Cuidado Parental

Publicado em 13/12/2022

       A imaturidade ao nascer exige um olhar clínico diferenciado de estudiosos e equipes de saúde que se dedicam à área do Intensivismo neonatal. Por comprometer a adaptação extrauterina, sobrevida e qualidade de vida desses bebês, ela os torna dependentes de profissionais e recursos tecnológicos especializados por tempo inversamente proporcional tempo da gestação.(1)

        Indicadores populacionais, publicados recentemente, alertaram para os 15 milhões de prematuros nascidos em 2014; cerca de 10% dos neonatos vivos tinham menos de 37 semanas de gestação ao nascer.(2,3) A prematuridade tornou-se uma condição presente em vários países, a despeito do nível de desenvolvimento e localização geográfica, como mostra a Figura 1(3),. No Brasil, à época, 11,4% dos nascidos vivos foram recém-nascidos de pré-termo (RNPT), nos colocando na 10ª posição entre as dez nações com as maiores taxas identificadas.(2)

Figura 1 - Taxa de prematuridade estimada em 2014 Fonte: https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S2214-109X%2818%2930451-0

        Inegavelmente, a sobrevida de RNPT muito prematuros (IG: de 28 a 31 sem e 6 dias) e  RNPT extremos (IG: <28sem) depende ainda mais de conhecimento científico aprofundado quando  comparados com  RNPT moderados (IG: 32 a < 34 sem) e RNPT tardios (IG: 34 a < 37 sem); e que essa dependência implica em maior tempo de exposição ao ambiente desfavorável para o neurodesenvolvimento em curso.(4,5)

        Quanto à permanência hospitalar em unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN), um estudo sobre custos hospitalares de uma amostra de 112 crianças prematuras identificou que 59% delas eram RNPT moderados (23%) e RNPT tardios (36%) e 41% delas eram RNPT muito prematuros (32%) e RNPT extremos (9%). As medianas mais elevadas de permanência em UTIN, entretanto, foram atribuídas RNPT muito prematuros, 51.5 (29.00) dias, e aos RNPT extremos, 88.0 (58.00) dias. Corroborando esse achado, foram identificadas medianas de tempo em ventilação mecânica maiores nesses dois grupos, 11.5 (23.00) dias para os RNPT moderados e 54.0 (28.00) dias para os RNPT extremos. Patologias complexas próprias da imaturidade ao nascer (Síndrome do Desconforto Respiratório, Apneia da Prematuridade, Hemorragia Intraventricular, Pneumonia e Septicemia) contribuíram significativamente para que os RNPT mais vulneráveis permanecessem em cuidados intensivos pela demanda de suporte ventilatório, cardiovascular e nutricional desde o nascimento; e pela dificuldade para atingir a alimentação plena e o ganho ponderal adequado.(6) A Figura 2(7) tem como finalidade ilustrar os principais aspectos funcionais da imaturidade que comprometem a transição para a vida extrauterina do RNPT.

Figura 2 - Aspectos funcionais da imaturidade ao nascer que dificultam a transição do RNPT para a vida extrauterina.(6) Adaptado de: https://physoc.onlinelibrary.wiley.com/cms/asset/a7f5d0b4-bf40-43aa-b794-41cba369f7b4/eph12616-fig-0001-m.jpg

       A permanência do RNPT mais vulnerável no ambiente estressante da UTIN pode resultar em algum déficit de crescimento e ao prejuízo do desenvolvimento cerebral e sensorial da criança; manifestações essas, identificadas ao longo da vida.(8) Impossível, então, desconsiderar que os efeitos nocivos da privação precoce do meio intrauterino somados ao estresse por estímulos desagradáveis e dolorosos, à fragmentação dos períodos de sono, à privação do cuidado materno integral e da interação social com o pai e família prejudiquem ainda mais a harmonia entre crescimento e desenvolvimento desses RNPT.(4,5) Transtornos do espectro autista, déficit de atenção, hiperatividade, ansiedade, depressão, dificuldades motoras e sensoriais, problemas cognitivos e de linguagem também foram  associados aos indivíduos com maior grau de prematuridade ao nascer.(9)

         Uma metodologia envolvendo a inclusão familiar no cuidado à criança, o Family Centered Care (FCC), começou a ser introduzida no ambiente neonatal, considerada “padrão-ouro” para o cuidado em saúde.(10,11) Simplificando, trata-se de planejar o cuidado da criança não apenas como indivíduo isolado e sim como parte de uma família, tanto que a Academia Americana de Pediatria descreve essa abordagem como elemento essencial ao cuidado da criança a partir de uma parceria respeitosa dos profissionais de saúde com os pais das crianças, recomendando a capacitação e incentivo à participação parental no cuidado dos filhos.(10)  A qualidade na  interação materna com RNPT muito prematuros e extremos tem sido apontada como potencial para melhorar o neurodesenvolvimento do bebê após o nascimento, trazendo resultados neurocognitivos positivos quando as mães se mostravam sensíveis e compreensivas, respondendo e apoiando as necessidades do filho.(12,13)

