Distinções e intelectualismos que nos cercam: Uma resenha de “Retorno a Reims” de Didier Eribon
Por Gilmar Montargil:
O livro
Retorno a Reims, do sociólogo francês Didier Eribon, foi publicado originalmente em 2009 e traduzido para o Brasil em 2022 pela Editora Âyiné. Longe de ser uma apresentação de conceitos sociológicos, Eribon desnuda-se ao se abrir para impressões pessoais, mágoas, memórias, entre outros aspectos de cunho pessoal que dimensionam a sua experiência de retorno a sua cidade de infância. Retornar a Reims mostra-se muito mais que um reencontro com familiares, com momentos dolorosos, com a morte de um pai. Retornar a Reims acaba sendo para Didier Eribon uma busca de si mesmo, um choque de um intelectual renomado da França (desses que dão entrevistas na televisão) que de certa forma repele sua origem operária interiorana; um exercício de contraste para a sua teorização sociológica sobre subjetivação, dominação e causas gay.
Retorno a Reims
Essa origem é revelada a partir da história da sua mãe. Uma mulher de origem humilde, que não conhece o pai e acaba sendo preterida pela própria mãe no contexto da Segunda Guerra Mundial, indo parar em um orfanato e anos mais tarde se reencontrando novamente com seus familiares. Essa relação dúbia entre mãe e avó é o ponto de análise. No contexto europeu e das classes operárias, Eribon adverte para essas construções familiares menos rígidas, isto é, filhos de vários pais e até mesmo de nacionalidades diferentes, “uma cacofonia genética”. Além disso, não havia anticoncepcional, e, dado esse contraste com o mundo burguês mais rígido e moralista, as mulheres muitas vezes tinham de optar pelo aborto (considerado um crime) ou por abandonar os filhos em prol da liberdade sexual no contexto das classes menos abastadas. Logo, essa mágoa entre mãe e filha não é vista somente pelo olhar histórico (a avó que some por algum tempo porque vai trabalhar na guerra), mas, sobretudo, pelo viés sociológico da luta de classes.
Outro ponto importante é que sua mãe não teve oportunidade de estudar, apesar de querer muito. Acabou sendo uma espécie de doméstica ou trabalhando em fábricas. Seu destino amoroso então já estava traçado: casar-se com um operário, ao qual nunca se deu bem, com brigas constantes no ambiente doméstico. Mesmo querendo separar, a mãe de Didier Eribon não só cuidou do marido até os últimos dias de Alzheimer, como nunca tomou essa atitude anos antes para não prejudicar os filhos. A lógica era: os pais trabalham para que os filhos estudem. No entanto, conforme Didier Eribon ia se intelectualizando, iam surgindo diferenças com essa família e também uma vergonha dele de ter nascido ali.
Assim, Didier Eribon constata o paradoxo dos pais que trabalham para os filhos estudarem, e, justamente, a intelectualização dos filhos que vão aos poucos marcando diferenças e distinções sociais, para usar um conceito de Bourdieu. Um modo de falar diferente, de agir, de se vestir, de circular por espaços diferentes – o que causa certos conflitos familiares e situações constrangedoras (fingir por exemplo que não conhece um irmão na rua). Mais do que isso, Eribon escancara outro paradoxo: o fato de as classes operárias serem em sua origem interligadas às esquerdas, porém, as esquerdas pós maio de 68 acabaram por se diluir e se intelectualizar ao ponto de perder vínculo com as classes menos abastadas. Ler Marx, Althusser, Sartre são mais estratégias da constituição de um saber que lhe distingue socialmente, e, portanto, que lhe aparte dessa origem humilde, do que estratégia em prol do povo ou qualquer discurso semelhante.
Eribon recorre também aos irmãos e as causas desse distanciamento (que, inclusive, em nenhum momento omite sua culpa nisso). Ele se questiona se seus irmãos fossem jornalistas, sociólogos, juristas, entre outros, se talvez ele tivesse mantido contato, uma vez que manter laços com a família é também estratégia de sobrevivência, principalmente os que tem profissões consideradas elevadas no tecido social. Mas o que de fato Eribon argumenta é que existem forças que estacionam os indivíduos em determinadas condições e modos de vida, e assim foi com seus irmãos, que vivem vidas consideradas simples: casados ou divorciados, pedreiros, policiais, militares, com filhos para cuidar. A escola então surge como um ponto de crítica, pois ela é defendida como o lugar transformador de vidas, mas o que Eribon adverte é que ela, pelo contrário, pode ser muito engessadora, sobretudo nesse contexto interiorano francês. Logo, uma constatação, de um lado Eribon e sua intelectualidade progressista parisiense, de outra seus parentes com vidas simples, mas que votam na Frente Nacional (partido de direita com nuances de extrema-direita).
Eribon destoa entre relatos biográficos marcantes repletos de emoção e momentos de pura teorização com linguagem rebuscada que parecem ser também uma fuga desses conflitos que ele traz à tona. Pulamos de uma briga com o pai para a sua paixão ao ler História da Loucura de Michel Foucault. Num momento lhe acompanhamos como zelador de hotel para pagar seus estudos, em outro, estamos junto a ele no liceu ou nas aulas de filosofia.
