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O black metal como território queer

Por Taís Severo:

This is not a playlist. This is not a vibe. It is a demand. 
[…] Leah’s songs move differently: grounded in queer history and AIDS-era literature, amid the suffocating fog of the present, they carry the weight of survival as daily ritual. Her writing asks how to honor queer community and collective struggle without turning it into identity branding or personal mythmaking: how to stay honest, how to stay present.

– Agriculture, The Spiritual Sound (2025)

Através de bandas como Iskra, Agriculture, Violet Cold, Feminazgûl, Panopticon e Liturgy, o estilo conhecido como black metal tem se posicionado como a vanguarda de temas queer, feministas e antifascistas dentro do heavy metal. No entanto, o subgênero também serve de esconderijo a bandas e artistas que apoiam a extrema direita e o neonazismo. Como chegamos até aqui, e o que esse nicho musical oferece em particular?

As raízes da história do heavy metal estão expostas. Surgido na Europa do final dos anos 1960 como expressão de descontentamento da classe trabalhadora diante dos escombros da Segunda Guerra Mundial, o estilo sombrio e de enfrentamento desenvolveu-se ao longo da década seguinte incorporando elementos do rock progressivo: virtuosidade musical, temas complexos e comercialização dos artistas como ídolos acima das massas. Tal movimento auxiliou a popularidade do gênero, mas trouxe também descontentamento entre certos artistas que, bebendo da contracultura e do ethos punk, denunciaram a elitização e o distanciamento de sua raiz política.  

Nos anos 1980, as bandas de heavy metal buscavam incorporar a agressividade à composição musical. De um lado, o speed metal era um caminho evolutivo que testava a velocidade como artefato estético, empregando elementos de música neoclássica; de outro, o thrash metal não se contentava somente com a rapidez, mas também trazia elementos impuros para contrapor à virtuosidade elitizada, como o punk também fazia, e retornar aos temas politizados. Em uma cena underground e internacional alicerçada no envio e na troca de fitas cassete copiadas artesanalmente, bandas como Venom, da Inglaterra, Hellhammer, da Suíça, e Bathory, da Suécia, influenciaram e foram influenciadas por outras como as brasileiras Mystifier e Sarcófago, além da colombiana Parabellum. Entre elas, os elementos comuns eram o de uma crescente revolta social, junto à resistência aos valores cristãos; musicalmente, o estilo se voltava à simplicidade nos riffs e às gravações que capturavam o lo-fi como estética de oposição ao mainstream.  

Foi nesse esteio que, na década de 1990, o black metal mergulhou em uma ênfase misantrópica. Solidificado na Noruega através de bandas como Darkthrone, Mayhem e Burzum, o subgênero teve definidas suas características principais: vocais que evocam o inumano, mixagem fora dos padrões esperados e abrasividade sonora que o aproxima dos territórios do noise e do ininteligível, criando barreiras à assimilação pelo mainstream e trazendo uma atitude que testava os limites do artístico – incluindo sacrifícios animais, automutilação, suicídio, e mesmo crimes como assassinato e incêndios em igrejas (Christe, 2003). A contraposição aos valores sociais contemporâneos também levou a um outro desenvolvimento: não só na Noruega, mas também em países como Rússia, Polônia, França e os Estados Unidos, o black metal foi usado como ferramenta de disseminação e recrutamento de ideologias racistas e neonazistas, formando o NSBM (National Socialist black metal) como subgênero (Patterson, 2013). Embora representem uma minoria dentro do estilo, tais artistas são uma incômoda presença que exemplifica como o descontentamento com os sistemas correntes pode tomar caminhos igualmente, ou ainda mais indesejados.



Embora a maioria das bandas de black metal utilize os temas misantrópicos como recurso fantástico e literário para abordar aspectos latentes da vida na música em geral, como a morte, a desilusão e as reações às instituições, outras buscam fazer frente aos ideários da extrema direita. Tal movimento inclusive acarretou um outro subgênero, o RABM (Red and Anarchist black metal), como resposta. Embora menos visível e definido do que sua contraparte oposta, o estilo ataca o nacionalismo, o racismo e o sexismo enquanto trata de temáticas próximas à esquerda do espectro político.  

