Beije seu preto em praça pública

Escrito em formato de cartas à artista transformista Madame Satã, o espetáculo Beije seu preto em praça pública estreou dia 31 de março na La Photo Galeria. Em um simpático pátio, já em fila para entrar no espaço destinado à plateia, a emoção é garantida e anunciada logo no início com a aparição do ator Rafael Domingues como uma Julieta em sua sacada que anseia e declara seu amor, mas num estado melancólico de espera e procura pelo afeto. Não há romance. Na verdade, é possível sentir um fragmento de dor como quem recebe um beliscão no coração, como quem foi negado o direito de amar espontaneamente. E o voo em que me encontrei com essa narrativa foi aterrissado algumas vezes pelo uso do pronome “você” que me soou estranho ao ouvido.

Entramos no espaço à convite da linguagem corporal do ator. Um espaço amplo, paredes brancas, pé direito alto. Um espaço que reivindica espaço. Que me pega a entender que não está aqui para se esconder. E se não está para esconder, então que haja destape, o abandono da expectativa de comportamento do gênero, da negritude, da masculinidade cisgênera, da homossexualidade aceitável. Assim, se inicia no centro do espaço cênico, em uma cadeira iluminada por um único lustre, o striptease de um traje social completo que revela por baixo o hipnotizante figurino construído por Iago Jara. E eu, como praticante de pole dance, devo dizer que é um figurino encantador e funcional, oferecendo aberturas nos lugares certos para os grips e holds.

Alguns pesquisadores, incluindo essa que vos escreve, têm reunido esforços para aproximar a pole dance da pesquisa em artes cênicas. Brito (2018), por exemplo, escreve sobre as aproximações entre o Pole e alguns fatores do estudo de Laban, Brochier (2013) investiga as representações sociais que giram em torno da atividade enquanto técnica corporal, abarcando questões de gênero e estigma, além disso, a autora pesquisa sobre o uso da sensualidade como método de criação, e Oliveira (2016) que realiza aproximações entre o pole dance e os estudos de Laban dentro da coreologia. Nessa perspectiva, Rafael insere a pole dance na cena com sutileza. A barra reluzente surge sem alarde, despertando sutilmente a curiosidade do olhar. Como uma criatura mágica, ela aguarda pacientemente pelo momento de ser tocada pelo ator, transportando-o para um universo novo. Essa ideia é fixada com a troca de luz na cena. Os leds passam suavemente de uma cor para outra sem parar. O que me inquieta. Pergunto: Será que uma combinação das cores ou um mergulho profundo em uma única tonalidade faria mais sentido? Rafael se aproxima do pole e inicia uma coreografia guiada pela cadência da sua fala. Em seguida, a luz se encerra e outra luz de frente se acende revelando uma silhueta curiosa na parede branca da galeria. Dessa vez, o que nos transporta para outra atmosfera é a trilha sonora. Um novo elemento surge no palco. É então que se revelam acessórios para compor o figurino azul de pole dance e, para completar, surgem botas de vinil, que brilham intensamente sob a luz dos refletores. Mais um elemento coreográfico se apresenta. Como se fosse um complemento perfeito para a coreografia do pole dance, o ator inicia uma coreografia em chair dance. A música segue seu ritmo envolvente, e a voz do ator começa a declamar um texto apaixonado e desejante. Um corte brusco interrompe a cena e as luzes se acendem, trazendo de volta à realidade. Um áudio é reproduzido. Rafael passa a recolher as roupas que outrora havia tirado. Somos arrancados da cena anterior sem que possamos processar a experiência que acabamos de viver. A imersão na cena havia sido tão intensa que nem percebemos o momento em que a realidade nos alcançou novamente. É como se fôssemos despertados de um sonho bom pelo grito do despertador, e agora precisamos nos ajustar à realidade. Somos colocados em estado de atenção porque a realidade é árida de afeto. É na realidade que habita a negligência, acusação, segregação, ódio, desconfiança e opressão. E a realidade é projetada em grandes proporções em nossa frente enquanto assistimos Rafael na projeção reagindo ao relatório feito por um delegado que descreve Madame Satã. Somos puxados de volta para outra dimensão.

