A linguagem e as operações intelectuais – Piaget

Autor: Jean Piaget, professor da Faculdade de Ciências de Genebra e da Sorbonne.

Fonte: PIAGET, Jean et al. Problemas de psicolingüística. São Paulo: Mestre Jou, 1973. pág. 63-74

Agradeço ao nosso comitê que me tenha solicitado o presente relatório. Aceitei primeiro a idéia com prazer mas, em seguida, foi com uma certa inquietação que o preparei, visto que não tratarei, de fato, da linguagem propriamente dita e, sobretudo, porque já desenvolvi muitas vezes o que vou dizer sobre as suas relações com as operações. Teria sido melhor pedirem-me esta exposição há quarenta anos, quando das minhas primeiras obras, numa época em que acreditava nas relações estreitas entre a linguagem e o pensamento e pouco mais estudava do que o pensamento verbal. Desde então, o estudo da inteligência sensório-motora antes da linguagem, os resultados obtidos por A. Rey na sua análise de A Inteligência Prática da Criança, depois o inventário das “operações concretas” de classes, de relações ou de números (com o seu paralelo infralógico no domínio das operações espaciais e da medida), que se desenvolvem entre 7 e 12 anos, muito antes do nível das operações proposicionais (sendo estas últimas as únicas que podem influir em enunciados simplesmente verbais), fizeram-me ver que existe uma lógica de coordenações de ações mais profunda do que a lógica vinculada à linguagem e muito anterior à das “proposições”, no sentido estrito.

Sem dúvida, a linguagem nem por isso deixa de ser uma condição necessária à realização das estruturas lógicas, em todo caso no nível dessas estruturas proposicionais, pelo menos; mas isso não significa que constitua uma condição suficiente de formação e ainda menos no tocante às estruturas lógico-matemáticas mais elementares. É sobre essas insuficiências da linguagem que insistirei principalmente, pois se todo o mundo se apercebe da sua contribuição, cujo alcance espero reconhecer, enfim, como decisivo, também se esquece, com demasiada freqüência, o papel das ações e da própria inteligência operatória.

As principais estruturas operatórias estão, é verdade, inscritas na linguagem corrente sob uma forma quer sintática, quer inerente às significações (semântica). No que diz respeito, primeiramente, às “operações concretas” que visam diretamente os objetos (classes, relações e números), a distinção lingüística dos substantivos e adjetivos corresponde, em suas linhas gerais, à distinção lógica de classes e predicados e, em função do sentido atribuído aos diferentes substantivos, toda e qualquer linguagem comporta classificações relativamente elaboradas: limitando-nos ao sentido corrente das palavras pardal, ave, animal e ser vivo, o sujeito falante pode daí concluir que todos os pardais são aves, que todas as aves são animais e que todos os animais são seres vivos sem que as recíprocas sejam verdadeiras, o que constitui um encaixamento hierárquico de classes, isto é, uma classificação. Afirmar, por outro lado, que as baleias são “ao mesmo tempo” mamíferos e animais aquáticos consiste em exprimir uma interseção ou multiplicação de classes, princípio das classificações multiplicativas e não mais simplesmente aditivas. Os termos avô, pai, filho, irmão, tio, sobrinho etc. bastam para determinar uma estrutura de árvore genealógica ou de multiplicações co-unívocas de classes ou de relações. Os comparativos “maior do que” etc. conduzem às seriações etc. e a seqüência de números inteiros está inscrita no vocabulário corrente. No tocante às operações proposicionais ou formais, a linguagem formula as principais: a implicação (“se … então”), a disjunção exclusiva ou não exclusiva (“ou… ou”)¹. E a possibilidade de raciocinar sobre simples hipóteses, que é o apanágio dessas operações hipotético-dedutivas, está precisamente assegurada por uma tal manipulação da língua. A silogística traduz-se diretamente por formas verbais adequadas, a tal ponto que foi possível censurar à lógica de Aristóteles o ter sido algo dominada pela gramática. Quanto às estruturas diferenciadas e refinadas demais para que seja possível exprimi-las pela linguagem corrente, os matemáticos e os lógicos criaram, para seu uso próprio, linguagens artificiais ou técnicas mas que, psicologicamente, são ainda linguagens.

