A memória da comunicação científica está sendo destruída?

Lúcia da Silveira

Doutoranda em Comunicação e Informação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Como contar a história de uma revista científica se o único canal que ela manifesta a gestão editorial representa apenas uma parte formal da tramitação da ciência? Como os bastidores de um dos canais mais relevantes da comunicação científica preserva a informação? Como os futuros editores vão saber a respeito de quem fez parte da comissão editorial, quem foram os avaliadores, quais as evoluções e conquistas a revista foi adquirindo ao longo do tempo?

Cabe salientar, inicialmente que a preservação da informação da comunicação científica está em discussão por diferentes áreas, e a preocupação inicial foi com o conteúdo da revista, ou seja, com o artigo científico. Nesse caso há comunidades científicas que definem meios de como preservar esse documento, como por exemplo, a Rede Cariniana vinculada ao IBICT, mas há poucas discussões a respeito do conteúdo da gestão editorial.

A proposta deste post, é justamente apresentar a fragilidade da memória editorial que tende a ser consumida por futuros editores, pela história da própria instituição e pela comunidade relacionada a esse contexto. Quais as alternativas de preservação digital desses conteúdos? Quais as necessidades de periodicidade de armazenamento? É necessário definir ou seguir uma política de preservação? Quem define essa política? Até que ponto essa transparência é relevante?

O arquivamento da web vem para dar uma resposta a essas necessidades, já que a vida humana está paralela em dois universos: o digital e o físico. O arquivamento da memória coletiva e individual está associado ao contexto transdisciplinar das humanidades digitais (HD). Seu objeto de estudo é o fenômeno humano suas relações, ações, comportamentos no ambiente digital, refletindo como isso afeta suas vidas, suas profissões, sua presença no mundo, determinando como será representada, armazenada e preservada para a compreensão de futuras sociedades. Traz a compreensão da necessidade da preservação desse tipo de informação e da própria condição de “produção e divulgação do conhecimento” (THATCAMP, 2011) incluindo campos “historicamente não familiarizados com tais mediações” tecnológicas como as áreas das humanidades (PIMENTA, 2016, p.23).

Nesse sentido, Castro e Pimenta (2017) acreditam que a Ciência da Informação tem a colaborar sob diferentes perspectivas, mas principalmente com a comunicação científica, sob o ângulo das aplicações nas bibliotecas universitárias, na computação, digitalização, gestão da informação, pesquisa, ciência da informação, infra estruturas, bibliotecários, e também abordagens teóricas sobre esses assuntos e outros elementos que dão subsídio a essa afirmativa.

Tendo em vista a relevância de preservar a memória digital do que é publicado seja em espaços públicos ou privados (redes sociais, sites governamentais, empresariais, científicos, entre outros) algumas iniciativas surgiram para atender essa necessidade, uma das principais é o Internet Archive possui mais de vinte anos de preservação das páginas de internet resguardando a memória cultural da civilização em diversos tipos de suporte digitais (texto, áudio, imagem, vídeo, música, etc.). A modalidade de armazenamento é do tipo exaustivo, ou seja, há muitas cópias de um mesmo link, muitos versionamentos possibilitando o acesso ao conteúdo do que foi escrito em larga escala temporal.

Para exemplificar, a perda de conteúdo de dados editoriais, históricos no contexto da comunicação científica, optou-se intencionalmente por uma revista cuja sua origem tenha ocorrido no ambiente digital, assim, a selecionada foi a Revista Internacional Interdisciplinar INTERthesis. Além disso, outro motivo, foi que a autora deste post teve participação direta com a revista desde sua fase de migração para o Portal de Periódicos UFSC, em junho de 2008.  Adotou-se como metodologia para coletar os dados anteriores os métodos do arquivamento web, como procedimento a consulta ao Internet Archive (way-back-machine) pelo termo “Interhesis”. Foram realizadas duas buscas em dois ambientes: uma no site atual, e a outra no wayback machine.

1) Site da revista: foi investigado evidências de sua existência em outra plataforma: buscando nas primeiras edições (2004) e edições de migração (2008) – incluindo o PDF do artigo, editorial, expediente e histórico de notícias. Não foi localizado nenhuma menção do link (anterior da revista) ou uma contextualização do processo de migração no histórico da revista, tão pouco é relatado nos editoriais algo. Algumas perdas de informação administrativas (equipe, avaliadores, diretrizes para autores) da revista foi evitada com a publicação do documento de expediente. No entanto, informações a respeito de política editorial (foco, escopo, estatísticas, políticas de abertura de acesso, direito autoral, ética, entre outros, financiamento do periódico) não são armazenadas ou organizadas em uma linha do tempo.

2) Way-back-machine: por meio desse recurso foi possível recuperar / visualizar quais páginas o Internet Archive salvou. Primeiro, foi inserido no campo de busca o nome da revista: Interthesis, localizando dois registros (figura 1):

a) site no qual a revista foi criada

b) site da instituição ao qual pertence.

Ambos registros informam quantas vezes foi capturado, que tipo de captura e as estatísticas do site.

 

Internet Archive, 2019

 

 

Foram realizadas 41 capturas do site da Interthesis pelo Internet Archive desde 2004 a 2009 (Figura 2). Em 2008, como já foi citado, a revista fez a migração para o novo site, e a partir disso, descontinuou os conteúdos pertencente ao site antigo e começou uma nova memória, sinalizada na figura 4 e 5.

Internet Archive captura de 2004

 

Internet Archive captura de 2008

 

 

Interface da revista em 2019

 

 

Coleção de armazenamento (fonte)

As informações na Internet estão propensas a serem esquecidas, serem apagadas instantaneamente, serem reescritas, e não é diferente no contexto editorial de publicação científica periódica. Carecendo de um repensar estratégico aliado a ciência aberta para o desde a criação de um software que atenda as necessidades de arquivamento Web.

 

Referências

CASTRO, Renan Marinho De; PIMENTA, Ricardo Medeiros. Uma topografia das Humanidades Digitais na Ciência da Informação. Z cultural, [s. l.], 2017.

PIMENTA, Ricardo Medeiros. Os objetos técnicos e seus papéis no horizonte das Humanidades Digitais: um caso para a Ciência da Informação. Revista Conhecimento em Ação, 2016. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/rca/article/view/20. Acesso em: 26 out. 2019.

THATCAMP. Manifesto das humanidades digitais. Paris: ThatCamp [The Humanities and Technology Camp]. 2011. Disponível em: http://tcp.hypotheses.org/category/manifeste. Acesso em: 23 nov. 2019.