
Publicado em 17/05/2021
A Enfermagem é uma profissão majoritariamente feminina (Nursing Now, 2019), o que reflete também na área da docência em Enfermagem. Dessa maneira, são as docentes mulheres que têm, em sua maioria, assumido o papel de formar a força de trabalho feminina da Enfermagem e que neste momento é atravessada pela pandemia de Covid-19. Nesse sentido, há muitos desafios que emergem no cotidiano de docentes-enfermeiras que vivenciaram a maternidade nesse período, sendo necessária uma série de adaptações para o desenvolvimento das atividades laborais.
Assim compartilhamos a experiência enquanto docentes-enfermeiras na maternidade, gestação, parto, puerpério e/ou retorno da licença maternidade no período da pandemia.
No contexto da pandemia Covid-19 a UFRGS adotou como estratégia o Ensino Remoto Emergencial (ERE) que proporcionou à comunidade acadêmica a possibilidade de manutenção, dentro das circunstâncias possíveis, das atividades de ensino. Aliado a isso, ao longo do ano de 2020, medidas de restrição à circulação de pessoas e de restrição ao exercício de atividades econômicas constituíram uma das principais frentes de combate à pandemia.
Tais situações impactaram sobremaneira no cotidiano de trabalho da docência em Enfermagem visto que exigia vivências formativas para o ERE, planejamento e execução de atividades que respondessem à mudança curricular temporária e alternativa devido a circunstâncias de crise. Paralelamente a isso, as redes de apoio para os cuidados aos filhos tornam-se mais restritas com o fechamento das escolas, diminuição ou afastamento de profissionais de apoio (como babás e secretárias do lar) e familiares por risco de contaminação, aumentando as demandas domésticas e de cuidado com os filhos resultando na alteração da rotina familiar. O espaço domiciliar passou a ser compartilhado entre as rotinas familiares e o trabalho remoto.
Frente aos temores e incertezas com relação às repercussões da pandemia na vida e saúde dos filhos e implicações na gestação, participamos enquanto universidade, unidade, departamento e áreas para discussões infindáveis para planejamento e organização dos semestres ERE. Foram muitas as propostas, possibilidades e discussões. Aos poucos a facilidade e a agilidade que o mundo digital proporciona criaram novas demandas como o excesso de reuniões e agendamentos de algumas no terceiro turno, assim vimos nossa vida privada ser tomada cada vez mais pela vida profissional. Equilibrar a dupla jornada (casa e trabalho) que passou a se concentrar em um único lugar e manter a saúde mental enquanto gestante e mãe foi desafiador!
Também precisávamos dar conta dos projetos de extensão, pesquisa, pós-graduação, orientação de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) e estágios; nos envolvemos em novos projetos, escritas de textos e artigos sobre a COVID-19, além de lives que demandaram maior atenção à informações e leituras de materiais para estarmos atualizadas considerando a dinamicidade e velocidade de produção de conhecimento sobre a mais grave e importante crise sanitária e humanitária do século.
Dedicamos muito do nosso tempo, inclusive de descanso ou de estar com a família, para a constante qualificação das aulas, atividades avaliativas e inúmeras demandas dos acadêmicos (não havendo noite, final de semana e feriado) que também apresentavam as dificuldades mais diversas, inclusive cuidado de casa, filhos e demais familiares. Foi extremamente denso e muito trabalhoso, sabemos que foi para todos os docentes da universidade, porém a maternidade e a inseparabilidade inevitável do espaço pessoal e do profissional criaram desafios extras às mães-docentes-enfermeiras, especialmente de filhos pequenos como é o nosso caso.
Hoje estamos prestes a concluir o segundo semestre na modalidade ERE e vislumbramos as diversas oportunidades de aprendizado neste um ano de pandemia, em que nos reinventamos enquanto docentes-enfermeiras. Também nos dispara reflexões acerca do contexto e desafios vivenciados pelas nossas mães estudantes de Enfermagem neste período.
Conforme literatura a sobrecarga potencializada pela necessidade de conciliar trabalho e cuidado, bem como a incerteza de quanto tempo a atual situação irá permanecer podem configurar-se como fatores de risco para o desenvolvimento e agravamento de problemas em saúde mental dos profissionais da enfermagem (CARLOS et al., 2021). A busca pela qualidade de vida e pela manutenção da saúde mental vêm de diferentes estratégias individuais e coletivas que buscamos, mas percebemos que os momentos em família, desligados dos equipamentos eletrônicos que insistem em notificar mensagens a quaisquer horas do dia e da noite, têm nos auxiliado a vivenciar este momento desafiador.
Somos mulheres que priorizamos nossas carreiras acadêmicas assim como a nossa família e buscamos o equilíbrio difícil desta balança, mas acreditamos que é possível ser mãe e docente de Ensino Superior, mesmo em tempos de pandemia. A situação sanitária mundial nos mostrou a fragilidade feminina do ser mãe e profissional, exacerbando as desigualdades de gênero, mas também nos aproximou da discussão de parentalidade e universidade junto ao Parent in Science e a mobilização de mais mães-docentes-enfermeiras, acadêmicas e pais para discutir esta questão na Escola de Enfermagem.
Nesta semana tão importante para nós, em que comemoramos o Dia Internacional da Enfermagem, buscamos desvelar os desafios já impostos às mulheres profissionais mesmo antes da pandemia, mas sua potencialização neste período, e também lutar pela concretização dos direitos das mulheres, mães e enfermeiras (acadêmicas, docentes, assistenciais, gestoras, pesquisadoras, extensionistas, servidoras administrativas – todas nós).
REFERÊNCIAS
Como citar:
DUARTE, M.L.C; VIEIRA. L.B; RAMOS, A.R. Maternidade e Docência em Enfermagem em tempos de pandemia. Blog LEVi@enf2021(viewed 17Maio2021) Avaliable from: https://www.ufrgs.br/levi/maes-docentes/#page-content
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