alguns tratam da instituição em seu contexto histórico, como foi explorado na seção anterior. Outros analisam casos atuais, pela perspectiva de diversas áreas da saúde. Tais reflexões valorizam o empírico e a diversidade de fenômenos sociais, culturais e biológicos que atravessam a instituição. Para ilustrar esse debate, foram destacados alguns artigos coletados inicialmente sobre a Santa Casa.

Lemos e outros (2019) implementaram um projeto de humanização na UTI do Hospital Santa Casa, buscando envolver todos os profissionais que trabalham no setor com os pacientes e seus familiares. O setor tem 10 leitos do Sistema Único de Saúde (SUS) e 10 leitos de convênios particulares, o que constitui dois grupos de  pacientes e familiares diferentes. Como resultado, os autores perceberam que há uma necessidade de melhora na comunicação por parte dos profissionais, no acolhimento de assistência psicológica aos familiares e na otimização do horário de visita.

Outra pesquisa relacionada à instituição, trata das exposições ocupacionais por material biológico a que foram submetidos os profissionais de saúde, no Hospital Santa Casa, de 2004 a 2008. A partir de um estudo transversal, Lima, Oliveira e Rodrigues (2011) perceberam que a maior ocorrência de acidentes de trabalho foram por técnicos em enfermagem do sexo feminino (38,6%), com idade de 21 a 30 anos (53,9%), e que a maioria dos acidentes aconteceu através de lesões com perfurocortantes (82,2%). O estudo conclui que é preciso conhecer os riscos existentes e intervir na sua redução, o que beneficia tanto o trabalhador, quanto a instituição.

Santos e Leite (2018) também identificam a  vulnerabilidade  dos profissionais de  Enfermagem frente  aos  riscos  biológicos, especialmente relacionados ao  risco  de  adquirir  patologias  como  HIV/AIDS,  Hepatite  B e C. Ao entrevistar profissionais da área, as autoras percebem que o ambiente é estressante e há sobrecarga de trabalho, o que representa um  risco psicossocial. Além disso, 100% dos profissionais admitiram estar expostos à infecções e 92% estão expostos a sangue, fluidos e secreções, pois há uma dificuldade no cumprimento de medidas preventivas.

Com base em Paulo Freire, outro estudo relata os principais desafios e conquistas do ponto de vista gerencial no que tange à implementação da Sistematização da Assistência de Enfermagem na Santa Casa e percebe que, mesmo com a deficiência de recursos humanos, este sistema foi bem sucedido, visto que desenvolve estratégias gerenciais dialógicas e reflexivas no coletivo (BACKES; SCHWARTZ, 2008). Também há uma análise sobre partos de 1993 e 1994, na Maternidade da Santa Casa, que percebe que 73,2% dos partos foram vaginais, enquanto 26,8% foram cesáreas. Estas últimas estão especialmente relacionadas à faixa etária da mãe e o peso do recém-nascido (REIS; BERGAMO; ZULIANI, 1997).

Buscando compreender a soroprevalência de doenças infecciosas em doadores de sangue do Hospital Santa Casa, Oliveira, Schwonke e Fernandes (2008) apontam que de um total de 14.655 coletas de sangue em 2007, 153 (1,05 %) bolsas foram descartadas devido à detecção sorológica de enfermidades transmissíveis por transfusão sanguínea. Entre os doadores, 74,70% são homens e 25,30% mulheres, e a maioria era doador esporádico ( 65,25%). Entre as doenças identificadas, 0,21% era de doença de Chagas; 0,04% vírus HIV; 0,72% Hepatite B e 0,04% para Hepatite C e 0,02%.

Além do hospital, também há estudos sobre o Cemitério da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, com discussões sobre morte e organização político-administrativa da cidade (AIRES, 2018) e um estudo comparativo da Capela da Santa Casa com a Casa Eliseu Maciel, que trata da memória das técnicas construtivas na cidade (NUNES, 2012). Ambos trabalhos são dissertações do mestrado em Arquitetura e Urbanismo da UFPel. Diversos outros estudos também fazem análises do Cemitério a partir de diferentes perspectivas, como a análise etnoarqueológica sobre a tentativa póstuma de imposição de poder através de bens materiais através de uma análise de documentos históricos e observação de túmulos (MACIEL; FERREIRA, 2011). O estudo trata da disputa de poder entre a alta classe do século XIX, como os charqueadores, e os diferentes padrões de túmulos e mausoléus.

4 Materiais institucionais e características atuais

A Santa Casa de Misericórdia de Pelotas possui diversos canais de comunicação, como seu informativo, perfis em plataformas de mídia social e seu site. Neste último é possível acessar fotos antigas e ler a história da instituição com diversos detalhes sociais, culturais e políticos da época.

