
Essa crítica vem de um lugar que há muito tempo não vê, cheira, toca e/ou come teatro. Vem de um lugar distante e de coração receoso ao chegar no corredor da sala de ensaio – outrora ocupada no cotidiano. É também um desafio, porque não falo aqui de um teatro tradicional e sim de uma experiência inovadora e completamente diferente. É impossível falar sobre as coisas que não vi aqui, pois de fato não vi, então falo do que senti.
Éramos eu e o rapaz loiro e alto, saído sabe-se lá de onde e também com um tom de confusão e interesse no canto dos olhos:
— Alguém te disse alguma coisa?
— Não. Tu sabe de algo?
— Também não…
Sabíamos do título do experimento: “O que se vê ao fechar os olhos”, sabíamos que era um experimento sensorial, embora não conseguíssemos imaginar exatamente o que aquilo queria dizer. Pensei nas aulas que tive com a professora Gisela durante o primeiro semestre de faculdade, no incentivo para que ouvíssemos nossas vozes, sentíssemos os cheiros e estivéssemos presentes. Imaginei um círculo de pessoas com atores performando ao redor, músicas instrumentais, o estereótipo que quem está no meio do teatro conhece e certamente já presenciou. Eu estava errada.
Somos recebidos com a empolgação de Vanessa, cujo nome eu aprendi só depois, mas que mantinha a animação e o mistério daquilo que estávamos prestes a ver vivenciar. Somos instruídos a colocar as capas de chuva e os fones de ouvido, que seriam nossos guias através do experimento. Para quem sempre teve uma ligação especial com a música, com a ficção e com o mistério, parecia a proposta perfeita. O alerta dado durante a recepção ressoou por poucos segundos, mas logo foi esquecido: isso é um teste. Também fomos alertados de que seríamos acompanhados durante todo o processo e, em caso de qualquer desconforto, poderíamos parar. Isso, segundo os atores (com muita ênfase na raiz ação da palavra), era uma grande preocupação. Como deixar o público confortável o desconforto de uma experiência completamente nova e desafiadora? O conforto no desconforto.

Entramos em um universo ficcional, com outras vozes, outras histórias, outras perguntas, mas sem o conforto do sofá de casa, que é um lembrete constante da realidade e nos afasta de ir a fundo em qualquer narrativa. É nesse ponto em que, depois de anos de uma pandemia que me transformou em mera observadora do mundo através de uma janela virtual, fui tomada por todas as sensações que transpassavam o espetáculo experimento, entre elas, o medo. Não o medo como proposta do jogo, eu me sentia segura enquanto explorava os espaços, mas o medo do novo, da exposição, do erro. Dizem que o medo é nosso sentimento mais instintivo; aqui ele foi substituído pelo afeto, que era tão grande e tão sensível que me fez esquecer de que havia alguém ali além de mim. Gosto de brincar que o experimento nunca aconteceu: eu estava dentro da minha própria cabeça, passeando pelo meu inconsciente.
“Carrego comigo uma dor que tem um nome. Mariana, Marina… Nina.”
As vozes que ouvimos ao fechar os olhos nos contam sobre as dores que carregam, sobre cavalos mergulhadores, sobre a água que inunda nossos olhos e rouba nossos espaços. Dizem que os cavalos precisam olhar para cima, pra que a imensidão do que vêem seja mais assustadora do que o salto. Os atores, cada um com seu respectivo convidado — porque aqui somos convidados, cada um com sua experiência individual, que se cruza durante momentos, mas segue seu caminho solitário — nos guiam pelo espaço, de olhos fechados ou vendados, ouvindo os pedaços de memórias e explorando aquilo que podemos alcançar. Agora também carrego comigo uma dor que tem um nome, também sou um cavalo mergulhador. “Agora eu sou seu duplo, e você é o meu.”.

No escuro, seguimos uma luz que flutua e nos convida a passar por aquilo que escolhi chamar de memórias: a do toque dos pés em folhas secas, do cheiro de chuva forte com arruda que a casa da minha mãe também tinha, das primeiras vezes que perdi um cachorrinho, um amor e a mim mesma. Em algum momento já não sei se essas memórias eram minhas, de Nina ou de meu duplo. Nina? Quem é Nina? Eu sou nina? A dor que carrega um nome, carrega também o meu. As vozes dos duplos sussurradas nos fones de ouvido me perguntam quem sou eu: Nairim, 23 anos, qualquer adjetivo que não lembro de ter dito; muito prazer. Gabriel, não tenho certeza de quantos anos, adjetivo que não pude ouvir por uma pequena falha na conexão dos fones, mas que não me ocorreu até que me contaram que deveria ter ouvido. Vocês viram a Nina?

O experimento é uma busca por si mesmo e, de uma forma poética e delicada, uma busca pela dor que carregamos desde que ganhamos um nome. Passei duas vezes por essa busca — são dois experimentos diferentes, cada um com seu guia — ambas com a delicadeza que só um trabalho cuidadoso e bem pesquisado pode proporcionar. Caminhamos por longas histórias, cruzamos fronteiras, fugimos do vento e, ainda assim, estávamos dentro do mesmo teatro no qual entramos quando tínhamos olhos abertos. A música, os sons, os jogos que se tornam muito pessoais, só acontecem na nossa cabeça, só eu sei o que o experimento é pra mim, só eu ouço as vozes e ao que elas se ligam quando são ouvidas. Abandonamos nossos olhos em troca de um mundo fantástico e por vezes confuso e, ao fim de 30 minutos, os pegamos de volta para observar a beleza, não só do cenário, mas de nossos rostos no espelho marcados pelo que vivemos, dos olhos uns dos outros, dos abraços de agradecimento e da leveza que sentimos.
Naquela sala, deixamos Nina, agora com novos nomes e novas histórias. Ainda carrego comigo uma dor, mas agora quem a nomeia sou eu.
FICHA TÉCNICA
Criação: Íris Coletivo Artístico
Performers: Damiel Brocker, Pâmela Walter, Vanessa Corso
Músico: Alércio Pereira Júnior
Artista Visual: Ana Júlia Saquetti
Iluminação: Bathista Freire
Operação de luz: Adami
Orientação: Marta Isaacsson
Fotografia: Gabriel Zarth
Divulgação: Eduardo Felini
Contrarregragem: Ana Júlia Nunes e Ana Júlia Saquetti
Esta qrítica foi escrita pela Nairim Tomazoni

Qorpo Qrítico – Vol. 05, n. 12, março a julho de 2023. ISSN 2675-4207.
