Hiperbilirrubinemia

Publicado em 16 de dezembro de 2022.

        A icterícia neonatal caracteriza-se pela elevação da concentração de bilirrubina (Bb) no sangue (Hiperbilirrubinemia), tornando a coloração da pele amarelada. A Hiperbilirrubinemia costuma ser classificada como “indireta” ou “direta” em função do tipo de bilirrubina que desencadeia a alteração; isso é, por excesso de Bb não conjugada ou indireta (BI; BI ³ 2 mg/dL), excesso de Bb conjugada ou direta (BD; BD ³ 1 mg/dL) ou por ambos excessos. A BI resulta da quebra da hemoglobina, que deve ser conjugada pelas células hepáticas do fígado para tornar-se hidrossolúvel e ser excretada para o duodeno por meio da bile e a BD remete à processo infeccioso e possível colestase.  A icterícia, como sinal clínico, Figura 1, pode ser considerada uma parte da fisiologia de transição do período intrauterino para o período neonatal; e, geralmente é identificada quando a taxa de Bb total (BT) acima de 5 mg/dL. Entretanto, quando há um aumento na destruição das hemácias e as funções hepáticas estão reduzidas ocorre a Hiperbilirrubinemia, intensificando a coloração amarelada da pele do recém-nascido (RN).(1, 2, 3)

        Trata-se de um problema clínico mundial, que afeta cerca de 481.000 recém-nascidos (RN) a cada ano, onde 114.000 morrem e por volta de 63.000 sobrevivem com sequelas moderadas ou graves.(1) Nos últimos 10 anos, no Brasil, ocorreram cerca de 1.008 óbitos por icterícia neonatal. A Hiperbilirrubinemia por concentrações elevadas de Bb indireta (BI) desencadeia um processo patológico lesivo ao cérebro, a encefalopatia bilirrubínica. A forma crônica dessa doença se chama Kernicterus; nela, os RN desenvolvem sequelas clínicas permanentes devido à toxicidade da bilirrubina. O diagnóstico médico da Hiperbilirrubinemia considera a idade pós-natal, a etiologia e os níveis séricos de BT para indicar o tipo de tratamento. Por conceito recente, a Hiperbilirrubinemia foi definida como “significante” quando a BT atinge valores ≥12 mg/dL; como “grave ou severa” se a BT for ≥20 mg/dL ou quando há indícios de encefalopatia bilirrubínica aguda em qualquer nível de BT; finalmente, como “extrema” quando a BT for ≥25 mg/dL e quando há evidências de encefalopatia bilirrubínica em fase inicial ou intermediária em qualquer nível de BT. A Figura 2 remete à identificação da icterícia intensa, de cor alaranjada, na pele e esclera, e os depósitos de Bb no tecido cerebral, Kernicterus.(2, 3, 4)

Os fatores de risco epidemiológicos e clínico laboratoriais para icterícia em RN com IG ≥ 35 sem. e o fatores de risco para neurotoxicidade bilirrubínica em prematuros apontados pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) estão descritos na Figura 3.(2)

        A icterícia por Hiperbilirrubinemia indireta (BI) tem progressão céfalo-caudal e pode ser avaliada por digitopressão sobre áreas determinadas da pele, sob luz natural, as chamadas Zonas de Kramer.(2, 5) O método de Kramer para o diagnóstico de icterícia alcançou 76,1% de precisão e uma concordância moderada com a avaliação transcutânea na avaliação de RN com ascendência negra.(6) A identificação visual da icterícia é mais confiável se avaliada por um profissional experiente, examinando o RN sob iluminação natural, antes do início da fototerapia; uma vez que, a luz artificial em excesso, pouca iluminação e a exposição à fototerapia comprometem o seguimento clínico do tratamento.(2, 5, 6, 7) A Figura 4 apresenta a correlação entre as zonas de Kramer na avaliação visual e os níveis séricos de BT; a Figura 5 mostra as zonas de risco na avaliação dos níveis de BT sérica.(7)

        Destaca-se a pouca concordância na avaliação clínica da icterícia, tanto por enfermeiros quanto por médicos. A estimativa clínica em RN com níveis de BT >12mg/dL mostra-se insuficiente e requer dosagem sérica da BT ou avaliação transcutânea com um bilirrubinômetro, como demonstrado nas Figuras 6.(2, 3)

