Programa Roda Viva – Debates Deficientes (parte 1)

Fonte: http://www.rodaviva.fapesp.br/materia_busca/107/psicologia/entrevistados/debate_deficientes_2006.htm

Artistas, políticos, atletas e médicos discutem sobre a inclusão das pessoas portadoras de deficiência

Paulo Markun: Boa noite. No Brasil, segundo um levantamento do IBGE, 10% dos 185 milhões de habitantes são pessoas com algum tipo de deficiência física, mental, visual ou auditiva. Já a Fundação Getúlio Vargas estima um número ainda superior, 24 milhões de brasileiros deficientes, mais do que a população de vários países da Europa. O Roda Viva, que abre hoje espaço para debater o universo dos deficientes, volta em instantes.

[intervalo]

Paulo Markun: Recentemente uma deficiente visual ganhou na Justiça o direito de entrar nos trens do metrô de São Paulo com um cachorro-guia. Uma situação extrema em casos onde, mais do que o bom senso, o direito não resolve e obriga deficientes a procurar respaldo na Justiça. Um caso que demonstra o despreparo das empresas para receber deficientes. Acessibilidade é a palavra. Mas é mais do que isso, é o direito à cidadania.

[Vídeo comentado]: As pessoas com deficiência enfrentam barreiras para a locomoção nas cidades, não faltam dificuldades também para encontrar trabalho, apesar de leis que asseguram oportunidades de emprego. O mercado faz equipamentos especiais e cria projetos para melhorar a qualidade de vida dos deficientes, inclusive com a adaptação de equipamentos. As pessoas com deficiência recebem isenção de impostos na compra de vários produtos, como carros adaptados. Diferentes métodos de reabilitação são utilizados, como uso de animais e a integração de crianças deficientes com outras crianças na sala de aula. O esporte é uma importante ferramenta como tratamento e as pessoas com deficiência encontram nele a superação das limitações. No campo científico, especialistas defendem novas pesquisas com células-tronco que prometem resultados no combate à paralisia.

Paulo Markun: Para debater este assunto nós convidamos: Dudu Braga, apresentador; Leonardo Mattos, deputado federal pelo PV [Partido Verde] de Minas Gerais e Presidente da Comissão Especial para o projeto de lei do estatuto das pessoas com deficiência; Lars Grael, velejador; doutor Donaldo Jorge Filho, médico fisiatra, coordenador da equipe de reabilitação de amputados da Divisão de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas de São Paulo; Célia Leão, deputada estadual pelo PSDB de São Paulo e militante do Movimento pelo Direito das Pessoas com Deficiência; Ronaldo Correia Júnior, autor do site Dedos dos pés; Marcos Frota, ator, criador e diretor da Unicirco, Universidade Livre do Circo, com programa de inclusão de deficientes; e Clodoaldo Silva, atleta paraolímpico da natação, 6 vezes medalha de ouro, 1 de prata e 4 recordes mundiais, embaixador do Pan e do Parapan 2007. Eu queria começar o debate, antes disso lembrando que o Ronaldo, que tem paralisia cerebral, se comunica com a gente pela internet. Aliás, foi isso que permitiu a ele, de alguma forma, ampliar o seu horizonte e é isso que ele vai contar para a gente aqui no programa. Eu queria, antes de mais nada, colocar uma questão preliminar, que é a seguinte: o que o país precisa fazer para que a nossa bandeira aqui, digamos, estilizada, se torne uma realidade, ou seja, para que os deficientes estejam definitivamente incluídos? E eu queria pedir isso, reclamando, digamos, solicitando, a experiência de cada um de vocês, porque se a gente for discutir a questão pura e simplesmente no plano geral, existem inúmeras questões a serem resolvidas. E eu acho que até o grande público, alguma parte delas identifica: educação, emprego, acessibilidade, condições da sociedade. Mas eu queria que cada um puxasse pela sua vivência e dissesse assim: “Pela experiência que eu tenho, o mais importante, ou mais urgente, ou mais essencial, é isso”. Começando pela Célia Leão.

Célia Leão: Dizendo a alegria de estar aqui, Paulo Markun, com todos os convidados, neste programa especialíssimo do Roda Viva, que é “Roda Viva e Bandeira Viva”. Está aqui bem o símbolo da pessoa deficiente no Brasil, que é uma causa de todos nós. Eu diria uma frase em que a gente vai vivendo 31 anos numa cadeira de rodas e vai aprendendo: “Ter uma deficiência, com certeza absoluta não é a melhor coisa do mundo”. Lógico que tem outras situações mais fáceis e mais agradáveis, mas também posso dizer, afirmar que não é a pior coisa do mundo. Muito pelo contrário, as dificuldades nós vamos tirando do dia-a-dia. Mas é preciso pelo menos três vertentes: a primeira delas a família, que é fundamental na integração da pessoa com deficiência, primeiro na sua casa. Depois a sociedade como um todo entendendo o respeito e a responsabilidade com esse segmento que, como você mesmo disse, perpassa aí quase 20 milhões de pessoas, brasileiros, homens e mulheres, jovens, crianças, adultos e idosos, que têm algum tipo de deficiência. E terceiro, obviamente, políticas públicas que venham a atender diretamente a questão do deficiente. E essas políticas públicas, nós temos a questão da legislação, seja ela federal, na Constituição Federal de 1988, nas Constituições Estaduais e principalmente nas Leis Orgânicas do Município, que quase 5.560 municípios do Brasil, hoje têm, pelo menos um artigo, um capítulo, vendo a questão da pessoa deficiente. Agora precisa colocar em prática e aí é o nosso debate de hoje à noite.

Paulo Markun: Dudu Braga, para você, o que é mais importante?