Com uma cesta na cabeça e um vestido de paetê, Rafael volta à cena e com ele voltam as luzes inquietantes mudando de cor. Talvez dessa vez as luzes até fazem sentido, pois agora a trilha sonora é “It ‘s raining men” das Weather Girls. O ator apresenta uma coreografia potente e logo em seguida revela as muitas camisetas de time de futebol que estavam dentro da cesta. E revela o segredo: uma história de amar. Mas um amar que ama a projeção, que não nos reconhece como somos, nos pede para ser outra pessoa, que ama uma ideia, uma expectativa. Quem ama o corpo negro? Quem ama o homem negro? Esse homem que de maneira racista é visto como um animal. E sobre isso, o ator faz uma ótima costura entre esse ideal racista do homem negro e a vivência de Madame Satã com a capoeira e reivindica o afeto para o homem negro gay.

A próxima cena nos transporta para outro lugar. Uma mulher entra e oferece quitutes ao público. Rafael entra em cena vestindo um boá amarelo, um leque e sapatos scarpin. O que começa com uma cena leve e engraçada, vai se tornando algo bem conhecido por nós. É o causewashing, a objetificação, erotização e desumanização do corpo negro. Embora tenha sido impactante, a transição para a cena seguinte deixou a desejar em termos de continuidade e coerência. Fiquei com a impressão de que houve uma falha na costura entre as cenas, deixando o público sem saber exatamente o que esperar. Na sequência, o ator aparece trocando de roupa e utilizando o pole para recitar a mesma fala do início do espetáculo, acompanhado por uma bateria de samba. Embora tenha sido uma cena vibrante e cheia de energia, fiquei com a sensação de que faltou uma conexão mais clara com a cena anterior. Seguindo o entusiasmo, agora estamos em qualquer programa de namoro dos anos 2000. Rafael dessa vez interpreta o host. A cena é leve, engraçada e consolida a atuação versátil, orgânica e cômica do ator. Pede para que todas as pessoas negras da plateia se levantem. Seleciona duas pessoas. Será que irão se beijar? Alguns se beijam, outros ficam com vergonha. Quando o beijo chega, o público delira. Gritos e palmas. A celebração do afeto. Celebração do beijo. Celebre seu preto. Beije seu preto em praça pública.

Beije seu preto em praça pública é um espetáculo resultado do estágio de atuação do graduando em teatro Rafael Domingues e estará na Mostra Dad.

Sinopse:

O texto encenado é estruturado em cartas destinadas à Madame Satã, figura marginal carioca que personifica a potência do sujeito preto, e gay, em suas diversas narrativas. A impossibilidade dos afetos é tema não apenas da correspondência entre o protagonista anônimo que figura no palco e seu interlocutor mítico – que figura no imaginário cultural brasileiro -, mas tambem do próprio espetáculo, cuja beleza reside na fusão das frustrações do amor com a coragem de ser bicha, e preta, numa sociedade em que tais marcas são violentadas a cada instante.

Em cartaz: 31/03, 01/04, 02/04.

Onde: Galeria La Photo

Endereço: Travessa da Paz, 44 – POA

Horário: 20hrs ( a partir das 19hrs distribuição de senhas)

ENTRADA GRATUITA

Duração: 50 min

Ficha técnica:

Elenco: Rafael Domingues

Direção: Bruno Fernandes e Fernanda Fiuza

Fotografia: Renê de Palma

Iluminação: Patrícia de la Rocha

Trilha sonora: Anderson Vasconcelos

Figurino: Iago Jara

Orientação: Thiago Pirajira

Agradecimento especial: Regina Peduzzi Protskof, Vanessa Fiuza, Diogo Silveira, Batista Freire.

Referências

BRITO, Italo da Silva. POLE DANCE: estudo de Laban aplicados à verticalidade do pole. Orientador: Raíssa Caroline Brito Costa. 2018. 41 f. TCC (Graduação) – Curso de Bacharelado em Dança, Universidade do Estado do Amazonas, Manaus, 2018. ]

BROCHIER, Bianca. POLE DANCE: um estudo antropológico sobre performance e representações sociais. 2013. 58 f. TCC (Graduação) – Curso de Bacharel em Ciências Sociais, Departamento de Antropologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013

OLIVEIRA, Andressa Karla da Silva. Pole Dance: Contextos e aproximações com os estudos de Rudolf Laban. Orientador: Karerine de Oliveira Porpino. 2016. TCC (Graduação) – Curso de Licenciatura em Dança, Departamento de Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2016

SILVA, Geisa Rodrigues Leite da; Kiffer, Ana Paula Veiga. As múltiplas faces de Madame Satã : estéticas e políticas do corpo. Rio de Janeiro, 2011. 231p. Tese de Doutorado – Departamento de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

 

 

Qorpo Qrítico – Vol. 05, n. 12, março a julho de 2023. ISSN 2675-4207.