A interação precoce com os pais é essencial ao bem-estar e ao desenvolvimento do bebê, independentemente de sua maturidade ao nascer. Aprendeu-se que a exclusão do cuidado ao filho reduz a interação pais-bebê; tanto que, vários programas envolvendo os pais no cuidado têm surgido em todo mundo. No caso do FCC, essa filosofia de cuidado neonatal se incorpora a comunicação aberta e honesta entre pais e profissionais; compartilhando questões de cuidados de saúde e possíveis questões éticas a serem discutidas com os pais.(12)

       A presença da mãe e do pai na terapia intensiva neonatal é reconhecida como fontes de estímulo ao apego e aos sentimentos de responsabilidade parental; desenvolvendo sua habilidade para cuidar e interpretar os sinais do bebê. Pais participantes se percebem necessários para o filho, ficam menos estressados, estabelecem melhor relação com as equipes e sentem-se mais à vontade para perguntar e ouvir. Sua presença também foi associada à melhoria do sono, redução da dor e desenvolvimento cerebral dos bebês. Por outro lado, sua ausência pode ser atribuída aos níveis de estresse, sentimentos de inadequação, sentimentos de desamparo, atitudes desencorajadoras da equipe e por dificuldades financeiras, trabalho e o cuidado de outros filhos.(5)

       Frente ao exposto, todas iniciativas que aproximam os pais do ambiente de cuidado neonatal são valiosas para a oferta de estímulos positivos ao neurodesenvolvimento fisiológico do RNPT. Contudo, na nossa prática convencional, a mãe e o pai ainda costumam ser considerados visitantes junto ao filho, seu papel é insipiente, seu envolvimento e valor na dinâmica hospitalar está pouco definido.

        Ainda há que percorrer um longo caminho até que a integração entre o cuidado parental e o cuidado técnico seja plenamente absorvida, tanto pelos pais como pelas equipes multiprofissionais da UTIN. Além de ser planejado criteriosamente, o compartilhamento precisará ocorrer de acordo com a cultura dos usuários e dos membros da equipe assistencial. O acolhimento, a compreensão e a generosidade das equipes de saúde são fundamentais para romper essas barreiras e adotar novos paradigmas.

Referências

  1. Balest AL. Preterm infants. 2021. Manual MSD: versão para profissionais de saúde. Available: https://www.msdmanuals.com/professional/pediatrics/perinatal-problems/preterm-infants.
  2. World Health Organization [Internet]. Geneva: WHO. Preterm birth. Available: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/preterm-birth
  3. Chawanpaiboon S, Vogel JP, Moller AB, Lumbiganon P, Petzold M, Hogan D, et al. Global, regional, and national estimates of levels of preterm birth in 2014: a systematic review and modelling analysis. The Lancet Glob Health. 2019;2(3).
  4. D’Agata, A.L., Young, E.E., Cong, X., Grasso, D.J., McGrath, J.M., Forsythe, P.L. 2016. Infant medical trauma in the neonatal intensive care unit (IMTN). Adv. Neonatal Care 16 (4), 289–297.
  5. Saxton SN. Walker BL, Dukhovny D. Parents matter: examination of Family presence in the Neonatal Intensive Care Unit. Am J Perinatol, 2020. https://doi.org/10.1055/s-0040-1701506.
  6. Zainal H, Dahlui M, Soelar SA, Su TT. Cost of preterm birth during initial hospitalization: a care provider’s perspective. PLoSONE, 2019 14(6). https://doi.org/10.1371/journal.pone.0211997.
  7. McDonald FB, Dempsey EM, O’Halloran KD. The impact of preterm adversity on cardio-respiratory function. Experimental Physiology.2020; 105:17–43. https://doi.org/10.1113/EP087490.
  8. Raghu VA, Vatsa M. Early neurodevelopmental supportive care: approach to enhance the neurodevelopmental outcome in premature and low birth weight infant. J Integr Health Sci 2021;9:99-106.
  9. Chung EH. ChouJ. Brown KA. Neurodevelopmental outcomes of preterm infants: a recente literature review. TranslPediatr 2020;9 (Suppl 1):S3-S8. http://dx.doi.org/10.21037/tp.2019.09.10.
  10. Yu X, Zhang J. Family‐centred care for hospitalized preterm infants: A systematic review and meta‐ Int J Nurs Pract. 2018. https://doi.org/10.1111/ijn.12705.
  11. Rahkonen, P., Heinonen, K., Pesonen, A.-K., Lano, A., Autti, T., Puosi, R.et al. (2014) Mother-child interaction is associated with neurocognitive outcome in extremely low gestational age children. Scandinavian Journal of Psychology 55, 311–318.
  12. Miller JV. Chau V. Synnes A. Miller SP. Grunau, RE. Brain Development and Maternal Behavior in Relation to Cognitive and Language Outcomes in Preterm-Born Children. Biological Psychiatry October 15, 2022; 92:663–673.
  13. Yu, X. Zhang, J. Family-centred care for hospitalized preterm infants: A systematic review and meta-analysis. International jornal of nursing practice, v. 25, n. 3. 2019. https://doi.org/10.1111/ijn.12705.

COMO CITAR:

MENDES, E.N.W. Cuidado parental: um aliado da terapia intensiva em prol do neurodesenvolvimento de neonatos mais vulneráveis. Blog LEVi@enf2022(viewed Dezembro 2022) Avaliable from: https://www.ufrgs.br/levi/cuidado-parental/