A fototerapia, Figura 7, é o tratamento mais eficaz para a icterícia neonatal e consiste em um equipamento emissor de luz com irradiância espectral terapêutica padrão de 8 a 10 μW/cm2/nm (microwatts / centímetro quadrado / manômetro) ou intensiva de 30 μW/cm2/nm que entra na superfície da pele e transforma a bilirrubina não conjugada presente no sangue em um produto hidrossolúvel para poder ser excretado. A partir da observação clínica de uma enfermeira inglesa, Sister Jean Ward em 1956, da criação da fototerapia baseada em luz artificial por Cremer e colegas e da descoberta das alterações físicas e químicas por Mc. Donagh e Lighter em 1985, vários modelos novos e mais eficazes foram inseridos no mercado.(2, 8)

        Durante a fototerapia, a emissão de raios no comprimento de onda da luz azul tem como função diminuir os níveis plasmáticos de Bb e requer a exposição do RN despido com o uso de proteção ocular e de fraldas para proteção das gônadas. A bilirrubina absorve a luz emitida pelo aparelho, onde na faixa de 400 a 500 nm penetrará na epiderme e atingirá o tecido subcutâneo; sendo assim, apenas a Bb que circula próximo à superfície da pele (até 2 mm) será atingida diretamente.(2, 8, 9) O resultado da fototerapia será a transformação fotoquímica da Bb nas áreas que foram expostas à luz, alterando a estrutura da molécula de Bb e permitindo que ela seja eliminada pelos rins ou pelo fígado sem a ocorrência  de modificações metabólicas.(8)

        Os critérios de indicação da fototerapia ainda não tem consenso e seu embasamento se dá por “evidências limitadas”; tomando como parâmetros a” dosagem periódica da Bb total (BT), a idade gestacional e a idade pós-natal”.(2)

 

O enfermeiro pode instituir um plano de cuidados ao RN em fototerapia a partir das recomendações descritas abaixo:

  • Conhecer as diretrizes fornecidas pelos fabricantes para se familiarizar com os equipamentos envolvidos na fototerapia.
  • Posicionar o aparelho de fototerapia à, no máximo, 30 a 30,5 cm do RN. Na fototerapia com LED, o aparelho pode ser mantido a uma distância de até 15 cm do RN. Considerando a superfície mais elevada do RN.
  • Colocar proteção ocular e fraldas durante a fototerapia. Níveis muito elevados de Bb, contudo, indicam a remoção da fralda. Coletores de urina podem provocar lesões de pele. No nosso meio coloca-se uma fralda pesada seca aberta sob o períneo do RN para a pesagem diferencial da diurese.
  • Remover a proteção ocular a cada 4 ou 6h para a promover a interação mãe & RN. Estimular os cuidados maternos na higienização e alimentação do filho.
  • Observar a integridade da proteção ocular, avaliar a presença de sinais sugestivos de lesão ou de infecção; prescrever cuidados de enfermagem e documentar alterações e condutas.
  • Garantir a oferta diária de líquidos para a idade gestacional e pós-natal. Avaliar as perdas hídricas, a hidratação cutaneomucosa, calcular o balanço hídrico.
  • Manter a amamentação. Negociar a redução do tempo de mamada com a mãe se níveis elevados de Bb indicarem aumento da exposição às luzes. Estimular a mãe a esgotar as mamas para que ela mesma ofereça seu leite ao filho.
  • Monitorar os sinais vitais pelo menos a cada 4 h. Incubadora ou berço de calor radiante podem ser necessários para garantir a estabilidade térmica do RN e maximizar a exposição da pele à luz.
  • Cobrir equipos para infusão lipídica com material resistente à luz para evitar a peroxidação lipídica.
  • Desligar o aparelho de fototerapia durante a coleta de sangue para níveis de Bb; tanto a Bb conjugada quanto a não conjugada sofrem foto-oxidação e o resultado ficará comprometido.
  • Observar aumento da icterícia e efeitos colaterais da fototerapia, integridade da pele comprometida, instabilidade térmica, alimentação deficiente, sinais de desidratação, diurese reduzida, eliminações fecais diminuídas, letargia, desconforto, potenciais sinais de encefalopatia bilirrubínica.
  • Avaliar o nível de Bb transcutânea e a irradiância luminosa periodicamente. Verificar a irradiância com um radiômetro (Figura 8), antes de iniciar a fototerapia e pelo menos uma vez ao dia. O comprimento de onda luminosa monitorado corresponde ao espectro da luz azul visível, de 400 até 550 nm. Uma irradiância inferior a 8 μW/cm2/nm indica que as lâmpadas precisam ser trocadas. As medidas de irradiância são realizadas em cinco pontos de um retângulo imaginário de 30 cm por 60 cm envolvendo a criança, nas quatro pontas, superiores e inferiores, e em um ponto central. Anotadas as medidas, o valor final corresponde à média dos cinco pontos (Figura 9).(2, 3, 9)

