Me formei

Publicado em 14/05/2021

          Foram tantas dúvidas e questionamentos que cercaram esse momento. Me expor a trabalhar em uma unidade COVID? Será que vou me contaminar? E o medo de contaminar a família? Será que eu tenho capacidade profissional para isso? E o conhecimento científico? Indecisões e um turbilhão de sentimentos até perceber que a linha de frente era o meu lugar.

          Fui contratada com um mês de formada para atuar em uma unidade de internação em um hospital em Porto Alegre. Porém, após os dias de integração fui informada que trabalharia em uma nova UTI COVID (sempre soube que haveria essa possibilidade). Participei desde a montagem dos leitos até receber nosso primeiro paciente.

          Uma UTI adaptada, uma equipe onde 90% dos técnicos de enfermagem não tinham experiência, médicos e fisioterapeutas de diversas especialidades e pouquíssimos enfermeiros com experiência em UTI. Porém, todos com sede de aprendizado e com uma imensurável força de vontade.

          Desafios para todos os lados, insegurança, sentimento de impotência frente a uma doença nova tão devastadora e que pouco a ciência, que é tão soberana, sabe sobre a ela marcaram a nossa rotina.

          Não foi nem um pouco fácil saber lidar com tudo que eu vivi nessa experiência.  Ter que ensinar diariamente conteúdos e práticas que eu particularmente não dominava, começar do zero uma equipe, ter paciência, e saber lidar com o medo da contaminação, ser forte e acolher, por mais devastada que eu estivesse internamente cobrar e ser cobrada, e encontrar formas para aceitar o luto de todos os pacientes que perdemos, pois infelizmente foram números extremamente superiores ao de pacientes que salvamos. Foram inúmeras situações desesperadoras, desafiadoras e também gratificantes que me transformaram não apenas no profissional, mas também pessoalmente.

          Em novembro de 2020, fui uma das 150 pessoas no RS, presenteada com uma medalha do projeto mundial “Hand Medal Project” que tem como principal finalidade o reconhecimento aos profissionais de saúde que atuam na linha frente. O projeto conta com mais de 3.000 joalheiros e artesãos de diversas partes do mundo, que criaram e confeccionaram as medalhas com as próprias mãos, para nos homenagear “O trabalho de nossas mãos, honra o trabalho das suas” (Para conhecer melhor o projeto: clique aqui). 

Me senti honrada, mais forte e também de estar no caminho certo após ter recebido esse reconhecimento com apenas 4 meses de atuação.

Me arrisco a dizer que esse é o maior desafio da minha carreira profissional, apesar de ter sido o primeiro. Sou grata a todas as experiências que vivi e vivo diariamente dentro da UTI COVID e principalmente a todas as pessoas que fizeram parte e que trilham esse desafio ao meu lado. Se não fosse o apoio e a união da nossa equipe, eu teria desistido. Com eles, eu aprendi a ser enfermeira e por eles e pelos nossos pacientes eu sigo sempre buscando a evolução.

 

Por enfermeira Luciana Makarevicz Santos

Como citar:

SANTOS, L. M. Me formei no meio da pandemia, e agora. Blog LEVi@enf2021(viewed 14Maio2021) Avaliable from: https://www.ufrgs.br/levi/nursesped/#page-content