Gestante Com Sífilis: Orientações Básicas Que Todo Profissional De Saúde Precisa Saber

Gestante com sífilis:

Orientações Básicas Que Todo Profissional De Saúde Precisa Saber

Autoras

Gabriely Westphal Ramos; Michele Finger Chaves; Luisa Lopes de Agostinho; Edite Porciúncula Ribeiro; Márcia Koja Breigeiron

Publicado em 14 de dezembro de 2022.

    A sífilis é uma doença infectocontagiosa, causada pela bactéria Treponema pallidum, transmitida por meio de relação de sexual desprotegida (Sífilis Adquirida) ou de mãe para feto durante a gestação ou parto (Sífilis Congênita).1 A transmissão vertical pode causar graves consequências, tais como aborto, óbito fetal, malformações faciais, odontológicas e ósseas, distúrbios dermatológicos, cognitivos, neurológicos, visuais e auditivos. As manifestações clínicas da sífilis congênita podem aparecer em até os dois anos de idade (sífilis congênita precoce) ou após (sífilis congênita tardia).1-4

Fonte: Brasil/Ministério da Saúde/Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis – Indicadores de Sífilis nos Municípios Brasileiros, 2022

    A transmissão vertical da sífilis é considerada um evento sentinela em relação ao acompanhamento pré-natal, pois apesar da existência de protocolos com medidas de manejo resolutivas e custo-efetivas instituídos pelo Ministério da Saúde/Brasil, as taxas de detecção permanecem elevadas. Isso leva a um grande número de internações hospitalares de recém-nascidos para investigação e tratamento da sífilis.5;6

    Durante a internação para diagnóstico e tratamento de sífilis, os recém-nascidos são expostos a procedimentos dolorosos, radiação para realização de raio-x de ossos longos e a patógenos hospitalares. Ainda, são separados precocemente de suas famílias por no mínimo dez dias, período de duração para um tratamento adequado, prejudicando o estabelecimento de vínculo do recém-nascido com sua família.4;7. Ademais, as internações por sífilis congênita geram custos elevados às instituições de saúde.8

    Neste contexto, destaca-se o papel dos profissionais da saúde da Atenção Básica, uma vez que o pré-natal é o momento mais oportuno para diagnóstico e tratamento da gestante e do seu parceiro.6;9

    O Brasil possui diversas políticas públicas, com o intuito de qualificar o cuidado oferecido às famílias. Para o sucesso do diagnóstico e tratamento da sífilis gestacional e prevenção da sífilis congênita, algumas ações durante o pré-natal na Atenção Básica são preconizadas pelos principais programas e protocolos instituídos pelo Ministério da Saúde/Brasil:

Protocolo Clínico de Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepaites Virais

  •   Testagem rápida na primeira consulta, no início do terceiro trimestre de gestação (28ª semana) e no puerpério. Na indisponibilidade de teste rápido para sífilis, solicitar ao laboratório “Diagnóstico de sífilis”. Em caso de teste rápido reagente para sífilis, notificar o caso e solicitar VDRL para complementar a investigação.
  •  Se teste rápido for reagente/úlcera anogenital/contato sexual com pessoa infectada e não tratada nos últimos 3 meses, iniciar já na primeira consulta o tratamento com penicilina benzatina IM – único medicamente com eficácia documentada durante a gestação – no momento do diagnóstico, conforme estágio clínico da doença;
  •   Investigar e tratar as parcerias sexuais das gestantes (últimos 3 meses). Tratar para sífilis recente (independente de sintomas/resultado dos testes) e testar na mesma semana para decidir continuar tratamento para sífilis tardia.
  •   Orientar a gestante e parceiro quanto à prevenção (uso de preservativos femininos ou masculinos nas relações sexuais) e riscos de reinfecção e exposição fetal à sífilis.
  •   Monitorar mensalmente a gestante com teste não treponêmico e, após o parto, repetir até completar 1 ano (3, 6, 9 e 12 meses). Se houver qualquer VDRL/RPR com pelo menos 2 diluições a mais que o anterior ou houver persistência ou surgimento de sinais de sífilis deve-se investigar reexposição/tratamento incompleto e retratar a gestante e perceiros sexuais para sífilis recente ou tardia.
  •   Referenciar a gestante para maternidade/casa de parto com histórico de tratamento, resultado de exames de pré-natal e número da notificação no Sinan.
  •   O registro completo sobre diagnóstico de sífilis, exames realizados e tratamento da gestante e parceria sexual é essencial no momento do parto. A partir da testagem rápida realizada no momento do parto e do registro contido na carteira de pré-natal da gestante será definido o diagnóstico ou será realizada a investigação para sífilis congênita no recém-nascido. Assim, podendo-se evitar internações e intervenções desnecessárias ao neonato.

    A sífilis é um agravo de notificação compulsória!5 Portanto, todos os profissionais da saúde devem estar atentos às manifestações de sífilis tanto na gestante como em seu parceiro, para que o feto não venha a sofrer as consequências da doença. Diante de manifestações da doença, o tratamento adequado deve ser implementado, assim como orientações para prevenção de infecções sexualmente transmissíveis devem ser realizadas. Orientações em saúde fazem parte da atuação de todo o profissional da saúde.

Referências

  1. Silva I, et al. Perfil epidemiológico da sífilis congênita. Rev. de Enfermagem, UFPE online, 2019.
  2. Cardoso D, et al. Hospital admissions for congenital syphilis in Brazil. Brazilian Journal of Development. Curitiba, 2022.
  3. Rocha AFB, et al. Complications, clinical manifestations of congenital syphilis, and aspects related to its prevention: an integrative review. Rev. Brasileira de Enfermagem, online, 2021.
  4. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis, 2022
  5. Boletim Epidemiológico da Sífilis, 2021.
  6. Sífilis na gestação: barreiras na assistência pré-natal para o controle da transmissão vertical, 2020.
  7. Impactos da Sífilis Congênita e Internação Hospitalar em Recém-Nascidos: um relato de experiência, 2018.
  8. Custos das Internações Hospitalares por Sífilis Congênita no Estado do Ceará, 2021.
  9. Cadernos de Atenção Básica – Número 32: Atenção ao Pré-Natal de Baixo Risco, 2012.

Como citar:

RAMOS, G.W.; CHAVES, M.F.; AGOSTINHO, L.L.D.; RIBEIRO, E.P.; BREIGEIRON, M.K.; Gestante com sífilis: Orientações básicas que todo profissional de saúde precisa saber. Blog LEVi@enf2022(viewed December 2022) Avaliable from: https://www.ufrgs.br/levi/gestante-com-sifilis-orientacoes/