ATO PÚBLICO DE CONCLUSÃO – CURSO DE MESTRADO – RODRIGO DALENOGARE JASKOWIAK – DEFESA DE DISSERTAÇÃO – CRUZANDO PORTO ALEGRE DE BICICLETA: UMA ANÁLISE INTERSECCIONAL SOBRE O PEDALAR NA CAPITAL GAÚCHA (Mconf) – 15/08/2025

Publicado por gerente em

PROPUR/CONVIDA:

 

DEFESA DE DISSERTAÇÃO

CRUZANDO PORTO ALEGRE DE BICICLETA: UMA ANÁLISE INTERSECCIONAL SOBRE O PEDALAR NA CAPITAL GAÚCHA.

 

RODRIGO DALENOGARE JASKOWIAK

 

Banca Examinadora:

Jéssica Helena de Lima – Examinadora Externa (UFAL)

Juciano Martins Rodrigues – Examinador Externo (UFRJ)

Luísa Horn De Castro Silveira – Examinadora Externa (UFS)

 

Orientador e Presidente da Banca:
Prof. Dr. Júlio Celso Borello Vargas (PROPUR/UFRGS)

 

RESUMO

A partir das vivências do autor, enquanto desenhista de infraestrutura cicloviária, ciclista e pesquisador, surgem as questões centrais: quem são as pessoas que utilizam a bicicleta em Porto Alegre? E quais são seus motivos para pedalar e seus problemas ao se fazer isso?A literatura e as evidências científicas em mobilidade urbana afirmam que diferentes grupos sociais têm níveis diversos de mobilidades, imobilidades, formas de se locomover na cidade e padrões de comportamentos nesses deslocamentos. Com o paradigma das Novas Mobilidades (SHELLER e URRY, 2006) pesquisadoras e pesquisadores começam a olhar para o problema das mobilidades diferenciais através de uma perspectiva sociológica qualitativa, abandonando em parte a visão tecnocrática das “ciências duras” predominantemente quantitativas. Essa matriz teórica se une à teoria Interseccional para explorar as motivações e desafios da mobilidade por bicicleta, em busca de análises mais articuladas sobre as origens das desigualdades sociais nas sobreposições das formas de opressão que agem de forma paralela e convergente sobre os corpos emmovimento e moldam as experiências do pedalar na cidade (CRENSHAW, 1989; COLLINS e BILGE, 2021).

A pesquisa é dividida em duas etapas analíticas, transicionando de um método quantitativo para um qualitativo. Na primeira etapa, foram analisados os perfis de ciclistas de 11 capitais brasileiras com base na Pesquisa Perfil Ciclista Brasileiro de 2021 (TRANSPORTE ATIVO, LAMBMOB-UFRJ e OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES, 2021) dando origem ao Índice de Mobilidade por Bicicleta (IMB)e ao Índice de Mobilidade Interseccional por Bicicleta (IMIB), construtos desenvolvidos para indicar o grau de mobilidade e imobilidade por bicicleta dos diferentes perfis interseccionais em cada cidade. Os perfis interseccionais – combinações de duas das características singulares de ciclistas – sexo, raça, escolaridade – com maiores e menores índices em Porto Alegre – cidade objeto do estudo qualitativo – são então postos em foco. Por meio de entrevistas semi-estruturadas, foram buscadas as semelhanças, diferenças e singularidades das “biografias de mobilidade” (LANZENDORF, 2003) de cada perfil e, a seguir, investigados os principais desafios, incentivos e pontos de virada que afetaram a mobilidade cicloviária de cada grupo e quais desses elementos são compartilhados entre categorias interseccionais, utilizando entrevistas em profundidade e o método de análise de conteúdo de Bardin (BARDIN, 2011).

Os resultados da primeira etapa mostram que o sexo biológico é a característica determinante nas dinâmicas de mobilidade por bicicleta nas cidades estudadas, ao mesmo tempo que ele é a única caracaterística que afeta de forma similar essas dinâmicas ao longo das cidades estudadas.

Ao se expandir para outras características singulares (raça e escolaridade) e interseccionalidades, verificou-se que não há um único contexto social de mobilidade por bicicleta, visto que os perfis têm níveis variantes para cada cidade. No entanto, observam-se padrões mobilidades por bicicleta relativamente uniformes nas 11 cidades estudadas, como a pouca alteração de mobilidades das raças amarela, indígena e sem declaração; a baixa mobilidade de pessoas sem instrução; uma maior mobilidade de homens negros e homens com ensino básico; enquanto que para mulheres, a escoloradidade superior paresenta maior mobilidade.

Também foi constatado que, nos perfis interseccionais, uma característica singular pode determinar imobilidade ou hipermobilidade a depender da outra característica associada, ou seja, há interação entre os fatores. Por exemplo, ter o ensino básico completo ou ser negro pode determinar impedimento para o uso da bicicleta para pessoas do sexo feminino, mas, para os homens essa condição pode ser um estímulo para pedalar.

Nos resultados da segunda etapa surgiram diferentes vivências que impactaram o uso da bicicleta ao longo da biografia das pessoas entrevistadas: hora experiências são comuns a todas pessoas entrevistadas – como aprender a pedalar como uma atividade do núcleo de convívio próximo na infância – hora essas experiências aparecem delimitadas a certo grupos sociais – como as restrições a motilidade de mulheres brancas na infância em contraposição à falta de acesso à bicicleta de mulheres negras, também na infância.

O hábito de pedalar se mostrou complexo, com diversas nuances e percepções ao longo da vida. A diferenciação entre o pedalar lúdico e o utilitário, por exemplo, surgiu como uma barreira para a definição do que se é ser ciclista, ao mesmo tempo em que o primeiro – pedalar a lazer – foi muitas vezes o disparador de mudanças de hábitos de mobilidade. O ambiente construído e a acessibilidade também foram problemáticas recorrentes, no entanto, essas adversidades têm impactos dessemelhantes para cada intersecção.

Com esses e outros achados acreditamos demonstrar as generalidades e especificidades dos problemas, incentivos e pontos de virada que impactam na mobilidade cicloviária dos diferentes grupos e perfis interseccionais. Assim, aprofundamos o debate sobre as novas mobilidades, mostrando que o deslocamento urbano não é um acontecimento neutro em um espaço em branco, mas sim uma relação social complexa com o movimento. Portanto, evidenciando que políticas e pesquisas que busquem a justiça da mobilidade têm muito a ganhar e evoluir ao utilizar métodos qualitativos e quantitativos em conjunto.

 

Palavras-chave: interseccionalidade; paradigma das novas mobilidades; mobilidade urbana; ciclistas; Porto Alegre.

 

Data: 15/08/2025
Horário: 14:00 horas

Banca em formato remoto
Link para o evento: https://mconf.ufrgs.br/webconf/00040096

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