Dudu Braga: Eu acho que a gente teve umas mudanças nestes últimos anos que foram muito importantes. Eu estava falando com o Clodoaldo, já conheço o Clodoaldo há muito tempo, nosso atleta paraolímpico. E a questão do deficiente na mídia, eu acho que isso a gente vem conseguindo quebrar realmente esse preconceito. O padrão estético, às vezes, nos impede muito de entrar nesse mundo. E eu acho que a televisão tem um papel super importante e o Marcos deve concordar comigo, que o ano passado a gente fez junto a novela América [exibida pela Rede Globo em 2005, escrita por Glória Perez e dirigida por Jayme Monjardim], e o fato de se ter colocado um deficiente totalmente resolvido em relação ao seu problema de deficiência, eu acho que isso teve um papel fundamental. É um processo que já vem, como eu já falei, junto com o Clodoaldo, porque as Olimpíadas, Paraolímpicas vêm junto com isso, trazendo esse padrão do deficiente como atleta, conseguindo realmente superar, porque a superação é uma coisa importantíssima para o deficiente, para quem se torna deficiente, para quem nasce deficiente também. Então eu acho que é um processo que vem crescendo com o tempo, já de 50 anos para cá, seria impossível de repente a gente ver um deficiente usando o meu próprio exemplo apresentando um programa. Um deficiente visual, como eu, apresentando um programa. Mas eu acho que isso se tornou possível, o Clodoaldo vem dando exemplo, eu acho que a quebra desses conceitos, e agora o mais importante talvez seja a gente também poder mostrar o deficiente não só como atleta, não só como apresentador, que são atividades que realmente têm uma exposição maior. Mas também mostrar o deficiente como trabalhando num banco, tendo atividades de uma forma, digamos assim, mais cotidianas, que foi isso que a novela fez. A novela cumpriu esse papel de poder mostrar o deficiente no seu dia-a-dia, resolvido com ele mesmo e não só como drama. Eu sou deficiente há quinze anos, deficiente visual há 15 anos, e sinceramente me sinto muito bem, me sinto muito eficiente como deficiente. Acho que isso é muito importante, acho que a gente está conseguindo mostrar isso para todo mundo. Claro que existem várias questões que a gente vai ter que discutir aqui hoje, como acessibilidade, a quebra do preconceito e outras questões mais.

Paulo Markun: Marcos Frota, já que o Dudu mencionou a sua experiência na novela, eu queria saber o que isso, eu sei que você já era um militante dessa causa antes de fazer a novela, mas eu queria saber o que mudou aquela experiência indireta de enfrentar a situação que obviamente não é igual a da vida real, mas imagino que pela própria função do ator você teve que, de alguma forma, buscar se aproximar dessa situação.

Marcos Frota: Eu acho que o Jatobá [nome do personagem deficiente visual representado por Marcos Frota na novela América] fez um grande convite para que o deficiente saia às ruas, sabe, encare o desafio da convivência, ocupe os seus espaços, crie os problemas para que a sociedade resolva. Eu tenho a impressão que a coisa mais essencial, neste 2006, é que esse contingente de quase 25 milhões de brasileiros se conscientize da sua importância, da contribuição que eles possam dar para a construção dessa cidadania que pode iluminar todas as outras questões do país hoje. Eu tenho andado aí com meu circo, com o projeto da Universidade do Circo, eu tenho andado com palestras, o Jatobá tem me levado a lugares que eu nunca imaginei ir, para falar e para estar com as pessoas com deficiência. E o que eu tenho feito é: “Saiam às ruas! Ocupem os seus espaços”! Eu me lembro de um rapaz entrando numa boate e aí o segurança da boate falou: “Epa, eu acho que aqui você vai ter um problema para entrar na boate”. Aí o cadeirante falou: “Não, não, não! O problema é de vocês! Eu tô aqui, quero entrar e quero que me carreguem, quero que me locomovam. Eu não tô preocupado em denunciar se a casa tem ou não tem a condição para que eu possa freqüentar. Eu quero freqüentar”. Aquela atitude serena, tranqüila, bem humorada criou um problema para o segurança resolver naquele instante e ainda criou a situação pública de que o dono do estabelecimento pensasse seriamente em preparar a boate dele para que fosse freqüentada por pessoas com dificuldades de locomoção. Eu acho que este ano, ano de 2006, eu queria colocar isso aqui na mesa, eu acho a questão do deficiente é tão ou mais importante do que a Copa do Mundo que se aproxima, do que as próximas eleições.

Paulo Markun: Lars Grael, na sua visão, o que é o passo número um para que o país trate melhor esse contingente que é tão diversificado?

Lars Grael: Bom, boa noite, Markun. Boa noite, colegas do Roda Viva. Eu acho que nós temos uma questão de fundo de estrutura legal sobre isso, que é uma revisão e a consolidação das leis dos direitos das pessoas portadoras de deficiência. Isso está em debate hoje no Congresso Nacional, eu acho que o deputado Leonardo Mattos pode apresentar isso até melhor. Mas me parece que, muitas vezes, não apenas formular novas leis, mas fazer cumprir as leis atuais. Ou seja, há um problema de conscientização, de mobilização nacional sobre essa causa. A questão, por exemplo, da novela América, foi um meio de comunicação, de convencimento, de mobilização nacional muito bem desenvolvido. Eu acho que mudou todo um paradigma, está ajudando demais. Como também é importante o movimento paraolímpico, que mostra que um atleta como o Clodoaldo não é apenas rotulado como um deficiente, ele ao comprovar nas piscinas ser o melhor paraatleta do mundo e a eficiência física dele, ele pode mostrar que a letrinha dele pode ser um preconceito da sociedade. E ao comprovar a eficiência física, ele também comprova que ele pode ser uma pessoa útil ao trabalho, produtiva, uma pessoa que esteja atuando no setor produtivo nacional. Um exemplo que pode ser seguido por milhões. Então eu acho que essa conscientização que está acontecendo hoje no Brasil é uma luta, e nós temos que permear cargos públicos ou empresas privadas. Deputada estadual Célia Leão, deputado federal. Outros ocupando cargos em empresas, programas em televisão como o Dudu. O Marcos Frota com um brilhante desempenho como Jatobá. Essa mudança está acontecendo, mas falta muito.

Paulo Markun: Muito bem. Clodoaldo, já que você também foi mencionado, o seu depoimento, por favor.

