Criatividade – Jean Piaget

Fragmento de: “Criatividade” de Jean Piaget

Fonte: PIAGET, Jean. Criatividade. In VASCONCELLOS, Mário Sérgio (org). Criatividade: Psicologia, Educação e Conhecimento do Novo. São Paulo: Moderna, 2001. pág 11-20.

Tradução: Mario Elvira Bellotto

Revisão técnica: Mário Sérgio Vasconcelos.

Origem: Conferência proferida em 1972, no simpósio Creativity: Moving Force of Society, realizado na Johns Hopkins University, Baltimore, Maryland. O texto dessa conferência foi publicado originalmente por Gallagher, J.M. & Reid, D.K. The learning theory of Piaget and Inhelder. Monterrey, Califórnia, Brooks/Cole, 1981, p.221-29.

Existem dois problemas envolvidos em uma discussão sobre a criatividade. O primeiro problema é o das origens ou causas da criatividade. O segundo é o do mecanismo: como ele acontece? Qual o processo de um ato criativo? Como alguém cria algo novo? Sem existir antes, como algo novo pode surgir?

Gostaria primeiramente de dizer algumas palavras sobre as origens ou causas da criatividade. Está muito claro que a sua origem ainda é coberta de mistérios. De fato, alguns indivíduos são visivelmente mais criativos do que outros, mas isso com certeza não é apenas uma questão de genialidade. Na verdade, a origem da criatividade permanece misteriosa, mesmo que esteja presente em todos nós.

Agora é moda entre alguns psicólogos, quando eles se deparam com algo que é difícil de explicar, chama-lo de inato ou hereditário, como se esta fosse uma explicação. Mas absolutamente não é uma explicação, e desse modo só transferem o problema para o campo da biologia. E, na biologia, estamos muito longe de ser capazes de explicar qualquer tipo de atitude mental, que dirá a criatividade. Criatividade não é apenas uma questão de precocidade em indivíduos que se tornaram muito criativos. Os indivíduos não são sempre precoces. Mozart, é claro, é um dos melhores exemplos de uma alma precoce e criativa. Mas muitos outros se tornaram criativos muito mais tarde em suas vidas; foi bem mais tarde que tiveram as idéias mais originais.

O melhor exemplo disso é Kant. Por muitos anos, ele não foi um kantiano. A maior parte de sua vida passou como um discípulo de Wolf, e foi só nos seus últimos anos que sua própria originalidade emergiu. Então, a princípio, a origem da criatividade para mim permanece um mistério e não é explicável. Mas, como disse um momento atrás, todo indivíduo que realiza um trabalho e tem idéias novas, mesmo que modestas, cria-as no curso de seus esforços.

Algumas palavras mais sobre a origem da criatividade. No percurso da minha vida, tenho criado uma ou duas idéias e quando reflito sobre suas origens, penso que existem três condições. A primeira é trabalhar sozinho, ignorar qualquer um e suspeitar de qualquer influência de fora. Quando era estudante, tive um professor de física que dizia: “Sempre que você começar a trabalhar em um novo problema, não leia e leve em conta o que tem sido escrito sobre o assunto, fazendo as correções que julgar necessárias”. Temo ter levado o conselho muito a sério, isto é, devo ter lido muito pouco. Mas para consolar-me, ou deixar de lado qualquer sentimento de culpa que possa ter, gosto de pensar na fala de Freud: “A maior punição que a divindade envia para alguém que escreve é ter de ler os trabalhos de outros”.

A segunda condição que acho necessária é ler uma grande quantidade de coisas em outras áreas, e não apenas ler trabalhos da própria área. Para um psicólogo, por exemplo, é importante ler biologia, epistemologia, lógica, para que se possa promover uma visão interdisciplinar. Não ler somente no seu próprio campo, mas ler muito nas áreas próximas e relacionadas.

E um terceiro aspecto, e aí penso em meu caso, é que sempre tive na cabeça um adversário, isto é, uma escola de pensamentos cujas idéias algumas pessoas consideram erradas. Talvez cometa injustiças e as deforme tornando-as adversárias, mas sempre tomo as idéias de alguém como um contraste.

Meus principais contraditores são os positivistas lógicos ou empiristas. Eles têm sido meus adversários por toda a vida. Por exemplo, a atividade do sujeito, o sujeito do conhecimento, é minimizada no positivismo lógico, embora do meu ponto de vista a atividade do sujeito seja realmente o centro do desenvolvimento da inteligência.

A meu ver, conhecimento é uma estruturação da realidade, e não simplesmente uma cópia. O desenvolvimento da inteligência não é simples questão de associações empíricas, mas uma construção por parte do sujeito. Então, como disse, em todo o meu trabalho o adversário tem sido o empirismo e o positivismo lógico. Posso não ser importante para o meu adversário, mas ele tem um papel importante para mim.

Agora gostaria de continuar com o segundo aspecto que mencionei, que é o mecanismo da criatividade. Acho que o estudo da psicologia da inteligência pode nos ensinar muito sobre esta questão. O desenvolvimento da inteligência é uma criação contínua. Cada estágio do desenvolvimento produz algo radicalmente novo, muito diferente do que existia antes. Desse modo, todo o desenvolvimento é caracterizado pelo aparecimento de estruturas totalmente novas.

(…)

O texto integral está disponível na fonte indicada acima.


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