Portanto, é natural que, tanto do lado dos psicólogos como dos epistemologistas, tenham-se imposto aquelas teorias que procuram reduzir exclusivamente à linguagem, do ponto de vista simultaneamente genético e causal, o conjunto de operações intelectuais, para não dizer o pensamento todo (com a única reserva das imagens mentais de ordem cinética ou visual). Não é numa assembléia de psicólogos que se deve lembrar, sobre esses pontos, os trabalhos e as tendências da corrente behaviorista originada em Watson. Mas talvez seja interessante assinalar a completa convergência dessas posições com as de uma escola epistemológica que trabalhou, primeiro, em completa independência (na época do “Círculo de Viena”) para, em seguida, manter com o behaviorismo, na acepção estrita, as mais estreitas relações, depois que os “vienenses” tiveram de emigrar para os Estados Unidos. Um dos fundadores desse “empirismo (ou positivismo) lógico”, R. Carnap, começou por sustentar que a lógica toda consistia, tão somente, numa sintaxe geral, no sentido lingüístico do termo. Depois, e paralelamente a Tarski, foi levado a anexar-lhe uma “semântica” geral, mas isto tampouco nos faz cruzar as fronteiras da linguagem. Finalmente, Morris mostrou-nos a necessidade (não reconhecida, aliás, por toda a Escola), a fim de se poder explicar o caráter operativo da lógica, de completar a sintaxe e a semântica logísticas com uma “pragmática”; mas continua se tratando de regras de utilização de uma linguagem e, de maneira nenhuma, de uma lógica da ação. Se percorrermos a Enciclopedy for Unified Sciences, que constitui a Súmula do positivismo lógico, não se pode deixar de ficar impressionado pela insistência com que os lógicos, os lingüistas e os psicólogos da Escola (mas notando como E. Brunswik se conserva muito mais sutil do que os seus parceiros não experimentalistas) repetem, a torto e a direito, que os conceitos “mentalistas” do pensamento etc. já não correspondem a coisa alguma, que tudo é linguagem e que o acesso à verdade lógica é assegurado, pura e simplesmente, por um são exercício da língua.

Ora, trata-se de questões psicológicas e, por conseqüência, só a experiência está em condições de decidi-las. É preciso, a tal respeito, distinguir os dois grupos de problemas seguintes:

I. A linguagem pode constituir uma condição necessária à realização de operações lógico-matemáticas sem que por isso seja uma condição suficiente para a formação das mesmas. Sobre este ponto, os dados genéticos são decisivos, permitindo-nos estabelecer: a) se as raízes dessas operações são anteriores à linguagem ou devem ser procuradas nas condutas verbais; b) se a formação do pensamento está Iigada à aquisição da linguagem como tal ou da função simbólica em geral; e, c) se a transmissão verbal é suficiente para constituir no espírito da criança estruturas operatórias ou se essa transmissão só é eficaz na condição de ser assimilada, graças a estruturas de natureza mais profunda (coordenação de ações), as quais não são transmitidas pela linguagem.

II. Quanto a considerarmos a linguagem uma condição necessária (mas não suficiente) da constituição das operações, falta determinar: a) se as operações somente funcionam sob sua forma lingüística ou se dependem de “estruturas de conjunto” ou sistemas dinâmicos, não formulados como sistemas na linguagem corrente, propriamente dita (em oposição às linguagens técnicas); b) se, não obstante, o papel da linguagem na realização dessas estruturas operatórias eventuais continua sendo necessário num sentido constitutivo ou somente a título de instrumento de formulação e de “reflexão”; c) no caso de desempenhar um papel constitutivo, resta estabelecer se é, antes de mais, como sistema de comunicação, com tudo o que isso comporta de regras de controle e de correção prévia de erros, ou se é na medida em que as estruturas estiverem preestabelecidas numa linguagem acabada.

