A Coleção de rendas Lucy Niemeyer é composta de 201 objetos têxteis que foram doados para a UFRGS pela Prof. Dra. Lucy Carlinda da Rocha Niemeyer. Os objetos foram colecionados ao longo da vida de sua mãe, a Sra. Lucy da Rocha Niemeyer.
Para homenagear mãe e filha, optou-se por nomear o conjunto de objetos de Coleção de Rendas Lucy Niemeyer.
Para que conheçam um pouco mais da vida da colecionadora, segue uma breve biografia escrita pela filha.
Minha mãe, com o nome de Lucy da Rocha, nasceu no Rio de Janeiro em 19de julho de 1906, nona de dez filhos de Ismael da Rocha, baiano, e da paranaense Carlinda Gonçalves da Rocha (por todos chamada de Sinhá).
O meu avô iniciou seus estudos de Medicina em Salvador, na Bahia, onde se instalou a primeira faculdade desta área no Brasil. Concluiu o curso em 1880 com um trabalho sobre “Septicemia” inovador para a época. Foi incorporado ao exército brasileiro devido às pesquisas que fazia em zonas de fronteira, alcançando até o generalato.
Logo após o casamento, o casal transferiu-se Europa. Primeiro fixaram-se em Paris para que o meu avô atendesse o convite de Louis Pasteur, para que desse seguimento a seus estudos no instituto de pesquisa que levava o nome do eminente cientista.
Algum tempo depois, transferiram-se para Berlim para que meu avô se juntasse a Robert Koch, médico, patologista e bacteriologista alemão.
Ele foi um dos fundadores da microbiologia e um dos principais responsáveis pela atual compreensão da epidemiologia das doenças transmissíveis e a descoberta, em 1882, do bacilo da tuberculose (o Bacilo de Koch) e sua responsabilização etiológica. Como resultado desses estudos, Ismael da Rocha publicou uma série de trabalhos científicos importantes e inovadores sobre tuberculose e seus tratamentos.
Em Berlim nasceu o primeiro filho do casal, que recebeu o nome do avô paterno – Francisco José. A partir de então, a vida da família constitui-se em sequência de nascimento de filhos e de sucessivas mudanças para a Europa, levando, em geral, as crianças menores.
Minha mãe nasceu no dia 19 de julho de 1906, no Rio de Janeiro. Meus avós, ao verem este nome inscrito na gruta de N.S.de Lourdes, na França, decidiram que uma próxima filha mulher receberia este nome. Assim, chegou a mim o prenome Lucy (em homenagem a minha mãe) Carlinda (em honra a minha avó materna).
Em uma das estadas europeias de meus avós, foram com eles minha mãe, ainda bebê, e dois dos irmão imediatamente mais velhos que ela. Na foto abaixo, estão os cinco em uma foto de estúdio em Paris, em que o cenário era a cesta de um balão! O primeiro idioma que minha mãe falou foi o francês. Veja só!
A despeito da relevante posição de meu avô como cientista e de sua elevada patente militar, a família tinha rendimentos muito restritos. Jamais tiveram condições de adquirir casa própria.
Não só os filhos levados ao estudo e ao trabalho, como também as filhas foram encaminhadas para formação para atividades profissionais, algo muito pouco usual na classe média carioca da época. Duas de minhas tias foram funcionárias públicas, uma, professora e dona de escola particular. Só uma casou-se sem haver trabalhado antes por debilidade de saúde.
Minha mãe cursou a Escola Normal Wenceslau Braz, criada em 11 de agosto de 1917, no Rio de Janeiro. Esta instituição foi fundada com vistas a atender uma nova configuração social e desempenhou um importante papel social, especialmente através das oficinas femininas, que se destacaram, não apenas por seu pioneirismo e visibilidade nacional, mas também por acompanharem o novo tipo de inclusão da mulher na vida urbana.
O lugar da mulher na sociedade estava mudando, e não apenas devido ao crescimento urbano, mas também por causa dos meios de comunicação, como o cinema e as revistas, que traziam novos padrões de comportamento. Mas, pelo menos em relação à Escola Normal de Artes e Ofícios Wenceslau Braz, essa tarefa foi facilitada pela acolhida que as alunas lá encontraram. Existia a preocupação da direção da escola, expressa nos relatórios enviados ao Ministro da Agricultura, Indústria e Comércio, com a sua inserção no universo técnico formador de mão-de-obra, para onde estavam voltados os seus cursos, inclusive o curso comercial, que atendia também a outras necessidades e era muito procurado por alunos de ambos os sexos. Havia também as oficinas femininas que incluíam o Curso de Trabalhos Manuais – bordado, costura. A Escola objetivava formar um professor com capacidade de reflexão e uma certa autonomia.