“A Santa Casa de Misericórdia de Pelotas é a mais antiga instituição assistencial e hospitalar em funcionamento na cidade de Pelotas, no sul do estado do Rio Grande do Sul.
Em 20 de junho de 1847 foi oficializada a fundação da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, atendendo assim uma população que crescera e sofria as consequências da Revolução Farroupilha, desde 1840.
A Mesa Administrativa da Irmandade para reger os futuros do hospital, elege como primeiro provedor o Sr. José Rodrigues Barcelos. O livro de Atas, aberto em 30/06/1847 pelo escrivão José Vieira Pimenta, teve sua abertura anulada, depois de consulta ao Governo Imperial, por competir ao Juiz de Direito, Joaquim José da Cruz Seco, rubricá-lo e numerá-lo. Dez dias após esta posse o Escrivão José Vieira Pimenta requereu, na forma da lei, permissão para o recém fundado hospital possuir bens de raiz até o valor de cem contos de réis. Para obter meios, expediram-se circulares pedindo a colaboração das autoridades civis e militares e das pessoas que tivessem condições de prestar algum auxílio. O resultado foi excelente.
O atendimento clínico da Santa Casa na época era feito gratuitamente pelos Drs. Miguel Rodrigues Barcelos e João Batista Figueiredo Mascarenhas. O Dr. Josuá Bond era chamado algumas vezes, para tratar os colonos que não entendiam o português. Inúmeros médicos atendiam voluntariamente e no decorrer do ano a instituição foi aparelhada com uma caixa de amputações, estojo com instrumentos operatórios, copos e verificadores de ventosas, latas de ungüentos e vidros para remédios. Faziam parte dos empregados, além dos enfermeiros ( sendo um com a função de ser sangrador) dois casais de africanos livres, mandados pela Presidência da Província.
A Capela da Santa Casa é também denominada de Capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens. Para a construção desta obra, muito trabalhou o padre Nicolau de Gênova que exercia o sacerdócio gratuitamente. Foi inaugurada no dia 14 de julho de 1884, com a assistência de sua Exma. Revma. Bispo diocesano do Rio Grande do Sul, Dom Sebastião Dias Laranjeira.
[13]

A instituição possui um Arquivo Histórico com uma coleção de documentos sobre a história social dos séculos XIX e XX, a partir de temas como saúde, infância, religião e caridade (TOMASCHEWSKI e outros, 2008). O espaço conta com livros manuscritos, livros datilografados, impressos, recortes de jornal, correspondência de associações e sindicatos médicos, cópias de testamentos e inventários, registros de imóveis e comunicação interna, além de fotografias do século XX.

Figura 6: Higienização e remoção de grampos de fotografias do Arquivo Histórico

Fonte: Tomaschewski e outros (2008, p. 283)

A instituição também conta com um canal no YouTube[14] desde 2007, com um total de 1.864 visualizações nos vídeos; uma página no Facebook[15], com 17.384 curtidas; um perfil no Instagram[16], com 5.136 seguidores; e um perfil no LinkedIn[17], que mostram 148 funcionários cadastrados.

Atualmente, os serviços oferecidos pela instituição[18] são: 1) Banco de sangue; 2) Serviço de Diagnóstico por Imagem (CDI) com exames como  Raio X, Mamografia, Medicina Nuclear, Tomografia Computadorizada e Ressonância Magnética; 3) Centro Clínico, que tem como especialidades oferecidas Angiologista, Cardiologia, Cirurgia Geral, Cirurgia Pediátrica, Cirurgia Plástica, Cirurgia Torácica, Clínica Médica, Dermatologia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Gastroenterologia, Ginecologia, Nefrologia, Neurologia, Nutrição, Nutrologia, Otorrinolaringologia, Pediatria, Pneumologia, Psicologia e Urologia; 4) Centro De Radioterapia e Oncologia (CERON); 5) Articulações de ensino com Universidades e Escolas; 6) Internações/hotelaria; 7) Hemodiálise; 8) Laboratório de Análises Clínicas mais de 100 tipos de exames nas áreas de Bioquímica, Hematologia, Imunologia, Microbiologia, Urinálise e Parasitologia; 9) Maternidade; 10) Serviço Social; entre outros.

A administração[19] é composta pelo Provedor Dr. Maurício Alberto GoldBaum e pelo Vice-Provedor Eng. Ubirajara Terra. No Conselho Deliberativo – Gestão 01/07/2021 a 30/06/2024 – estão o Presidente Angelo Fernando Ortiz da Silva e o Vice-Presidente Elmar Carlos Hadler. No Conselho Fiscal – Gestão 01/04/2021 a 31/03/2023 –, os Titulares são Edilson Teixeira do Amaral Brito, José Francisco Lamas Domingues e João Taceli Finamor Machado.