Clodoaldo Silva: Muito boa noite a todos. É uma satisfação poder estar aqui num programa de tanta visibilidade. E como já foi dito aqui, existem 24 milhões e meio de pessoas com deficiência e se formos incluir família, amigos, isso passa a representar quase 100 milhões, então que tem algum tipo, que tem alguma relação com a pessoa com deficiência. É um número muito alto, eu acredito que possa ter mais coisas públicas que possam ser feitas, porque a pessoa com deficiência ela não tem a preguiça, não tem o medo de sair nas ruas. O que falta muito é a acessibilidade, são rampas que não têm. Então eu acredito que essa é o maior problema de nós, pessoas com deficiência, porque quando uma pessoa nasce e tem alguma necessidade especial, logo as pessoas pensam: “Poxa, a minha vida acabou. Pô, eu não vou ter êxito na vida”. Mas não. Nós temos algum tipo de necessidade especial e vamos traçar outro caminho para chegar no mesmo objetivo daquela pessoa dita normal, entre aspas. Porque o mundo não acaba, apenas vai ser um caminho com mais dificuldades para que se possa chegar no objetivo. Eu acredito que eu estou tendo a felicidade de estar representando a parte do esporte, estar representando pessoas que há algum tempo atrás achava que era impossível, achava que não podia sair nas ruas. E hoje eu vejo uma coisa diferente. Vejo que as pessoas com deficiência a auto-estima elevou, estão mais acreditando nas coisas, nos seus objetivos. E tudo isso pelo esporte, pela Paraolimpíada também que foi um grande marco, porque em 2004, pela primeira vez, foi transmitido ao vivo. E antes a sociedade brasileira ouvia falar que nós íamos e ganhávamos medalhas, conseguíamos bons resultados, mas em 2004 passou a ver. E é muito diferente você ver e ouvir. E aí sim, hoje eu me sinto feliz que tenham pessoas com deficiência e chegam: “Poxa, quando eu crescer eu quero ser igual a você”. Não só pessoas com deficiência. Pessoas que não têm nenhum tipo de deficiência chegam e falam a mesma coisa. Então isso chega a me emocionar e isso chega a mostrar que as pessoas que não têm deficiência não vêem você com deficiência. E sim uma pessoa capaz, uma pessoa que busca seus objetivos. E eu fico muito feliz de estar representando isso na sociedade brasileira e tenho certeza que eu tenho uma carreira muito grande aí, porque eu acredito que a minha maior medalha vai ser tirar essas pessoas de casa e elevar a auto-estima. E eu espero contribuir de alguma forma.

Paulo Markun: Doutor Donaldo, do outro lado dessa história, o senhor acompanha a experiência de quem era normal, se essa palavra se encaixa, tinha suas condições físicas comuns e, de repente, perde um membro. Como é que o senhor encara essa situação e o que o senhor poderia dizer sobre isso?

Donaldo Jorge Filho: O que a gente verifica é que existem dois tipos de deficientes, vamos dizer assim, não querendo ser muito didático. Aquele que nasce com a deficiência e aquele que recebe uma deficiência de presente, como um acidente, como um aspecto de violência urbana, ou mesmo uma doença. Então, aquele que nasce com a deficiência se prepara para ela, como disse o Clodoaldo, a família dele está mais ou menos preparada para colaborar e contribuir para o desenvolvimento desse deficiente. Já quando o indivíduo é pego de surpresa no meio da sua vida, o que acontece é que a família dele, os amigos em torno dele estão despreparados. E o que eu acho é que a grande missão hoje, em termos, como disse a deputada Célia Leão, políticas públicas e tudo mais, a grande missão eu acho que é preparar a sociedade para a convivência com o deficiente. Tanto no aspecto médico, nós da reabilitação sentimos, estava comentando com o Dudu agora há pouco, muitos colegas ainda muito despreparados, cirurgiões completamente ignorantes do que fazer com um indivíduo que sofreu um trauma e vai necessitar de uma amputação. E aí aparecem aqueles problemas que o deficiente vem reclamar da prótese, por exemplo. A prótese está certinha, o que está errado é o membro residual dele, o coto de amputação dele às vezes. Então, infelizmente a gente tem que estar sempre “toureando”, vamos usar um termo bem chulo, “toureando” essas situações. “Será que você não aceitaria cortar 2 cm do seu osso e revestir melhor esse coto, aí não vai doer”. É assim que o médico, infelizmente, tem que estar procedendo. Agora, o que se faz em reabilitação, tem que ser feito em equipe. Então o que a gente vê é que o Brasil inda está muito deficiente no aspecto da reabilitação em equipe. Numa equipe de reabilitação, até por lei, se pressupõe aí 8 pessoas além do médico, oito profissionais além do médico. E a gente vê que muitos desses profissionais querem trabalhar sozinhos. A gente precisa desenvolver dentro da reabilitação o conceito de equipe.

Paulo Markun: Leonardo Mattos.