         A partir do exposto sabe-se que a Hiperbilirrubinemia indireta neonatal é uma patologia frequente em RN, secundária a produção de BI por hemólise dos eritrócitos e associada à imaturidade do fígado na sua excreção.  Este problema é intensificado em bebês prematuros, especialmente naqueles com de IG <35 sem. Entretanto, preocupa o fato de a Bb em níveis muito elevados se depositar no tecido cerebral e acarretar danos irreversíveis. Existem dois tipos de icterícia, a fisiológica e a patológica; para ambas, é necessário o olhar clínico apurado do enfermeiro(a) para estabelecer o diagnóstico de enfermagem rápido e eficaz.  Isto é, identificar os fatores de risco, avaliar a coloração da pele e mucosas ao longo da adaptação ao nascimento e também a confirmação através dos parâmetros de BB fornecidos pelo bilirrubinômetro transcutâneo.

         Comprovado o diagnóstico médico, inicia-se o principal tratamento, a fototerapia. Esta consiste na aplicação de luz que fotoisomeriza e degrada a Bb presente na circulação periférica. O desfecho depende da quantidade de luz irradiada sobre a superfície cutânea e da resposta do RN ao tratamento.

       

     Ademais, conclui-se que a avaliação clínica e sistemática do neonato, pelo enfermeiro, é fundamental para a identificação precoce da icterícia, estabelecimento do tratamento e prevenção de agravos irreversíveis.

Referências

  1. Godoy W, Mesquita KS, Gonçalves M. Prevalência de icterícia neonatal em um serviço de média complexidade na cidade de Maceió/AL. SEMPESq – Semana de Pesquisa da Unit. Alagoas; 2021 [cited 2022 Nov 28]. 1-4 p. v. 9. Available:https://eventos.set.edu.br/alsempesq/article/view/15170/6803
  2. Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Neonatologia. Manual de Orientação. Hiperbilirrubinemia indireta no período neonatal. 2021. Available: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/23176c-MO_Hiperbilirrubinemia_indireta_periodo_neo.pdf
  3. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – 2. ed. atual. – Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Available: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/atencao_saude_recem_nascido_v2.pdf
  4. Sousa G. Sales B, Leal Evaldo. Análise comparativa da mortalidade por icterícia neonatal no Brasil, Nordeste e Piauí: série epidemiológica de 2010 a 2019. Research, Society and Development [Internet]. 2020 Aug 02 [cited 2022 Nov 28];9(8):1-17. Available: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/6423/6026
  5. Ullah S, Rahman K, Hedayati M. Hyperbilirubinemia in neonates: types, causes, clinical examinations, preventive measures and treatments: a narrative review Article. Iran J Public Health. 2016 May;45(5):558-68)
  6. Dionis I, Chillo O, Bwire GM, Ulomi C, Kilonzi M, Balandya E. Reliability of visual assessment of neonatal jaundice among neonates of black descent: a cross-sectional study from Tanzania. BMC Pediatr. 2021 Sep 3;21(1):383. doi: 10.1186/s12887-021-02859-x
  7. Jain N. Sachan R. Vaenkatagiri P. Neonatal jaundice. In: Indian Academy of Pediatrics. Standard treatment guidelines. 2022. Available: https://iapindia.org/pdf/Ch-079-Neonatal-Jaundice.pdf
  8. Maisels MJ. Sister Jean Ward, phototherapy, and jaundice: a unique human and photochemical interaction. Journal of Perinatology. 2015 35, 671–675
  9. Silva A, Palumbo IC, Almada C. Conhecimentos da equipe de enfermagem sobre fototerapia no setor de alojamento conjunto de um Hospital Escola da Zona Norte de SP. J Health Sci Inst [Internet]. 2019 [cited 2022 Nov 28];37(3):213-217. Available: https://repositorio.unip.br/wp-content/uploads/2020/12/04V37_n3_2019_p213a217.pdf
  10. Stewart M. Phototherapy for neonatal jaundice. The Royal Children’s Hospital Melbourne. Clinical Guidelines (Nursing). Nursing Clinical Effectiveness Committee. Available: https://www.rch.org.au/rchcpg/hospital_clinical_guideline_index/Phototherapy_for_neonatal_jaundice/

COMO CITAR:

CAMPOS, A.J.M; BORDA, A.S; DEORRIST, C.C; LAGUE, G.K.L; LOPES, K.M; PALSKUSKI, K.L; BARELA, L.L; OTAVIANI, L.V; KARL, I.D.S; MENDES, E.W.  Hiperbilirrubinemia e fototerapia: tópicos para o cuidado do recém-nascido. Blog LEVi@enf2022(viewed Dezembro 2022) Avaliable from: https://www.ufrgs.br/levi/hiperbilirrubinemia/