Fica evidente seu apreço por autores como Sartre, Bourdieu e Foucault ao mesmo tempo que execra outros sem pudor algum. Além disso, não tem medo de apresentar críticas a Bourdieu (seu amigo pessoal) e a Foucault. É desse ponto, um pouco mais teórico, que ele adentra no modo como ser gay em Reims moldou sua intelectualidade, seus gostos, suas músicas, seus sonhos. Segue trecho do livro sobre como tais questões se conectam:
“Mesmo se não despejasse a homofobia que reinava no Partido Comunista ou nos movimentos maoistas, a militância trotskista era fundamentalmente heterossexista e de toda maneira pouco acolhedora da homossexualidade. Nela se recitava um catequismo reichiano sobre a “revolução sexual”, um freudo-marxismo em que a condenação da homossexualidade pelo marxismo tradicional se misturava com a conduzida pela psicanálise: a ideia segundo a qual a sociedade burguesa repousaria sobre a repressão da libido e sobre o desvio da energia libidinal para a força de trabalho, e que, como consequência, a liberação sexual contribuiria para a chegada de outro sistema social e político, continha um julgamento depreciativo sobre a homossexualidade, considerada um mero efeito dos tabus sexuais, destinada a desaparecer com eles. Na realidade, eu sentia todos os dias que não havia lugar para mim no marxismo, e, dentro desse contexto como em toda parte, eu teria de viver uma vida dividida. Eu estava dividido em dois: metade trotskista, metade gay. Duas identidades separadas, que pareciam irreconciliáveis e que, de fato, eu tinha muita dificuldade em conciliar e que, cada vez mais, tinha dificuldade em manter juntas” (Eribon, 2022 [2009], p. 150).

A questão homossexual
Eribon conta que sua dissidência sexual apareceu cedo e na sua juventude foi deixando o seu cabelo crescer – mais uma forma de se distanciar da família e do social. Ele fala da importância do primeiro amor, anos antes, o modo como a paixão por outro menino lhe fez querer ascender socialmente por meio do conhecimento, resgatando discussões bourdiesianas, para falar desse ethos cultural (crianças que recitam poemas, leem livros literários, escutam música considerada elevada), da distinção social que se estabelecia entre os dois, e, já no campo teórico, sua não concordância com o fato de Bourdieu ser um pouco binarista quando difere os esportistas dos estetas. A palavra “esteta” aqui tem conotação pejorativa, marca não só a diferença dos rapazes que fazem esportes dos que estudam, como também tem conotações de delicadeza, timidez, e, claro, ser gay. Como bem diz Didier, “eu sou um esteta”.
Seu relato sobre o “mundo gay” em Reims torna o final do livro muito potente, esse mundo gay das estratégias sociais para que dois homens conseguissem se relacionar de forma secreta, sem desconfianças, nos anos 1970. Eribon expõe esse seu desejo de experimentar esse mundo gay ao mesmo tempo que demonstra certa ojeriza a baladas, esquinas, banheirões e outras pornotopias gays, vide a essa sua distinção intelectual almejada. Mas, claro, essa desconfiança das pessoas e dos parentes acerca do “ser gay” também faz parte de uma certa maquinaria para fazer vidas LGBTQIAPN+ inferiores, que passa desde agressões físicas até verbais, indo mais além, em situações, fofoquinhas na empresa, adjetivos, apelidos e outras formas discursivas de ordem subliminar e não menos violentas – todas contadas pelo autor.
Entre mágoas e passagens demasiadas teóricas, talvez um pouco bourdiesianas em excesso, Didier Eribon retrata um contexto gay perfeitamente replicável no Brasil: gays que se intelectualizam, que fogem para capitais, que não tem laços com a família, que tem histórias de violências para contar, que flertam por aí. Mas cabe a nós problematizar e complexificar tais questões sem homogeneizar essas vivências considerando que no Brasil o capital econômico tem mais importância na definição das classes e das distinções sociais que o capital de ordem cultural (boa educação, sobrenome, saber literatura), possibilitando trazer para a ótica de análise gays de direita, por exemplo. Didier Eribon até trata desse tema quando lida com o conceito de desindentificação de gays e lésbicas, mas sem muito aprumo, preferindo mais reconhecer os elementos de estagnação e dominação que acabam marcando essas vidas na luta intensa com as rupturas, abandonos, mudanças sociais e de classe.
Por fim, cabe replicar uma das frases de Sartre que mais gosta para dar o tom do livro e de sua vida: “O que importa não é o que fazemos de nós, mas o que nós mesmos fazemos com o que é feito da gente”.
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Crédito: Reprodução.
Referência
ERIBON, Didier. Retorno a Reims. Tradução Cecilia Schuback. 1 ed. Belo Horizonte, MG: Editora Âyiné, 2022.
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