Agricultura Familiar e Industrialização: pluriatividade e descentralização industrial no Rio Grande do Sul
Organizador: Sérgio Schneider
Sinopse do livro
Agricultura familiar e industrialização: pluriatividade e descentralização industrial no Rio Grande do Sul traz uma análise inovadora a respeito das relações entre a agricultura familiar e o processo de industrialização numa antiga região colonial do Rio Grande do Sul.
Inovadora porque articula dois novos e preciosos conceitos – o de industrialização e o de pluriatividade – para explicar como se deu o processo de industrialização do setor coureiro calçadista na região do Vale do Sinos e adjacências. A sua hipótese básica é a de que o sucesso do sapato gaúcho no mercado externo, a partir dos anos 70, não é suficiente para explicar o que se passou nessa antiga região. Devemos agregar a isso um conjunto de condições econômicas, sociais e até mesmo culturais específicas da região, entre as quais a crise que passava a produção agrícola familiar de origem alemã.
Da academia italiana, Schneider tomou emprestado uma valiosa bibliografia sobre a industrialização difusa na Emilia Romagna, que ficou mais conhecida como a terceira Itália, por apresentar um modelo distinto de desenvolvimento econômico da industrialização verticalizada de Milão ou do latifúndio do sul. Em particular, a noção de que os mercados são construídos socialmente – e nada têm, portanto, da famigerada mão invisível que querem os neoliberais -, estabelecendo formas peculiares de relacionamento entre a força de trabalho de origem rural com o mercado de trabalho não-agrícola. Com isso, o autor pode mostrar como a dispersão dessas empresas industriais se fez em espaços – entendidos não apenas no sentido físico, mas também econômico e social – anteriormente ocupados, de forma majoritária, pela agricultura familiar. O resultado foi a constatação de que hoje já não há na região “um corte entre campo e cidade como espaços distintos de vida e produção, mas um continuum no qual transcorrem relações de trabalho e de sociabilidade ao mesmo tempo”.
Da academia francesa, foi buscar o conceito de pluriatividade para explicar como, desde a sua origem, os colonos teuto-brasileiros combinavam, nas pequenas propriedades coloniais, o trabalho nas lavouras com outras atividades. E como o surgimento da agricultura em tempo parcial e a existência das famílias pluriativas estão diretamente relacionados com o processo de industrialização da região.
Da academia portuguesa, foi buscar a noção de espaços periurbanos, que não são tipicamente rurais nem tão pouco urbanos, porque deles emerge um tipo próprio e característico de relação de trabalho que se baseia na pluriatividade das famílias e na plurifuncionalidade do uso dos solos. E é a emergência desses novos espaços que lhe permite falar no “renascimento rural” dessa região gaúcha, tanto pelo fato de novas possibilidades de geração de emprego e renda que apresentam como pelo crescimento das moradias que se vêm construindo nas velhas “linhas” e “picadas” do local.
Sérgio Schneider é um jovem pesquisador que já se tornou conhecido na roda dos especialistas dos estudos agrário brasileiros, tanto pelo vigor de seu trabalho de campo como pelo rigor dos conceitos teóricos que utiliza. Tive o prazer de tê-lo como aluno (brilhante) no curso de pós-graduação da UNICAMP e, agora, como colega pesquisador no Projeto Rurbano. O livro é um dos primeiros resultados desse esforço de pesquisa que procura explicar a emergência de “um novo rural brasileiro”, a partir dos anos 80 em todo o País. O leitor, sem dúvida, vai gostar deste trabalho que soube combinar o que há de mais recente na bibliografia especializada com o relato do que foi (e ainda é para muitos) o cotidiano de suas famílias.
José Graziano da Silva
Professor Titular de Economia Agrícola da UNICAMP
Informação técnica: 1999; 14 X 21 cm; 208 p.
Redes sociais!