Os procedimentos da Educação Moral

Autor: Jean Piaget
Fonte: Os procedimentos da Educação Moral. In: Cinco estudos de educação moral. São Paulo : Casa do Psicólogo, 1999.
Tradução: Maria Suzana de Stefano Menin

Os procedimentos da educação moral podem ser classificados sob diferentes pontos de vista. Primeiramente, do ponto de vista dos fins perseguidos: é evidente que os métodos serão muito diferentes se desejamos formar uma personalidade livre ou um individuo submetido ao confomismo do grupo social a que ele pertence. Verdade é que aqui não temos de tratar dos fins de educação moral, mas somos forçados para classificar os procedimentos a distinguir aqueles que favorecem a autonomia da consciência e aqueles que conduzem ao resultado inverso. Em segundo lugar, podemos considerar o ponto de vista das próprias técnicas: se queremos alcançar a autonomia da consciência, podemos perguntar se um ensinamento oral da moral – uma “lição de moral” – é tão eficaz como supõe Durkheim, por exemplo, ou se uma pedagogia inteiramente “ativa” é necessária para este fim. Para um mesmo fim podem ser concebiveis diferentes tecnicas. Em terceiro lugar, podemos classificar os procedimentos de educação moral em fução do domínio moral considerado: um procedimento excelente para desenvolver a veracidade, a sinceridade e as virtudes que podemos chamar intelectuais, é bom, também, para a educação da responsabilidade ou do caráter?

Classificando o conjunto de procedimentos de educação moral sob três pontos de vista e construindo, assim, uma tabela de tripla entrada, nós corremos o risco de cairmos num caos. Não existe alguma divisão mais simples, algum princípio que nos permita a orientação simultânea para as fins, as técnicas e os domínios? Nós acreditamos que sim, mas sob a condição de partirmos, primeiramente da própria criança e de aclarar a pedagogia moral por meio da psicologia da moral infantil. Quaisquer que sejam os fins que se proponha alcançar, quaisquer que sejam as técnicas que se decida adotar e quaisquer que sejam os domínios sob os quais se aplique essas técnicas, a questão primordial é a de saber quais são as disponibilidades da criança. Sem uma psicologia precisa das relações das crianças entre si e delas com os adultos, toda a discussão sobre os procedimentos de educação moral resulta estéril. Conseqüentemente, impõe-se um rápido exame dos dados psicológicos atuais. Isso nos permitirá, ademais, classificar sem dificuldade os procedimentos em função de seus fins.

I. Os dados psicológicos e os fins da educação moral

Há uma proposição sobre a qual todos os psicólogos e todos os educadores estão seguramente de acordo: nenhuma realidade moral é completamente inata. O que é dado pela constituição psicobiológica do indivíduo como tal são as disposições, as tendências afetivas e ativas: a simpatia e o medo – componentes de “respeito” -, as raizes instintivas da sociabilidade da subordinação, da imitação etc., e sobretudo certa capacidade indefinida de afeição, que permitirá a criança amar um ideal como amar a seus pais e tender ao bem como à sociedade de seus semelhantes. Mas, deixadas livres, essas forças puramente inatas permaneceriam anárquicas: fonte dos piores excessos como de todos os desenvolvimentos, a natureza psicológica do individuo como tal permanece neutra do ponto de vista moral. Para que as realidades morais se constituam é necessário uma disciplina normativa, e para que essa disciplina se constitua é necessário que os individuos estabeleçam relações uns com os outros. Que as normas morais sejam consideradas impostas, a priori, ao espírito ou que nos tenhamos aos dados empíricos, é sempre verdade, do ponro de vista da experiência psicopedagógica, que é nas relações interindividuais que as normas se desenvolvem: são as relações que se constituem entre a criança e o adulto ou entre ela e seus semelhantes que a levarão a tomar consciência do dever e a colocar acima de seu eu essa realidade normativa na qual a moral consiste. Não há, portanto, moral sem sua educação moral, “educação” no sentido amplo do termo, que se sobrepõe à constituição inata do indivíduo.

(…)


O texto integral encontra-se na fonte indicada acima.


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