*(arriar significa descer, baixar. Para os gaúchos “arriada” é uma situação engraçada, uma pessoa debochada)
Esta escrita é embriagada de 2020, o ano mais estranho que a geração Y e a sua subsequente já viveu. Sim, alguns de nós esperaram e temeram o bug do milênio nos anos 2000, quando as redes sociais ainda nem estavam na nossa vida para fazer buzz dos nossos medos ganhar lente de ampliação e, não esqueçamos, distorção. A verdade porém é que apesar de toda a ficção científica e toda a genialidade de escritores e roteiristas que vieram antes de nós 2020 ainda é um caso… estranho.

As estranhezas são democráticas, estão aí para quem quiser ver e, que ironia, para quem também não queria ver, então convido a pensarmos em outras questões, fugir por uns minutos e pensar naquelas outras questões que ficavam sempre para um longo e velho e branco e cis e hétero e magro e capacitista…“depois” que nunca chegava. Acho que agora nós, trabalhadoras e espectadoras de teatro, estamos com tempo. E concluímos desde já que tempo não é dinheiro (O quê? o capitalismo mentiu para nós esse tempo todo?). Tempo é arte, tempo é possibilidade, tempo é espelho, tempo é descanso, tempo é desespero mas não é dinheiro. Sim, é um tempo que pode muitas vezes ser desolador quando pensamos em qual futuro o futuro nos reserva, mas tão importante quanto pensar sobre o que está reservado pergunto o que será feito, como será e com quem será feito no futuro. “Quens” você espera ver nos palcos do futuro?
Vou fazer uma ressalva aqui: quando falo de futuro, não estou falando das roupas prateadas, até porque elas já estão entre nós.
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o teatro escolhendo seus preferidos… pq vc sabe que o teatro escolhe quem fica e quem sai né?
No início do isolamento uma amiga compartilhou uma postagem de uma página do instagram que me arrancou um sorriso breve, breve mas gostoso o suficiente para me fazer clicar na imagem e ir até o perfil e foi indo até lá que resolvi permanecer e clicar naquele poderoso botão chamado seguir e foi seguindo que entendi que aquele espaço era mais que um causador de breves sorrisos, ele também me traria gargalhadas, mas uma gargalhada daquelas que eventualmente desafrouxa as pregas anais. As vezes é bom perder o controle, eu imagino… Afinal só perde o controle quem já o teve e aqui não estou mais falando especificamente das pregas anais, mas do controle, do grande controle, o controle do in/out in/out quem entra e quem sai e claro, quem permanece e como permanece.
Receio que vou ter que me desculpar e ir direto ao assunto. Eu estou falando do trabalho desenvolvido pela atriz Letícia Rodrigues, no @fracassadatriz que segundo ela mesma “sou a @famosatriz crio legendas pra imagens que já existem sobre os fracassos/desabafos de quem pensou ter uma vida luxuosa como atriz”.

A apresentação por si já é carregada do sarcasmo que Letícia promove com suas releituras. Mas é famosa ou fracassada? Yin ou Yang? Tragédia ou comédia? Whisky ou água de côco? Tanto faz…
Não raras vezes a situação narrada é sobre os conflitos que nós, todos nós, que estamos neste pequeno barco lotado chamado “(a)diversidade nas artes” já enfrentamos e nem sempre soubemos como ou pudemos falar. A necessidade de sobrevivência é um ótimo silenciador. Nesse mundo tem que se medir as palavras e para quem as diz… Ô saco!
A Fraca, como é conhecida pelos amigos* (e é assim que ela trata os seguidores), fala de nossas feridas abertas, fala de como é desigual e tantas vezes injusto tentar ser/estar artista em condições de dignidade neste país quando você não é a imagem e semelhança do padrão e olha que nem isso é uma garantia completa, mas evita alguns estresses. Num mesmo aforismo A Fracassada consegue nos levar aos céus num velocino de ouro e em poucos instantes nos devolver como um Arlechino ao inferno que é a realidade, cheia de sonhos e portas na cara.
No entanto, como tudo que é digno de nota, apesar das dificuldades que nós enfrentamos para “só” poder exercer nossa profissão (repito: com alguma dignidade), apesar de todo o deboche com a nossa própria cara que a página promove, é possível se encantar com as possibilidades de se pensar sobre mercado de trabalho, artes cênicas na internet – nem que sejam as cínicas e humor, humor e meme.

Espero que quando as cortinas tornarem a subir a gente veja uma melhor distribuição das oportunidades, uma valorização um pouco mais requintada aos artistas da realidade e não só os de reality. A gente vai sempre encontrar pessoas geniais, como a Letícia, que nos farão rir de nossas desgraças mas será que não são horas de nós avançarmos um pouco para podermos rir de tretas novas?
Por que choras óh tu que dizias que agora não se pode rir de mais nada, que tudo era mimimi?
Encerro com uma legenda associada a uma postagem que não vem ao caso, pois não é sobre o rapaz citado na imagem é sobre isso:
“Eu tento não problematizar, mas não consigo. Atuar é sobre operar um milagre em cena. Eve Du Bruce, do Theatre Du Soleil, diz que “quando estamos apresentando uma peça de teatro, uma pessoa está indo pela primeira vez ao teatro e uma outra pessoa está indo pela última vez ao teatro.” É desse tamanho a responsabilidade do trabalho de uma atriz, de um ator. A gente precisa se lembrar sempre que a gente tiver que defender a nossa categoria. Já vi atores geniais vendendo bala em trem pra poder cursar teatro. Já vi atrizes geniais que hoje são bancárias, tiveram que largar a profissão pela falta de oportunidade. A cada vez que rebaixam nosso ofício a hitar na internet, uma atriz tem seus sonhos despedaçados e não volta pra área. E, no entanto, o teatro é um dos espaços mais democráticos da sociedade. Cultura é, antes de tudo, um dever civil, um exercício de cidadania. Não estou aqui para tacar pedras no menino, que ele aproveite o que 90% dos artistas desse país jamais terão, estou aqui pra gente olhar e começar a ir atrás de união de classe, alternativas que fomentem nosso ofício de maneira mais democrática. Que as oportunidades não sigam existindo apenas pra uma parcela extremamente privilegiada de brasileiros. Não confundir a oferta do capital com expressão artística. O que não significa que estes não se misturem. Estou cansada demais desse país. Vai vir gente me xingar, dizer que to dando palco e que me promovo em cima de figuras como essas. Em tempo: recebi apenas 1 parcela de auxílio emergencial, perdi TODOS os meus trabalhos e não recuperei nenhum, larguei casa porque não conseguiria mais arcar com aluguel. Então, não, eu não me promovo e não ganho 1 centavo fazendo isso daqui. Faço pra mostrar que estou com milhares de artistas que nadam, nadam e nadam e a areia não chega. Faço isso pra que a gente ria, um pouquinho, das nossas condições e que possamos, ainda que aos poucos, criar uma rede de apoio. Uma rede de riso. Já diria Ésio Magalhães: o riso é revolucionário. (Se escrevi coisa errada, me perdoem, estou furiosa, a ponto de largar isso tudo devido à falta de esperança nesse país)”.
Letícia Rodrigues é atriz, pagodeira, arte-educadora, escritora, bailarina, criadora de @fracassadatriz e podcaster no @vemserfelizaquifora
Qorpo Qrítico – Vol. 02, n. 05, outubro de 2020 a janeiro de 2021. ISSN 2675-4207.