Leonardo Mattos: O mundo hoje discute a questão das pessoas com deficiência através da formação de uma convenção dirigida, encaminhada e conduzida pela ONU e com uma forte participação do Brasil. Portanto, isso quer dizer que não é um privilégio da nação brasileira o problema da inclusão das pessoas com deficiência. Mas ao longo dos meus quase 30 anos de cadeira, eu pude perceber alguns pontos que são de estrangulamento. O primeiro: um desestímulo intenso por parte da administração pública na perspectiva de fazer investimento na inclusão das pessoas com deficiência. Vamos ter um exemplo aqui do transporte coletivo. Até hoje o Brasil não permite acesso do usuário de cadeira de rodas no transporte coletivo de nosso país, que é a questão nuclear de um problema de cidadania, de uma questão de cidadania. Essas questões precisam ser equacionadas com investimento. Então é indispensável que o governo brasileiro defina orçamento para a inclusão das pessoas com deficiência. É indispensável que os governos estaduais façam o mesmo, que os governos municipais façam o mesmo, que as escolas públicas estejam perfeitamente aparelhadas e qualificadas para receber esse contingente de pessoas. Hoje mais de 30% dos analfabetos do Brasil portam algum tipo de deficiência. Isso é sinal de que os investimentos ao segmento estão sendo deixados de lado. No meu modo de ver, nós precisamos realmente fazer um grande debate no nosso país e esse debate começou recentemente com a Conferência Nacional [A I Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência ocorreu de 12 a 15 de maio de 2006 em Brasília, com o tema: “Acessibilidade você também tem compromisso”] que terminou ainda nesta semana, onde os pontos principais, os pontos de estrangulamento foram debatidos. Mas precisa se elaborar um plano diretor no Brasil, um plano diretor da inclusão dos deficientes em nosso país, passando pelo esporte, pela cultura, pela educação, pela acessibilidade ao transporte coletivo. Enfim, o Brasil precisa sofrer uma transformação, uma grande revolução na perspectiva de incluirmos essa pessoa com deficiência. Caso contrário, fatos que nós vimos de deficientes amarrados nas camas, deficientes abandonados, deficientes minguando, morrendo de fome, morrendo nas portas de hospitais, vão continuar, à nossa revelia.

Paulo Markun: O Ronaldo, como eu já disse aqui, tem paralisia cerebral e se comunica de duas maneiras: por uma tábua de sinais e pelo teclado do computador, digitando com o dedo dos pés. Tem um depoimento aqui que eu diria prosaico e absolutamente no ponto. Quem, aliás, tiver interesse em conhecer mais da história dele, basta acessar o site que é: www.trunet.com.br/ronaldo. O site se chama Dedos dos pés e tem um relato que fez a gente convidá-lo para participar do programa, absolutamente surpreendente pela disposição de enfrentar essa dificuldade e pela demonstração de que as aparências sempre enganam. Então, o Ronaldo diz o seguinte: “Muita gente com deficiência não pode ter cartões de crédito, só porque não pode assinar o nome”. E ele ainda lembra que esse é o caso dele. Então é o paradoxo, ele tem de andar com dinheiro no bolso e tem a dificuldade de colocar a mão no bolso. Esse é o tipo de realidade que o Ronaldo enfrenta. Nós vamos fazer um rápido intervalo, lembrando que a entrevista desta noite poderá ser encomendada em DVD a partir de amanhã pelo site www.culturamarcas.com.br, como todas as entrevistas do Roda Viva. Ou pelo telefone 3081-3000. E nós voltamos num instante com o programa que tem na platéia hoje Carlos Odilon da Silva, gerente de pós-venda da Marxel; Marisa Furlan Silva, presidente da ABRA, Associação Brasileira de Autismo e fundadora da AMA, Associação dos Amigos do Autista; Dirceu Pereira Junior, diretor editorial da revista Sentidos. A gente volta já, já.

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Paulo Markun: Voltamos com o Roda Viva especial, que debate as dificuldades e oportunidades das pessoas com deficiência. Como o programa está sendo gravado, ele não permite a participação dos telespectadores. Nós vamos ver o depoimento de Pedro de Alcântara, no Rio, que é advogado.

VT de Pedro de Alcântara: A reserva de mercado de trabalho está condicionada à habilitação profissional. A lei é clara quando diz: “O deficiente habilitado deve ser contratado, se não houver habilitação, não há como se contratar deficiente não habilitado”. Pergunta-se: o que fazer para que essas instituições realizem aquilo que a lei determina? Isto é, a habilitação profissional do deficiente.

Paulo Markun: Dudu Braga, na sua opinião, o que pode ser feito para melhorar as condições desse contingente de brasileiros de chegar ao universo do trabalho, se não em pé de igualdade, pelo menos com alguma chance?

Dudu Braga: Eu estava vendo também o Leonardo falar no bloco passado sobre o problema de gerenciamento crônico do Brasil, não só na questão dos deficientes, em modo geral, das políticas públicas. A gente tem um problema realmente de gerenciamento de tudo que está acontecendo. Eu particularmente acho as políticas de cota necessárias, mas eu sou contra elas. Eu acho que faz parte de um processo da inclusão, hoje a política de cotas para os deficientes e não só para os deficientes de um modo geral, mas eu acho que isso, de certa forma, são preconceituosas as políticas de cotas. Mas faz parte. É como se fosse um remédio, né doutor, às vezes você é contra o uso de um remédio, mas às vezes você precisa usar para acabar com essa doença que é justamente o preconceito que os deficientes sofrem no mercado de trabalho. Mas o problema geral do trabalho para os deficientes e para todo brasileiro de um modo geral é a educação. A educação eu acho que é o grande alicerce de toda sociedade. A educação e a família. Eu acho que melhorando a educação, eu estava vendo uma pesquisa outro dia, a forma realmente de você conseguir um aumento de renda, aumentar o salário é justamente aumentando o nível dos trabalhadores, o nível intelectual dos seus trabalhadores. Então eu acho que isso a gente vai conseguir melhorar realmente essa questão do trabalho no Brasil, e conseqüentemente, dos deficientes.

Célia Leão: Paulo Markun, eu quero só acrescentar, eu acho que o debate está extremamente interessante para o Brasil todo. Aliás, o Roda Viva tem cumprido esse papel ao longo da sua existência com pessoas e temas extremamente importantes. E esse do deficiente é algo que tem que interessar toda a sociedade. Como disse o Clodoaldo com competência e sabedoria, em quase toda família tem um deficiente, e multiplicado pelos amigos e etc. dá quase 100 milhões de pessoas, num contingente de 185 milhões. Então, todos nós temos que estar interessados nessa causa. A questão da empregabilidade, a questão do trabalho, eu diria que o limite é o céu, quer dizer, não tem limite para a capacidade e competência com as deficiências que cada um possa ter. É cada um que vai desenvolver aquilo que ele pode. Você pega, por exemplo, o Lars Grael, ele não perdeu nem o prumo, nem o rumo e nem a vela, ele perdeu uma perna, até aí é acessório, quer dizer, perdeu uma, tinha duas, podia ter perdido as duas também. Dá para velejar, senta com o “bumbum”, sei lá como que é. Quer dizer, cada um tem uma condição de fazer com aquilo que lhe sobrou, aquilo que é dele. Você pega o Leonardo, o Léo de Minas, ele só é cadeirante, ele é paraplégico. Mas isso não impediu o seu trabalho profissional, é parlamentar federal, trabalha e nunca teve problema por causa disso, foi vereador em Belo Horizonte, enfim, tem o seu trabalho. O Dudu já provou que para viver não precisa enxergar, pode ser cego.

