A educação moral – Kant e Piaget

Autor: Yves de La Taille – Instituto de Psicologia/USP
Fonte: A Educação Moral: Kant e Piaget. In: Cinco estudos de educação moral. São Paulo : Casa do Psicólogo, 1999.

O filósofo Emanuel Kant e o epistemólogo e psicólogo Jean Piaget são freqüentemente associados, notadamente no que tange ao valor por eles atribuido à razão e à autonomia do homem. Suas idéias podem ser, em vários níveis, comparadas. O objetivo deste texto é justamente fazer uma comparação, porém em uma área que não corresponde aos textos clássicos desses dois autores: a educação, notadamente a educação moral. De fato, nem Kant nem Piaget são educadores no sentido de serem autores que se debruçaram sobre questõs atinentes à pedagogia. Todavia, ambos nos deixaram alguns pensamentos sobre o tema. Kant – que ministrou aulas de Pedagogia na Universidade de Koenisberg nos anos de 1777, 1780, 1784 e 1787 – formulou algumas idéias que foram em seguida reunidas em um texto intitulado Tratado de Pedagogia. Piaget também deixou alguns escritos sobre educação (entre outros, dois livros já publicados no Brasil, com textos diversos: Psicologia e Pedagogia, de 1969, Para onde vai a Educação, de 1972; e artigos como “Os Procedimentos da Educação Moral”, de 1930, publicado no presente livro). Após fazer um resumo das principais idéias de Kant sobre a educação moral, estabelecerei um paralelo com as de Piaget.

Antes, porém, uma ressalva. A comparação a que me proponho fazer somente poderá ter algum valor se, por exercício acadêmico, abstrairmos as diferentes épocas em que os dois autores escreveram, sécuIo XVIII, para Kant e XX para Piaget. A educação é naturalmente, contextuada historicamente: não existe um homem “atemporal”, igual a ele mesmo em qualquer lugar ou século e, por conseguinte, não se educam crianças na ignorância da sociedade real em que vivem. Assim. alguns conselhos de Kant podiam fazer sentido para época em que viveu, e mesma coisa para Piaget. À guisa de exemplo, tomemos a questão do onanismo. A respeito, Kant afirmava que a prática do prazer solitário, contrário à natureza humana, enfraquece o espírito. Tal apreciação “moralista” da sexualidade humana é datada – compreensivel para um homem de dois séculos atrás. Os avanços da Psicologia, notadamente da Psicanálise, já nos permitiram compreender a sexualidade humana de forma mais complexa e assimilar o onanismo ao desenvolvimento normal da criança. Nesse tipo de exemplo, portanto, não se trata de comparar Kant e pensadores do século XX. No entanto, apesar das diversidades culturais, algumas idéias básicas permanecem e podem transcender o tempo. São essencialmente estas que vou analisar. Vou, portanto, comparar o “comparável” e, à luz das reflexões desses dois grandes autores, tanto pensar criticamente a teoria de Piaget quanto alimentar debates educacionais ainda não encerrados.

A pedagogia de Kant

O Tratado de Pedagogia não é um texto com organização precisa; trata-se mais de um conjunto de pensamentos. Estes incidern, de um lado, sobre princfpios gerais de educação e, de outro, sobre procedimentos pedagógicos, ou seja, sobre o que, na prática, fazer. Com o objetivo de ser didático, vou apresentar suas idéias, seguindo justamente esses dois níveis. principios e procedimentos. Porém, nos procedimentos, limitar-me-ei àqueles referentes à educação moral, educação esta que mais espaço ocupa no Tratado e que perparsa todas as suas preocupações pedagógicas.

1 ) Princípios educacionais

“O homem é a única criatura que seja suscetível de educação” (p, 35). Com essa frase, Kant inicia seu “Tratado”. E dá o tom: sem educação o homem não é nada, não é homem. “O homem somente pode se tornar homem pela educação” (p. 37). Todavia, o processo educativo inevitável não deve ser visto como mera socialização ou aculturação da criança: a educação deve estar a serviço do aperfeiçoamento do homem. Portanto, ela não deve limitar-se a reproduzir a cultura: deve fazê-la evoluir. E mais ainda, tal evolução depende essencialmente da educação. Escreve Kant: “Talvez a educação tornar-se-á sempre melhor e cada uma das gerações que se sucederão fará um passo a mais na direção do aperfeiçoamento; pois é no problema da educação que está o segredo do aperfeiçoamento da natureza humana. Podemos, então, caminhar nesta via. Pois, começamos hoje a perceber claramente o que constitui uma boa educação. É bom pensar que a natureza humana será sempre mais bem desenvolvida pela educação e que pudemos conseguir dar-lhe a forma que lhe convém. Isto nos mostra a perspectiva da felicidade futura da espécie humana” (p. 38). Vale dizer, a educação deve agir em função de um ideal e não limitar-se à realidade vigente. E que ideal é esse?

(…)


O texto integral encontra-se na fonte indicada acima.


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