
A temporada de Amores Surdos no TPE de 2020 foi, assim como os outros espetáculos do ano, adaptada para as mídias digitais. Todas as quartas-feiras, no mesmo horário em que o espetáculo seria apresentado, vídeo-performances e partes do espetáculo, que havia sido gravado no ano anterior, em sua apresentação na sala Alziro de Azevedo, eram postadas no Instagram do projeto TPE (@tpe.ufrgs). A montagem foi realizada no Departamento de Arte Dramática e explorava a relação das personagens com a cenografia e o aprofundamento de signos trazidos pela dramaturgia, como a ideia da falta de ar relacionada com a piscininha inflável de Pequeno, um dos personagens. Ainda na mesma ideia de experimentação com signos do texto de Grace Passô, as atrizes pesquisaram diferentes possibilidades com o audiovisual, usando bastante a ideia de colagem, que já era em certo ponto presente no palco.
As vídeo-performances, chamadas assim pelo grupo para nomear esse espaço de descoberta pelo qual o teatro vem passando nos últimos seis meses, trouxeram ao público um algo além da gravação tradicional de um palco italiano, nos aproximando da temática e criando um imaginário mais expandido de quem seriam essas personagens. A junção de alguns vídeos curtos com imagens que, a princípio pareciam aleatórias, mas depois revelaram-se parte importante da peça, é um ambiente quase familiar para aqueles de nós que usam a internet como forma de entretenimento rápido e por isso nos prende e gera expectativa por um desfecho.

Essa é a nossa casa. É o que diz a voz no vídeo, que mostra imagens de casas grandes, pequenas, inteiras, pela metade, de brinquedo, reais ao som de uma miscelânea de músicas. Pode ser qualquer casa, qualquer música, a gente sabe quem mora lá, pode ser a gente. A vizinha, femme fatale fumando um cigarro ao som de uma música francesa ou algo do gênero, escreve uma carta: “nós gritamos pra demonstrar nosso amor.”. São passionais, gritam, brigam, cantam, dizem as coisas que querem dizer porque as sentem. Somos então apresentados aos personagens: a Mãe, o Pai, Joaquim, Samuel, Júnior, Grazielle e Pequeno. É uma família disfuncional, como tantas outras, como os vizinhos dos quais tanto reclamam, como as nossas famílias.
A Mãe está em todos os lugares, cuidando dos filhos, mantendo as coisas em ordem, essa história não é nova pra nenhum de nós, eles mesmos sabem disso. Joaquim, sonâmbulo, nos diz que essa é a história normal de uma família normal, que o telefone em algum momento vai tocar e vai ser a polícia dizendo que Júnior se matou. Samuel tem medo, medo de sair, medo de ser independente, não à toa nasceu de dez meses com a ajuda de fórceps. Grazielle está sempre sonhando acordada, seja com o entregador de pizza com quem vai casar, como nos conta, ou com universos possíveis através da música que nunca para de escutar, mas ela ouve tudo e repete tudo o que a mãe diz. Eles se repetem. Porque não se ouvem, porque se amam mas não conseguem ouvir a si mesmos. Não conseguem ouvir Pequeno tentando dizer que há um animal gigante entre eles.

E há, de fato, um animal gigante, não apenas o hipopótamo que vive no quarto de Júnior (o filho que saiu de casa), mas sim esse animal que os prende com suas garras gigantes e os impede de ver qualquer coisa além do próprio caos. O pai, presente fisicamente mas nunca emocionalmente, foi engolido por William, apelido carinhoso que Pequeno deu ao hipopótamo. Os filhos o chamam, Joaquim grita por ajuda, mas nunca há uma resposta, ele não está lá mas… E os vizinhos? Você ouviu que o síndico liberou cachorros no prédio? Eles não vão parar de gritar? Usam palavras chiques e se acham melhores do que nós, mas estão se matando! De repente os personagens se esquecem de que são iguais aos vizinhos que gritam e esquecem também da própria lama. Lama? Pequeno, você está sujo! E então falta ar. Pequeno se afoga na própria lama toda vez que chegam perto de descobrir William, não há natação que o ajude a respirar embaixo da água, embaixo da culpa que sente por ter trazido o hipopótamo pra dentro de suas vidas. Mas eles sabem, sempre souberam, nunca foi de pequeno a responsabilidade pela lama e sim dos laços apertados dos quais nenhum deles consegue se soltar.

São muitos, os laços, esticam, puxam, amarram-se, mudam de lugar. Tudo está preso pelos elásticos que consomem cada canto do palco e todos estão presos uns aos outros, inclusive Júnior, principalmente Júnior. O filho que foge é o orgulho: pra ele vai ser diferente, ele conseguiu ser livre; não vai. Mesmo longe, ele continua preso no fio de telefone que o separa da lama, é seu habitat natural, assim como é para o hipopótamo. A lama seca mas vira pó, e ele se gruda nas frestas do chão, nas paredes, na gente. Tem coisas que nascem pra se viver com elas.
Mas a gente pode aprender a não deixar elas nos engolirem.
A gente pode aprender a não se afogar.
FICHA TÉCNICA:
Performances:
Grupo A Pira Contamina
Atuação: Ângela Steiner, Gilvana Santos, Maria Eduarda Barbosa, Maya Marqz e Rita Spier.
Concepção e gravação das performances: o grupo
Espetáculo:
Iluminação: Phillipe Coutinho
Operação de som: Eslly Ramão
Material de divulgação: Alexandre Alves e Gabriela João
Figurino e cenário: O grupo
Qorpo Qrítico – Vol. 02, n. 04, junho a setembro de 2020. ISSN 2675-4207.