Paulo Markun: Desculpe só interromper, mas não são as exceções isso?

Célia Leão: Mas, Paulo, deixa eu lhe falar uma coisa. Se você andar nas periferias das cidades como eu ando ou eu “rodo”, você vai encontrar milhares de pessoas deficientes, eu digo periferias, porque acaba sempre separando mais. Você vai encontrar pessoas com maior comprometimento físico, visual, auditivo, que seja, se você der àquela pessoa oportunidade de desenvolvimento das coisas que ela sabe ou pode aprender, ela vai fazer. Quer dizer, é uma minoria, claro, se você pegar um contingente de 25 milhões, você pode chamar de minoria, mas se você der a possibilidade dessas pessoas também ao desenvolvimento, elas vão ser um Leonardo, elas vão ser um Lars Grael, elas vão ser um Dudu, elas vão ser um Clodoaldo, quem ganha do Clodoaldo? Só se for um tubarão e a baleia na água [risos], porque o resto ele corre, voa na água e ganha a medalha. Eu penso assim, o Marcos Frota, ele se meteu, no bom sentido, com uma causa, que, entre aspas, não era dele, mas sempre foi com certeza, e isso lhe deu além de mais visibilidade, mais carinho, ficou mais amado e fez mais sucesso, ou seja, é uma causa interessante para todo mundo.

Marcos Frota: Vou dar um testemunho aqui que eu acho bacana. Sem querer fazer divulgação de uma empresa privada.

Paulo Markun: Não tem nenhum problema. Desde que a empresa privada cumpra a sua função e faça um trabalho bacana, por favor, divulgue.

Marcos Frota: Eu tenho andado aí pelo país muito nos aeroportos. E eu comecei a perceber a atitude que a Gol [empresa aérea brasileira] tomou. A Gol começou com um trabalho muito lento, muito tímido, ocupando as suas vagas com pessoas com deficiência, pois aquilo iluminou a empresa toda, aquilo despertou na equipe um clima de companheirismo, de ternura, de respeito, aquilo inspirou as pessoas que são freqüentadores dos aeroportos e em outras áreas. Eu tive um testemunho agora no aeroporto do Ceará, eu sensibilizado e atento com essa questão, eu fui até a administração da Gol no aeroporto de Fortaleza e perguntei para eles o porquê que eles estavam fazendo isso. E eles então admitiram que começaram aquilo com muita dificuldade, mas que hoje essa política de atenção e disponibilidade para que as vagas da Gol fossem preenchidas com pessoas com deficiência, se tornou prioridade na empresa. Eu queria deixar registrado esse exemplo da Gol, porque é uma bolinha de neve que cresceu, cresceu, cresceu e hoje, se vocês observarem, grande parte dos funcionários de atendimento da Gol nos aeroportos são pessoas com deficiência.

Paulo Markun: Eu queria aqui mencionar as afirmações do Ronaldo, que diz o seguinte: ele trabalha com web design há dez anos e admite que raramente pega trabalho. E no site dele, a gente tem as seguintes informações que eu acho que é importante a gente saber. Ele diz o seguinte: “Uso o computador de uma maneira diferente, com os dedos dos pés, a razão disso é que devido a um acidente de parto, em que me faltou oxigênio, fiquei com paralisia cerebral. Apesar disso, minhas funções mentais não foram prejudicadas e sou mental e psicologicamente normal. De fato como não é possível falar, como não me é possível andar, comer, vestir sem ajuda, a comunicação comigo é bastante complicada e por isso era bem problemático expressar o que me passava pela cabeça. A internet, aliás por ela que nós estamos aqui nos comunicando – Ronaldo e eu, e com todos os telespectadores – é o único espaço em que esse fato é evidente. Em geral as pessoas têm imensa dificuldade em acreditar que não tenho um retardo mental, problemas de percepção ou pelo menos uma ingenuidade elefantina. Para fugir do tédio, virei um leitor voraz e acabei me tornando autodidata em economia, também gosto de história, filosofia, ciência particularmente física, astronomia e matemática, tecnologia e ficção científica. Prefiro que me encarem como um lutador, um ser humano que se vê na contingência de ter de enfrentar problemas maiores do que os “normais” para ter sonhos, dos quais o maior, e ter um relacionamento intenso com uma mulher e a alegria de viver”. Agora, deu para contrabalançar isso e apimentar a nossa discussão? Sinceramente eu acho que está ficando um pouco cor-de-rosa, com o perdão da palavra. Eu cito aqui o e-mail que nós recebemos de Michel Inácio Schilinder, se é que eu pronunciei corretamente, que diz o seguinte: ele nasceu em 74, prematuro de 7 meses, teve falta de oxigenação no cérebro, tem paralisia cerebral como o Ronaldo, fez um tratamento, passou boa parte da vida em centros de reabilitação – eu estou resumindo o que ele disse – até 93, quando ficou em casa sem fazer nada. Tornou-se autodidata em informática, voluntário em 96 para a Faculdade de Informática da UFRGS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ingressou num supletivo, foi alvo de matérias da mídia, como exemplo de inclusão, fez o curso de técnico de manutenção e montagem de micros, e hoje, luta por uma vaga no mercado de trabalho. E diz o seguinte: “Não consigo por um simples fato: as empresas, na figura dos seus recrutadores de recursos humanos, têm apenas uma imagem de um paraplégico, hoje, carinhosamente chamados de cadeirantes. E com muito despreparo descartam as outras deficiências pura e simplesmente por falta de conhecimento. Cria-se aí um regime segregatório muito cruel e injusto”. Doutor Leonardo, não tem isso um pouco? Não há dois pesos e duas medidas nesse universo?