Minha mãe tinha especial predileção por taquigrafia. Guardo alguns cadernos dela escritos neste código que são preciosidades gráficas!
Logo ao final do curso Normal, minha mãe e meu pai se conheceram e viveram uma grande paixão.
Meu pai, Jorge Braga de Niemeyer, o mais velho de três irmãos, ficou órfão de mãe aos cinco anos e de pai aos 13. Ele encontrou não só um grande amor, uma perfeita parceira, como um ninho que acolheu a ele e seus irmãos, tão despossuídos de afeto e carinho familiar. A doçura e serenidade de minha mãe, o calor de sua numerosa irmandade e minha avó Sinhá, dona de uma simpatia irresistível, receberam os irmãos Niemeyer de braços abertos.
Desse modo, ao casar em 19 de julho de 1928, dia em que completava 21 anos, minha mãe adotou o nome de Lucy da Rocha Braga de Niemeyer. A partir de então, teve em sua casa a presença dos dois cunhados, Walter e Octávio, até que cada um deles constituísse as respectivas famílias, vários anos depois.
Depois do matrimônio, minha mãe abandonou as atividades profissionais e dedicou-se à formação escolar do marido e cunhados, posto que os tutores deles haviam descurado totalmente da escolaridade dos menores. Os “alunos” dedicaram-se, além de atividades laborais no âmbito comercial, a se apresentarem para os exames “preparatórios” do Colégio Pedro II, em que a cada ano poderiam pleitear a proficiência em quatro matérias, até completarem as 12 que conferiam o certificado correspondente ao final do atual curso médio, com a possibilidade de acesso a curso superior.
Concluídos com êxito os exames preparatórios, cada um dos irmãos seguiu seu rumo. Meu pai tornou-se médico pela Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil. Construiu um belíssima carreira como cirurgião e como professor, chegando ao posto de Catedrático.
Minha mãe dedicou-se ao lar. Nove anos depois de meus pais casados, nasceu minha irmã, Lúcia Amélia. O segundo prenome dela homenageia a avó materna, Amélia Braga de Niemeyer, prematuramente falecida, aos 24 anos, deixando os três filhos – um de cinco anos, outro de três e o caçula de só um ano, e um marido inconsolável, Henrique Conrado de Niemeyer.
Com minha irmã já com nove anos, nasci eu!
Minha família vivia uma fase econômica estável. Depois de meu nascimento, moramos durante uma época em uma propriedade imensa, na região que atualmente se chama São Conrado, no Rio de Janeiro, de um tio avô meu, Alberto Niemeyer. Aguardávamos então que fosse concluída a construção do edifício em Copacabana, em que meus pais haviam adquirido um apartamento. Era o início do crescimento imobiliário desse bairro. Víamos o sol nascer no mar e escutávamos dentro de casa o barulho das ondas a quebrar.
Minha mãe sempre se ocupava em algum fazer manual. A sua sensibilidade, gosto estético e proverbial habilidade encantaram o nosso mundo familiar com belezas. Guardo ainda maravilhosas peças de meu enxoval de bebê. É quase indiscernível o lado direito do avesso.
Suponho que algumas das técnicas de renda e bordado ela tenha aprendido na Escola Normal. Não guardo lembrança de que minhas tias tenham desenvolvido excelência qualquer trabalho manual. Recordo-me de que uma das irmãs de minha mãe se dispôs a ensinar-lhe a tricotar, mas, como era canhota, minha mãe se via obrigada a espelhar os movimentos dela. Talvez seja este o motivo por ela nunca haver se interessado muito pelas longas agulhas…
Lembro-me de um vestido que ela teceu para mim quando eu devia ter cerca de nove anos. Tendo por base filó, ela fez desenhos entremeando finos fios de lã branca, compondo um padrão que seguia a modelagem da roupa. Eu o achava lindo! Os vestidos de baile e o de casamento de minha irmã foram modelos e bordados que mereceram reconhecimento e grandes elogios.
O primor da sua costura era uma característica constante.
Com o passar dos anos, dedicou-se à pintura de porcelana e, mais tarde, à tapeçaria, sempre magníficas!
Foi uma grande educadora: marido, cunhados, filhas, netas e neto. Fazia do conhecimento algo sedutor e o estudo uma atividade prazerosa, um desafio excitante, maravilhoso.
Uma mulher discreta, bonita, elegante, suave, firme, culta, inteligente e muito amorosa.
Foi um privilégio tê-la como mãe.