“Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora o que faço?” Os Sobreviventes, Caio Fernando Abreu.

Peço licença para começar o texto com o trecho acima, saído de um conto do escritor Caio Fernando Abreu, cujas palavras poderiam facilmente ser transpostas para a boca de Luna. O nó no peito, ao qual o autor se refere – depois de (parecer) ter tentado de tudo um pouco –, é a característica mais visível da personagem.
Luna, a peça, inicia apresentando uma protagonista perdida, que fala consigo mesma e pinta formas e figuras nas paredes de sua casa. Tudo é feito através de um jogo de closes e, logo, entendemos que Luna, a personagem, é pintora, visto o número de pinturas expostas pelo espaço. Apesar dos traços fortes em vermelho sangue, Luna rebaixa o que sente (“esse nó”) e o que faz (o ato de pintar), pois joga uma xícara de café sobre tudo.
Bom, mas “peça” e “closes” juntos, em um mesmo parágrafo, por quê? Como? Definitivamente, a experiência do espectador é de cinema, não de teatro. Devido à pandemia de covid-19, o trabalho foi concebido, desde o seu início, no espaço de um apartamento, para uma tela. Desse modo, Luna foi gravada na forma de curta-metragem – sua duração é em torno de 25 minutos.
O texto enigmático gira em torno de dúvidas existenciais. Após um monólogo de Luna, ela avista uma menina e observa a sua dança, enquadrada em closes. Nesse momento, que dura um certo tempo, Luna pouco aparece – o seu olhar é o nosso, o “de fora”, digamos. Afinal, a menina parece ser, para o espectador, irreal: as duas invadem uma à outra e sentem um medo mútuo. Luna se questiona, mas busca a menina – sim, a menina é a própria Luna, a sua parte perdida.
Quanto a elementos estéticos destacáveis, podemos mencionar o som: durante o curta, há uma música instrumental (que ora aumenta, em tensão, ora apenas é o pano de fundo para danças e movimentações), além do barulho natural da locação, captado pela câmera. Outro item que chama a atenção é a quantidade de origamis em forma de pássaros pendurados pelo espaço, mas que, também, aparecem por vezes nas mãos da personagem – ela não sabe mais “voar”? Aliás, por falar em vôo, o tempo todo há movimento em Luna, seja da câmera, seja dos pássaros de origami ou da menina – ao contrário dela, Luna permanece mais tempo parada. A falta de movimentação da personagem leva-nos a compreender que ela está sem dormir, sem pintar, sem viver plenamente, portanto, perdida.
No apartamento, a menina olha os quadros de Luna e elas espelham-se com um pássaro. Nessa bela cena, há reconhecimento genuíno: como em um balé quase poético, a menina brinca com os pássaros e os quadros; ambas sorriem, entre toques de mãos (uma espécie de dança); Luna sente vontade de falar da infância e do tempo, pois parece perceber que a menina é ela antes. Com a quebra da cena, sublinhada pelo som, que silencia, há a mistura de sentimentos: o silêncio é paz e tormenta para Luna. Ela guarda um segredo, por isso, pode ser considerada desajuizada pelos olhares alheios, mas não por si mesma.
Nesse instante de loucura (?), a tensão da cena é novamente reforçada pela música, que exagera no piano e nos violinos até o ápice, momento em que acontece novo baque. É quando vemos a menina arrancando desenhos da parede de Luna, os quais continuam lá, visto que ela não é real.

Ainda, há um “take” externo de extrema beleza que merece atenção: em meio a um espírito de festa bucólica com as árvores e, novamente, em enquadramento de close, vemos uma Luna perdida, em busca de alguma coisa. Finalmente, ela abraça a menina, que se despede. Luna estaria feliz ou está apenas em devaneio? De volta ao seu espaço, tomada por sentimentos de segurança e decisão, uma vez que teria reencontrado a si mesma, ela mancha a parede (antes pintada com vermelho) de azul, com as mãos, afinal, “é uma dádiva não compreender tudo”, conforme diz. No fim, ela olha a parede manchada e sorri, de bem com suas dúvidas.
Para finalizar, ressaltemos, mais uma vez, o fato de o processo ter sido pandêmico: fica claro, ao espctador, que o trabalho não aconteceria exatamente do mesmo modo em um palco de teatro; porém, no lugar de uma simples frustração de artista, encontramos um discurso outro, coeso, com uma câmera que conduz o nosso olhar. Apesar de, por vezes, haver um certo exagero de closes de câmera, é compreensível que a direção quis ousar – em meio a suas próprias descobertas com a linguagem cinematográfica – na descoberta de Luna: nisso, há um descobrir, uma ingenuidade corajosa de infância. Assim, Luna, a peça, não se contenta em ser teatro filmado, e, muito pelo contrário, é uma obra audiovisual, em sua forma, com um raciocínio e um corpo de teatro. Ao mesmo tempo, não se pode dizer que seja teatro, mas a forma não adveio de uma livre escolha.
Seja como for, as atuações limpas, a sensibilidade do tema e a franqueza do grupo, em Luna, transformam esta peça-filme num objeto visual forte, concebido a muitas mãos e a favor do desejo (de descoberta, de pôr a obra em prática, de se expor, entre outros).
Um adendo: nos créditos, no canto da tela, mostra-se o espaço do apartamento com os origamis de pássaros, algo muito bonito esteticamente para fazer o fechamento de uma obra sensível.

Ficha Técnica do Espetáculo:
Elenco: Bibiana Jung e Mariana Fernandes
Direção: Renata Lorenzi
Dramaturgia: Nairim Tomazini
Operação de câmera e edição: Gabriel Viero e Renata Lorenzi
Som: Arthur Cepik e Henrique Pellin
Trilha sonora original: Alexia Engel, Ana Ferreira e Willian Gauze
Arte de divulgação: Khale Landvoigt
Colaboração artística: Franciéli de Quadros , Leleo Alves e Melissa Lima
Orientação: Luciana Éboli
Apoio: Nós em Arte
Duração: 25 minutos
Classificação indicativa: Livre
Qorpo Qrítico – Vol. 04, n. 10, julho a outubro de 2022. ISSN 2675-4207.