Leonardo Mattos: Existe sim, mas eu diria que de forma invertida. Acho que os deficientes com maior grau de severidade têm uma dificuldade maior, apesar de muitas vezes terem qualificações superiores aos demais. Então as empresas estão, sim, recorrendo das ações que o Ministério Público do Trabalho tem realizado em favor da aplicação da lei, mas elas têm contratado pessoas com deficiência bastante amena, são deficientes muito leves, deixando de lado aquelas pessoas com deficiência mais profundas e mais severas. E aí entram os deficientes mentais, entram os deficientes de locomoção, que têm uma dificuldade muito grande, que eu citei anteriormente por conta do próprio transporte coletivo. É inadmissível, por exemplo, hoje eu vivo boa parte dos meus dias da semana em Brasília, é a capital de todos os brasileiros. Talvez o Brasil inteiro trabalhe para colocar dinheiro naquela cidade, e infelizmente as pessoas com deficiência não têm acesso sequer a um passeio público naquela cidade. E é uma cidade planejada, plana, sem dificuldades do ponto de vista da sua geografia, enfim, da sua topografia. Nós precisamos verdadeiramente de investimentos na qualificação das pessoas com deficiência. Eu fico pensando nos pais dos deficientes, nas mães dos deficientes quando se deparam com essa situação na família. Quando elas têm uma criança não deficiente todo o caminho está pronto e perfeito para ela seguir. Quando se depara com uma criança deficiente na família, são só obstáculos que elas têm que enfrentar e essas mães e esses pais viram verdadeiros heróis, porque a sociedade brasileira não apresentou as portas de entradas para a inclusão desses meninos. E aí eles vão ficando cada vez mais despreparados, ou cada vez menos preparados num mercado que cada vez mais exige qualificação, exige absoluta interação com esse processo de desenvolvimento tecnológico por qual vive o nosso planeta.

Paulo Markun: Clodoaldo, você tem patrocínio, né? Mas eu imagino que você tem muitos colegas que não têm.

Clodoaldo Silva: Pois é. Eu tenho dois patrocinadores, inclusive há três semanas atrás, assinei com a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro para ser o Embaixador do Pan e do Parapan Americano, que acontece em 2007 no Rio de Janeiro. Vou ter que deixar a cidade de Natal, Rio Grande do Norte para ir morar… Em agosto estou me mudando para o Rio, mas em Natal não vou deixar as origens. Meu patrocinador, a Nutriday, também é da cidade, não vou deixar meu clube e, conseqüentemente, continuo defendendo o Rio Grande do Norte. Estou com o pensamento de instalar um instituto com o meu nome na cidade, realizar projetos. Então tem todo esse lado social que eu vou ficar realizando em Natal e estar treinando no Rio. E acompanhando um pouco do relato do Ronaldo, falando que tem paralisia cerebral, que tem essa dificuldade até na inserção ao mercado de trabalho. Também tenho paralisia cerebral, falta de oxigenação durante o parto e sofri muitos preconceitos, tanto que, em programas de televisão, as pessoas chegaram a dizer: “Poxa, tem dicção perfeita, se expressa corretamente”. Então muitas pessoas ainda associam muito a paralisia cerebral com deficiência mental. Então são diagnósticos que não têm nada a ver. Muitas vezes não temos uma dicção perfeita, não temos uma expressão muito boa, mas intelectualmente pode ser um Ronaldo, pode ser esse rapaz aí que mandou o e-mail, que tem todas as condições de estar trabalhando, de estar no mercado de trabalho, só precisa de oportunidades. E, falando sobre qualificação, eu acho que três fatores aí têm uma grande importância. O primeiro é a família. A família, quando nasce uma pessoa com deficiência, ela tem que incentivar, tem que apoiar e, graças a Deus, eu tive todo esse apoio. E com esse apoio vem o segundo fator que é auto-estima. Tendo uma auto-estima boa você consegue qualquer coisa. Acho como a Célia falou, o céu é o limite. E, em terceiro lugar, é o governo. Eu acho que tem que sempre estar fazendo políticas públicas para estar sempre incentivando. Eu fui uma pessoa que, graças a Deus, tive e tenho uma família que sempre me apoiou, uma auto-estima muito grande, mas infelizmente não tive nenhuma ajuda de governo. Então, para onde eu tinha que ir até os 7 anos de idade, para a escola e para a creche, para as coisas mais fáceis para uma pessoa dita normal para fazer, eu precisava do meu irmão que me carregasse. Então, se eu precisava estudar, meu irmão que me carregava nas costas para eu poder assistir a aula. E, infelizmente, hoje o Brasil tem um grande número de analfabetos e imagina pessoas com deficiência, que têm uma maior dificuldade de locomoção, a maior dificuldade de ter acesso. Então, eu acredito que o principal motivo do deficiente não ter uma preparação, uma qualificação, é o acesso que não tem de sua casa para a escola.