1. No tocante aos problemas I, podemos já recorrer aos fatos seguintes, sob reserva do conjunto de questões não resolvidas e das experiências que ainda falta realizar, sobre as quais insistiremos na conclusão deste relatório:

a) Nos níveis sensório-motores que precedem o aparecimento da linguagem, já se observa a elaboração de todo um sistema de “esquemas” que prefiguram certos aspectos das estruturas de classes e de relações. Um esquema é, com efeito, o que é generalizável numa ação dada; por exemplo, depois de ter atingido um objeto afastado, puxando o pano sobre o qual ele estava colocado, o bebê generalizará essa descoberta utilizando muitos outros suportes para aproximar dele outros objetos em situações variadas. O esquema converte-se, pois, numa espécie de conceito prático e, na presença de um objeto novo para ele, o bebê procurará assimilá-lo a si, aplicando sucessivamente todos os esquemas de que dispõe, como se se tratasse daquelas “definições pelo uso”, caracterizadas pelas palavras “isto é para…”, sobre as quais Binet insistiu numa fase muito ulterior.

Ora, ao generalizarem-se, os esquemas constituem, primeiro, espécies de classificação; por exemplo, um mesmo objetivo pode corresponder a vários meios suscetíveis de atingi-lo e equivalentes entre si de um tal ponto de vista ou, ainda, um mesmo meio pode conduzir a vários objetivos. As classes comportam uma “compreensão” do ponto de vista do sujeito, isto é, um conjunto de qualidades comuns sobre as quais a generalização se fundamenta; elas comportam, por outra parte, uma “extensão” (o conjunto de situações a que se aplicam) mas do ponto de vista exclusivo do comportamento observado pelo experimentador e sem que o sujeito seja capaz de representá-la, como o conseguirá quando tiver alcançado já o nível da função simbólica.

Os esquemas comportam, naturalmente, por outra parte, uma grande variedade de relacionamentos, prelúdios da lógica de relações que se desenvolverá ulteriormente, no plano da representação. Estas relações podem mesmo redundar numa espécie de seriações sensório-motoras, como no empilhamento de cubos de tamanho decrescente (cf. os baby-tests de Ch. Bühler).

A coordenação dos esquemas leva, além disso, a inferências práticas: procurando um objeto sob um pano, debaixo do qual foi previamente colocado um boné, e não vendo o objeto quando soergue o pano, a criança de 16-18 meses conclui imediatamente que o objeto está sob o boné, visto que introduziram esse objeto sob o pano e ela não o vê quando levanta o último.

Mas, sobretudo o esquematismo sensório-motor redunda em prefigurações de futuras noções de conservação e da futura reversibilidade operatória. Assim é que, entre meados do primeiro ano e do segundo, elabora-se essa forma elementar de conservação que é o esquema do objeto permanente. Ora, este esquema já constitui uma espécie de “invariante de grupo”; com efeito, a busca de um objeto desaparecido é função da sua localização, e as localizações só são asseguradas pela constituição de um “grupo” de deslocamentos que coordena os desvios (associatividade do grupo) e os retornos (reversibilidade).

Somos, portanto, levados a concluir que, anteriormente às operações formuladas pela linguagem, existe uma espécie de lógica das coordenações de ações que comporta, notadamente, as relações de ordem e as ligações de concatenação (relações da parte com o todo). Se, por outra parte, distinguirmos, no seio das representações e do pensamento ulteriores, um aspecto figurativo, ligado à representação dos estados, nada nos impedirá de estabelecer uma relação de filiação entre as operações, as quais dependem da ação e de sua interiorização, e essa lógica de coordenações de ações; por exemplo, a operação de somar dois números (2 + 3 = 5) provém da ação de reunir objetos e, se tivermos de designar essa reunião como simbólica, é na medida em que os termos 2, 3, 5, = e + são signos e não coisas, mas a soma desses signos é uma reunião tão real, como reunião, quanto uma soma que envolva objetos.

[…]

O texto integral encontra-se disponível na fonte indicada acima.

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