Foram encontradas poucas informações mais aprofundadas e notícias sobre o momento atual da instituição, mas há um destaque para sua atuação neste contexto de pandemia. Ao comemorar os 174 anos, em 22 de junho de 1974, a Santa Casa inaugurou um Centro Clínico e realizou o fechamento de uma cápsula do tempo colocada em uma coluna de sustentação do prédio centenário do hospital[20]. Neste artefato, que deve ser aberto apenas em 2071, foram armazenados frascos de vacina, lista dos profissionais infectados e os que trabalham na pandemia, máscaras utilizadas pelos profissionais, registros fotográficos, entre outros materiais.

 

5 Considerações Finais

Além do contexto sanitário compreendido na história da saúde em Pelotas, esta pesquisa possibilitou entender a história do hospital atravessado por diferentes fenômenos. Isto porque no momento de seu surgimento a cidade passava pela modernização e urbanização. O desenvolvimento econômico e arquitetônico da cidade movimentava as ruas e potencializava as desigualdades.

Desenvolver este trabalho foi enriquecedor, tanto pelo conhecimento da cidade e do contexto sanitário, como pelo exercício do olhar crítico em relação ao que é ou não mostrado na história da Santa Casa. Diferente de muitos trabalhos desenvolvidos na turma sobre outras instituições, eu tive acesso a muitas referências históricas e atuais. Essas referências possibilitaram um olhar amplo do objeto, mas também exigiram muitas horas de leitura e sistematização do conteúdo.

Entender a história é parte fundamental da trajetória de um/a sanitarista. Seja do surgimento dos hospitais no século XIX em diferentes regiões do estado ou da criação do SUS no fim do século XX, este olhar permite que sejamos críticos, que lutemos por direitos humanos e que tenhamos esperança de que fases ruins vão passar.

REFERÊNCIAS

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BACKES, Dirce Stein; SCHWARTZ, Eda. Implementação da sistematização da assistência de enfermagem: desafios e conquistas do ponto de vista gerencial. Ciência, Cuidado E Saúde, v. 4, n. 2, 2008, 182-188. https://doi.org/10.4025/cienccuidsaude.v4i2.5247

BENDJOUYA GUTIERREZ, Ester Judite. Liberdade e morte: Cativos na Construção. 1848-1888. Pelotas. RS. BR. In: Anais…. XII Jornadas Interescuelas/Departamentos de Historia. Departamento de Historia, Facultad de Humanidades y Centro Regional Universitario Bariloche. Universidad Nacional del Comahue, San Carlos de Bariloche, 2009. Disponível em: https://cdsa.aacademica.org/000-008/207.pdf?view.

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Notas:


[1] Disponível em: https://santacasadepelotas.com.br/.

[2] https://scholar.google.com/

[3] Disponível em: https://blog.clubecandeias.com/conheca-pelotas-a-bela-princesa-do-sul/.

[4] Disponível em: https://fenadoce.com.br/pelotas-cidade-do-doce/.

[5] https://www.youtube.com/user/tajesferreira/videos.

[6] Disponível em: https://web.archive.org/web/20090325160800/http://www.pelotas.rs.gov.br/cidade_historia/pelotas_historia.htm.

[7] Disponível em: https://www.pelotas.com.br/cidade/historia

[8] Disponível em: https://www.nonada.com.br/2021/05/charqueadas-de-pelotas-ignoram-passado-escravocrata-e-promovem-festas-privadas/ e https://ne-np.facebook.com/NonadaJornalismo/videos/909035549941413/.

[9] Disponível em: https://iscmitu.org.br/historia-das-santas-casas/.

[10] Disponível em: https://iscmitu.org.br/historia-das-santas-casas/.

[11] Disponível em: https://santacasadepelotas.com.br/index.php/galeria-de-imagens/

[12] Disponível em: https://santacasadepelotas.com.br/index.php/galeria-de-imagens/ 

[13] Disponível em: http://santacasadepelotas.com.br/index.php/historia/.

[14] https://www.youtube.com/channel/UCopu8TuYiBTsvWL-MZ-Jkxw.

[15] https://www.facebook.com/santacasadepelotas/.

[16] https://www.instagram.com/santacasapel/.

[17] https://www.linkedin.com/company/santacasadepelotas.

[18] Disponível em: http://santacasadepelotas.com.br/.

[19] Disponível em: http://santacasadepelotas.com.br/index.php/provedoria-administracao/#.

[20] Disponível em: https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/cidades/santa-casa-de-pelotas-comemora-174-anos-com-c%C3%A1psula-do-tempo-e-inaugura%C3%A7%C3%A3o-de-centro-cl%C3%ADnico-1.642298.