Lars Grael: Muito bem, eu acho que com relação a essa questão de cotas, para você ter acesso ao mercado de emprego, nós temos um problema de origem. Como que um deficiente vai conseguir trabalho se muitas vezes ele não consegue sair de casa? Aí você volta a um fundamento: acessibilidade. Um segundo: para você ser competitivo no mercado de emprego, tem que ter educação. Vendo o material que a própria TV Cultura disponibilizou para esse debate, eu constatei aqui que o Brasil, nós tínhamos em 98 só 13% dos jovens deficientes, com acesso à educação básica, escolas públicas e particulares, em 98. Saltou para 34% em 2004. Um avanço notável, mas ainda um terço do contingente apenas. A Espanha tem 86%. Mostra o abismo que nós temos para chegar a um patamar aceitável. Portanto, as empresas aqui no Brasil, você tem três tipos: das empresas que não cumprem a lei, e muitas vezes isso passa impune. O poder público faculta à sociedade cumprir ou não a nossa vasta legislação, o que é uma grande anomalia. Tem as empresas que cumprem a lei, apenas por cumpri-las. Então coloca lá o deficiente, não capacita, não forma, deixa ele ali no cantinho. Se ele vier ao trabalho, bom, se ele no vier, também não tem problema. O que está errado. O deficiente ela não quer apenas cumprir o seu direito. Ele quer ser competitivo. Ele quer ter acesso, ele quer respeito, ele quer trabalhar, ele quer ter um plano de cargos e salários. Então, veja essa questão. O Marcos Frota citou um bom exemplo, que eu também pude presenciar da Gol. Dando um outro exemplo de uma empresa que eu fiz uma palestra recente, que eu vi que trabalha muito bem com a questão do acesso do deficiente, formando, capacitando, valorizando, que foi a questão do Banco Itaú. Ou seja, tem caminho para evoluir, não resta a menor dúvida. Mas eu acho que o que falta muito é capacitação. O deficiente tem que ter acesso e a capacidade de ser competitivo.

Leonardo Mattos: Se você me permite, tudo isso tem que ser discutido dentro de um contexto. E qual é o contexto hoje vivido na sociedade brasileira? Boa parte dessa violência que estamos vivendo aqui é ocasionada pelo desemprego. E o desemprego não assola apenas as pessoas com deficiência, então nós temos concorrentes fortíssimos no mercado que também aguardam e esperam ansiosamente políticas públicas de desenvolvimento, a fim de atingir a esse sem número de pessoas também em busca de um espaço no mercado de trabalho. Então não é apenas uma questão da pessoa com deficiência, esse não é um problema isolado que nós vivemos enquanto deficientes. Nós vivemos enquanto deficientes, mas principalmente enquanto pessoas que moramos num país em que a questão do desemprego tem realmente merecido um tratamento especial que ainda não veio e que precisamos de encontrar esse tratamento e de colocarmos em prática o mais rapidamente possível. Aí sim nós vamos poder realmente identificar o que tem afastado as pessoas com deficiência do mercado de trabalho, que não são apenas nós.

Célia Leão: Leonardo, se você me permite um minuto, Paulo Markun, porque é importante pelo momento. Eu acho que esse tratamento, entre aspas, diferenciado, ele já veio sim, ele está chegando. Quando o Dudu fala das cotas, eu entendo o espírito do Dudu, está claríssima a questão de cotas, obrigar a contratar deficientes, mas hoje é absolutamente imprescindível ter cotas, porque se deixasse pelo bel-prazer da sociedade, pelos empresários, seja quem for, nunca, eu arrisco dizer nunca, teria porta aberta no mercado de trabalho para o deficiente. Por quê? O deficiente ele só assusta porque ele não é conhecido. Ele transmite um medo, não ele, a sociedade tem medo do deficiente porque não conhece. Quer dizer, o homem só chegou onde chegou pela capacidade da comunicação. Porque se não, o homem, ser humano não estaria hoje aqui nem no Roda Viva, nem no planeta hoje de super emancipação, com tecnologia, etc. O Ronaldo não fala com a boca, ele não anda com as pernas, mas é um homem que está absolutamente ativo, com competência, capacidade, conquistas, da forma que ele faz com o dedo dos pés. Quando a gente fala, por exemplo, pegando um gancho, que é fantástico, o trabalho que a Gol fez, eu acho que deixa a gente igual àquela propaganda da Caloi [marca de bicicleta], que a gente ficava pequenininho antigamente perto do Natal, a Gol deu um banho de cidadania para o Brasil todo. Mas uma coisa é verdade, Dudu, nós só temos hoje a possibilidade de empregar pessoas com deficiência, seja física, mental, auditiva ou visual, múltipla, severa ou simples, porque existe uma cota que obriga. A Gol ou qualquer outra dessas milhares do Brasil que estão empregando, não empregaram porque o deficiente tem pernas grossas ou lindos olhos, empregaram porque têm obrigação de empregar.

Marcos Frota: Cabe à sociedade cobrar isso. Ter uma firmeza para que as coisas aconteçam e os exemplos sejam divulgados. O que importa é a gente construir essa cidadania com veemência.

Dudu Braga: O que eu acho importante em relação às cotas, eu não sou contra as cotas, eu acho que as cotas fazem parte de um movimento nesse processo todo. Hoje elas são necessárias. No futuro, quando a inclusão estiver feita, ela não vai ser mais necessária. Porque o deficiente não vai ser colocado dentro de uma empresa porque ele é deficiente, mas simplesmente pelo mérito dele. Hoje eu sou a favor das cotas, eu acho que faz parte desse movimento, desse movimento que já vem há alguns anos de quebra desse preconceito realmente em relação ao deficiente. Mas como o Lars estava falando, inclusive em relação aos números que ele colocou para a gente, que hoje 34% dos deficientes têm acesso à educação, a gente realmente tem que melhorar esse número né, Célia?

Célia Leão: Claro.

Dudu Braga: Para que esses deficientes cheguem ao mercado de trabalho com qualificação e possam cumprir as suas tarefas, o seu trabalho com mérito, mas não só por eles serem deficientes. Agora, que as cotas hoje, no dia de hoje são necessárias, com certeza.

Célia Leão: Dudu, só um número. Nós temos um milhão e pouco mais de vagas no estado de São Paulo para pessoa com deficiência. Ou seja, o mercado que está fechado, entre aspas, está aberto, Clodoaldo. Porque precisamos conseguir pelas cotas e pela normatização e pela lei um milhão de vagas para pessoa com deficiência. Então, eu acho que o Dudu está falando e eu concordo, somos favoráveis, entre aspas, às cotas, porque ela abre o mercado de trabalho, coisa que antigamente não acontecia.

Leonardo Mattos: No entanto, essas vagas não são criadas por decreto, precisam ser criadas as vagas para que haja um aproveitamento.

Paulo Markun: Precisa ser cumprida a lei.

