Hospital Beneficência Portuguesa
Evelin Da Silva Michels De Paula
Gabriely Mainara Bosquerolli Cardoso
Introdução:
No seguinte trabalho, trazemos uma síntese a respeito da criação e formação de um dos maiores marcos arquitetônicos da cidade de Porto Alegre no estado do Rio Grande do Sul, o Hospital Beneficência Portuguesa. Aqui, iremos abordar a história da instituição, desde o princípio da sua ideia de formação até os dias de hoje no século XXI.
Além disso, falaremos quais motivos incitaram a formação do hospital e seus maiores objetivos na época, como também seu desenvolvimento e engrandecimento ao longo das décadas. Juntamente, mostraremos que a instituição se tornou referência no Brasil e no exterior em uma das áreas mais desafiadoras da Medicina.
A pesquisa tem como principal objetivo, compreender e correlacionar a formação da instituição de saúde com o período em que surgiu, mostrando assim, quais foram as mudanças que seu surgimento provocaram no sistema de saúde na época vigente.
Desenvolvimento:
Com o passar do tempo, após a independência do Brasil, membros da elite portuguesa que ainda habitavam o país, tiveram a ideia de criar uma organização que atendesse as necessidades dos imigrantes portugueses. Dessa forma, com iniciativa do vice – cônsul Antonio Maria do Amaral Ribeiro e membros da elite portuguesa, nasceu a Sociedade de Beneficência Portuguesa, em Porto Alegre no ano de 1854.
O principal objetivo da organização, que logo no final do ano de sua criação já contava com 557 integrantes, era criar hospitais filantrópicos que atendessem seus membros. A Sociedade ainda em seu início, não possuía sede própria, assim, estabeleceram um contrato com o hospital Santa Casa para o atendimento dos seus sócios.
Em 1858, houve um aumento no número de membros, então foi comprada uma casa na antiga rua da Figueira, pela quantia de 5:500$000 réis, nesse local, foi montado um hospital que suportava uma baixa demanda de atendimentos, por sua estrutura ser de pequeno porte. Em 1867, houve um surto de cólera em Porto Alegre, assim surgiu a necessidade de ampliar o local por conta da grande demanda de pacientes.
Por meio de doações foi obtido um terreno no antigo Caminho da Aldeia, que hoje é a atual Avenida Independência, doado pelo Dr. Dionisio de Oliveira Silveiro e sua esposa, Dr. Maria Sofia da Silva Freire Silveiro. Nesse local, foi criado o projeto da construção do edifício que mais tarde se tornaria o hospital Beneficência Portuguesa no qual conhecemos hoje, pelo engenheiro Frederico Heydtmann. Com as diversas doações, leilões e eventos para a arrecadação de recursos, em 1867 começaram as construções do edifício. Em 1971, ficou pronta a primeira capela dentro do prédio, e em 1972 foi instalado o padroeiro São Pedro, doado por José Fernandes Granja.
As obras continuaram, e em 1973 houve uma grande enchente na região, que desabrigou os moradores que viviam às margens do Guaíba, portanto, em 8 de outubro a Sociedade de Beneficência disponibilizou as áreas vazias do prédio para dar abrigo aos desabrigados pela enchente, assim rompendo com o costume de atender apenas portugueses. A Sociedade ampliou sua participação social, então em 1884, participou do movimento que emancipou os escravos, com a contribuição de diversas cartas de alforria distribuídas. Com o tempo, os atendimentos de associados e o volume do edifício aumentaram, graças a diversas doações, o local foi se aprimorando cada vez mais. Em 1892 foram feitas instalações, sendo assim criadas salas de consultórios, uma farmácia, e em 1894 foi aparelhada a sala de cirurgias com equipamentos vindos de Portugal que custaram 2:500$000 réis.
Em 1900, o patrimônio chegou a valer 397:080$940 réis, e sete anos depois conseguiram adquirir um terreno para a criação de um cemitério apenas para os associados da Sociedade. Em 1911, foi criada a enfermaria feminina, pois até então apenas homens eram internados no hospital, e nesse mesmo ano foi instalada a luz elétrica.
Em 1923 houve uma mudança na administração do hospital, passando a ser administrado pelas irmãs da Divina Providência, com a direção da Madre Egbrtina, já em 1928, foi inaugurada uma ala com os gabinetes de radiologia, um consultório e duas novas salas de cirurgia. Em 1936 foi estabelecida a maternidade, com a abertura de outra dependência, um ano depois foi adquirido um terreno em Gravataí, onde foi instalado o Retiro da Velhice. Em 1950 houve a inauguração de um novo bloco, com uma maternidade moderna, uma cozinha, novas salas de consultório e de operações.
Em 1951 foi realizado o IV congresso Sul – Americano de Neurocirurgia, com a participação da Beneficência Portuguesa, e nessa época por conta da participação na conferência os serviços neurológicos passaram a ser reconhecidos em âmbito nacional e internacional. No mesmo ano, a instituição foi premiada como primeira colocada no quesito de preferência do público, e também foi criada a clínica neurocirúrgica.
O hospital passou a ser referência em atendimento, sendo o mais procurado durante a década de 50 para a realização de partos, e também aprimorou-se com especialidades de neurologia e neurocirurgia. Passou também a receber pacientes encaminhados dos hospitais Conceição e Clínicas.
Após a reforma sanitária e criação do Sistema Único de Saúde (SUS), o hospital precisou passar por novas mudanças para se adequar ao novo sistema de saúde. Nessa época a instituição começou a sofrer com uma grande crise administrativa e financeira, assim foram estabelecidas várias parcerias para tentar alcançar uma forma de gestão mais eficiente. Apesar da situação em que o hospital estava passando, em 2003 ganhou destaque como sendo o segundo melhor hospital na prestação de atendimento do estado do Rio Grande do Sul. Entretanto, em 2007 o INSS decretou leiloar a instituição por conta das dívidas que estavam sendo acumuladas, porém a situação pode ser revertida judicialmente.