Nesse sentido, o black metal demonstra uma característica curiosa: formalmente, é música de e para outsiders. Está em contenção não apenas com o mainstream artístico em geral, mas também dentro do próprio heavy metal. Não surpreende, portanto, que diversas ideologias políticas extremas orbitem ao redor do estilo – como também havia ocorrido com o punk, cujos caminhos rizomáticos desembocaram em cenas insulares como o straight edge, o nazi punk e seu oposto, o crust punk. Ao empregar os signos da controvérsia e do confronto, o black metal, em si, não é uma ideologia política; mas um veículo para as discussões do poder, inclusive as mais espinhosas e complexas, uma vez que a oposição aos sistemas correntes é parte da própria constituição do metal como gênero (Hjelm; Kahn-Harris; LeVine, 2011). 

Esse pensamento remete, paralelamente, a certos avanços das teorias queer. Com abrangência, evoca o chamado à negatividade proposto por Edelman (2004): para o autor, a essência do queer só pode estar na descoberta e na aceitação de que as semioses relacionadas aos ideais do futuro são ferramentas de opressão estrutural. Recusar a insistência da esperança enquanto afirmação estética produz os registros do impensável, do irresponsável, do desumano; espaços justamente habitados pelo black metal, inclusive na indumentária que inclui o corpse paint – a pintura corporal que retrata os artistas como cadáveres. A negatividade simbólica, assim, pode se tornar uma força aliada na construção de presentes onde o queer não é assimilável, mas a potência irredutível diante das noções, mais do que das práticas, do normal e da normatividade. Sob essa ótica, o black metal foi, desde sempre, muito próximo ao queer – em uma abertura que, diametralmente, foi porosa à entrada de ideologias conservadoras e racistas.  

Our queerness has nothing to offer a Symbolic that lives by denying that nothingness except an insistence on the haunting excess that this nothingness entails, an insistence on the negativity that pierces the fantasy screen of futurity, shattering narrative temporality with irony’s always explosive force. And so what is queerest about us, queerest within us, and queerest despite us is this willingness to insist intransitively – to insist that the future stop here. 

Edelman, 2004, p. 31

Assim, já não surpreende que o black metal também caminhe pelo feminismo e pelo queer. Seu grito vai contra as ideologias do preconceito, mas também contra a própria alienação do próprio nicho musical e cultural, em sua grande parte um espaço masculino e heteronormativo. Há uma deliciosa ironia: o vigor e a linguagem musical cooptadas por ideologias retrógradas é retrabalhada para servir de oposição à discriminação e propor horizontes queer. A tradição é seguida, mas sem remissão a qualquer ideia de purismo: esses artistas aderem às aberturas do black metal em suas associações com estilos como o ambient, shoegaze e synthpop para gerar micro gêneros como o dungeon synth, o blackgaze e o post-black metal. Iniciativas como o Black Metal Rainbows, que reuniu 130 artistas queer e de esquerda, são erigidas com orgulho; ao mesmo tempo, o antropoceno toma parte das discussões críticas de artistas, inclusive no Brasil, como Pessimista. Retomar a subversividade como estratégia é parte da resistência tanto à pacificação do black metal quanto às tentativas de captura por ideários exclusivistas, e as possibilidades de sua negatividade são intensamente produtivas.


Imagem

Moss Golem, The Woods of Galdura (2020).


Referências

Christe, Ian. The Sound of the Beast. New York: Harper Collins, 2003.  

Edelman, Lee. No Future: Queer Theory and the Death Drive. Durham: Duke University Press, 2004. 

Hjelm, Titus; Kahn-Harris, Keith; LeVine, Mark. Heavy Metal as Controversy and Counterculture. Popular Music History, n.6.1, p. 5-18, 2011. 

Patterson, Dayal. Black Metal: Evolution of the Cult. Washington: Feral House, 2013. 

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