Leonardo Mattos: A vaga precisa ser criada. Como é que se criam um milhão de vagas da noite para o dia para se cumprir a lei? Esse é o grande problema, nós vamos demitir as pessoas não deficientes para incluir as pessoas com deficiência?

Dudu Braga: Isso é uma política de inclusão, né?

Leonardo Mattos: É, mas aí nós vamos viver uma situação de constrangimento, porque o cobertor é curto. Nós precisamos aumentar esse cobertor para garantirmos essa verdadeira inclusão. Mas um outro ponto que precisa ser tratado e é um ponto que permeia todas as políticas sociais, nós estamos tendo a porta de entrada delas, mas nós não estamos encontrando a porta de saída dessas políticas sociais. Nós sabemos que a cota é importante nesse momento, mas nós não sabemos como vamos deixar de fazer com que essas cotas sejam indispensáveis. Tanto isso para negro, índio, pardo, portador de deficiência e para uma série de outros segmentos, estamos procurando as pessoas com problemas renais gravíssimos, as pessoas com deficiência por conta da sua raça, como, por exemplo, a anemia falciforme que atinge de forma brutal a população de origem africana em nosso país e que ainda não recebeu um tratamento por parte tanto da ciência quanto da nossa própria sociedade.

Clodoaldo Silva: Eu acho que tem que haver esse incentivo e motivar essas pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Por que eu tiro pelo meu exemplo. Antes de Atenas, da Paraolimpíada, que lá eu consegui 6 medalhas de ouro, comecei a ser conhecido, as crianças corriam de medo. Viam uma pessoa com deficiência, então, corriam de medo. E hoje é o contrário. Pessoas com deficiência ou sem deficiência vêm até mim para pegar autógrafos, para, como eu falei anteriormente: “Poxa, quando eu crescer que quero ser igual a você”. Então realmente tem que haver esse incentivo e essa motivação para que, em anos futuros, possa estar consolidado e não possa mais haver esse incentivo e motivação, e possa ser uma coisa natural, para que possa acontecer.

Donaldo Jorge Filho: Se vocês me permitem, parece que a palavra aqui é competência, então o deficiente passa a ser eficiente na medida em que ele é mais ou menos competente. Então, vamos pensar em educação. Vamos ter que educar o deficiente, melhorar a competência dele para ele disputar uma vaga no mercado de trabalho. Isso passa muito facilmente pela flexibilização de currículos. Eu estava avaliando o que o Ronaldo colocou, as matérias que ele se interessou e as matérias em que ele se desenvolveu, ciências humanas basicamente. Então, não adianta pegar o Ronaldo e dizer: “Não, se você quiser fazer o colégio, você tem que fazer educação física”. Bom, e aí? Joga xadrez com o pé. Xadrez é esporte. Então, veja bem, flexibilização de currículo eu acho que é fundamental não para o deficiente, mas principalmente para o deficiente. Acho que deveria existir para todo mundo. Mas o deficiente eu acho que deveria ter a opção de escolher aquilo que melhor ele se adapta. E a partir daí sim.

Leonardo Mattos: Eu fui procurado na Conferência dos Deficientes desta semana passada, por um inclusive xará meu, Leonardo, dizendo que ele foi demitido da escola em que ele trabalhava, porque o Ministério Público exigiu que houvesse um concurso. E ele é um deficiente mental. Só que o concurso tinha nas provas de português, matemática, inglês, física, química, biologia e ele foi reprovado e, conseqüentemente, demitido. E a função dele era levar meninos deficientes até o banheiro, resolver esses problemas de asseamento desses meninos e fazia com perfeição, só que a prova não atingia essa função desse cidadão. E ele me reclamando qual é a atitude que ele vai tomar e qual a atitude que a sociedade brasileira vai tomar para resolver o problema.

Paulo Markun: Perfeito. Nós vamos fazer um intervalo. Eu queria antes ler aqui a mensagem do Ronaldo que diz: “A imagem que se tem do deficiente é limitada também”. E ele menciona o seguinte: “A imagem mais comum que a sociedade faz de um portador de deficiência física é a de um paraplégico sentado numa cadeira de rodas. Como a mente está no cérebro, mesmo alguns profissionais neurologistas, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e etc., acostumados a lidar com pessoas com deficiência, pensam que uma lesão cerebral implica necessariamente em retardo mental”. E ele relata, a experiência dele começou em 1998, de trabalho, como coordenador de uma organização não-governamental, a Associação do Jovem Aprendiz, que oferece cursos profissionalizantes gratuitos a pessoas com deficiências, sediada em Brasília, “leu o meu site, enviou uma mensagem dizendo que talvez pudesse me arranjar algum trabalho, respondi que isso era o que eu mais e ele me pediu para fazer uma proposta para fazer a página da associação. Esse foi o primeiro trabalho grande que fiz sem minha irmã. Desde então, tenho feito alguns sites, traduções para o inglês, trabalhos para estudantes universitários e outros bicos, entre aspas, de forma esporádica”. Ele diz que até 95 se sentia sem forças para tentar trabalhar. “O que só mudou com uma psicoterapia, que comecei, a contra-gosto, num momento difícil. Após diversas tentativas de obter um computador, uma congregação religiosa doou o dinheiro que me possibilitou atingir tal objetivo. A partir de então, iniciei trabalhando, fazendo cartões de visitas impressos e folhas de pagamento em sociedade com minha irmã e depois sozinho, web design e algumas traduções.” Nós vamos para mais um intervalo, e lembramos que você pode ter o programa de hoje gravado em DVD. Você também pode conseguir pelo site www.culturamarcas.com.br os três livros: O melhor do Roda Viva, que são 60 entrevistas, 20 por exemplar, 20 por livro, Cultura Internacional e Poder, que resumem um pouco do que foi discutido aqui nos 20 anos de programa. O Roda Viva faz 20 anos agora em outubro. Nós voltamos dentro de instantes com o programa que é acompanhado hoje na platéia por Joel Silva, assessor de imprensa; Joyce Campos, estudante de psicologia e Gisleine Bressing, empresária. A gente volta já, já.

[intervalo]

Continuação: veja a parte 2

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