Desde 2015, a instituição passou a deixar de atender a população de maneira gradual, com a exclusão de diversos serviços. A situação do hospital passou a piorar a partir de 2011, com o surgimento de uma série de acontecimentos: como os afastamentos de administradores por suspeita de irregularidades, e também pela suposta superfaturação na realização de contratos, então ocorreu o rompimento entre o convênio e a prestadora de exames de imagem, assim o hospital deixou de fazer cirurgias ortopédicas e neurológicas.
Em 2017, a prefeitura de Porto Alegre disponibilizava cerca de 1,4 milhões de reais mensalmente para o hospital, mas em 29 de novembro do mesmo ano, a prefeitura rescindiu o contrato com a instituição, porque o hospital recebeu 7,7 milhões de reais sem destinar essa quantia para os serviços do SUS. No contrato, eram destinadas 116 vagas mensalmente para pacientes serem atendidos pelo SUS, no mês de outubro apenas dois pacientes tiveram atendimento, e em novembro não houve nenhum atendimento. No mesmo ano muitos funcionários tiveram seus salários atrasados por meses.
Por conta de toda a crise administrativa e financeira, a instituição quase fechou, então em 2018, o hospital fez um contrato com a Associação Beneficente São Miguel ( ABSM ), que desde então está administrando a instituição. Atualmente, as dívidas acumuladas durante tantos anos ultrapassam os 150 milhões de reais, e essa nova administração irá tentar quitar a dívida e evitar que o hospital feche. Por um tempo, acabaram os atendimentos pelo SUS, mas em 2019 os atendimentos voltaram como forma de pagar a dívida de mais de 9,2 milhões de reais com o município de Porto Alegre.
No dia 29 de junho deste ano, o Hospital Beneficência portuguesa, comemorou seus 151 anos de existência em um evento, com o anúncio de novas alas instaladas, uma das unidades revitalizadas que terá 32 leitos disponíveis, e a reabertura da capela. Nesse dia, também foi lançado o projeto “Brilha Beneficência”, que tem como objetivo restaurar e iluminar a fachada, os pátios e o chafariz do hospital.
Desde a nova administração a instituição passou por melhorias, e espera-se que continue a se reerguer gradativamente, para que não seja fechado. Atualmente, os atendimentos são feitos por convênios, pelo SUS e também é realizado atendimentos particulares.
Conclusão:
Com a realização dessa pesquisa, percebemos como os cenários existentes no fim do século XIX e início do século XX variavam conforme a classe social dos cidadãos que formavam a sociedade nesse período. Vemos dessa maneira, pelo fato que os portugueses quando perceberam que estavam com grandes dificuldades para fundar novas Santas Casas pós independência do Brasil, buscaram de imediato uma nova forma de conseguir com que seus enfermos fossem atendidos e cuidados, ou seja, não aceitavam ver seus “iguais” doentes sem um local ideal para os ajudar. Dessa forma, através desse pensamento coletivo, conseguiram por meio dos “fundos arrecadados”, constituírem um pequeno local para tratar enfermidades, mas, quando viram que a demanda era extremamente alta, buscaram ainda mais “fundos” para assim constituírem o prédio que hoje é o Hospital.
Em contrapartida, as pessoas mais humildes do mesmo período, dependiam das Santas Casas, que muitas vezes não apresentavam uma oferta de saúde tão adequada, e esses cidadãos acabavam por fim buscando curandeiros nas redondezas. Dessa maneira, conseguimos perceber o quão distintas eram as realidades sociais do período, os que tinham uma situação econômica mais adequada e um pensamento coletivo de saúde, conseguiam buscar formas que melhorassem suas condições, enquanto os mais vulneráveis ficam as margens do Estado.
A maior parte do período em que o hospital funcionou, foi para atender os ricos que moravam no Brasil, primeiramente portugueses e mais tarde brasileiros que também faziam parte da elite. Esse período é um exemplo de como funcionava a saúde pública no Brasil naquela época, em que direito à saúde era apenas para as pessoas que pudessem pagar por ela.
Após a implementação do SUS, o hospital passou a ter maior importância na comunidade, pois a partir de então os serviços prestados pela instituição passaram a ser direito de todos, contribuindo com a melhora da saúde pública. Sendo assim, um hospital de referência em atendimentos.
O hospital teve grande êxito em sua construção, funcionamento, e prestação de serviços, sendo considerado um dos melhores do estado do Rio Grande do Sul, uma grande quantia de dinheiro circulava para o controle da gestão dessa instituição, e provavelmente, isso chamou a atenção de pessoas oportunistas, que tentaram se beneficiar as custas dos recursos destinados ao hospital. Dessa forma, a instituição teve grandes prejuízos financeiros, com indícios de corrupção e roubo de verbas. Supostamente, muitas pessoas estiveram envolvidas nesses esquemas de roubos que duraram anos, fazendo com que o hospital chegasse à atual situação.
Portanto, após tamanha crise no setor administrativo, o hospital quase fechou, com tudo foi necessário encontrar novos administradores que pudessem ajudar nessa situação caótica ocasionada pela má administração de pessoas que eram responsáveis pela gestão dessa instituição. Assim, a Associação Beneficente São Miguel (ABSM) está desde 2018 tentando melhorar a situação do hospital, apesar das melhorias, a situação ainda é considerada complicada.
Referências Bibliográficas:
https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio-1102425
http://ahpoa.blogspot.com/2020/07/asinstituicoes-de-saude-porto_14.html
https://spb.org.br/hospital-na-historia/
https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio-1102425
