Qritica do espetáculo Gordança

O que pode o corpo gordo na dança? É a partir desse questionamento que surge o espetáculo
Gordança: uma palestra dançante, parte da pesquisa de doutorado da atriz, professora e bailarina
Renata Teixeira.
A dramaturgia, assinada por Renata Teixeira e Patricia Fagundes (sua orientadora no doutorado), é
composta de memórias e reflexões sobre a experiência de existir como uma pessoa gorda em um
mundo que, muitas vezes, não está preparado para acolher essa diversidade. Desde uma catraca de
ônibus que não comporta corpos maiores até a negligência médica, seja pela falta de equipamentos
apropriados ou pelo despreparo dos profissionais, o espetáculo explora esses temas com humor e
sensibilidade, utilizando-se do formato de “palestra dançante” (como indicado no próprio título da
obra). O resultado é uma peça que consegue ser, ao mesmo tempo, educativa, reflexiva, poética e
divertida.
Ao abordar temas como a gordofobia e sua normalização, a pressão estética e os padrões corporais,
a peça apresenta, por meio de um discurso em primeira pessoa, um ponto de vista frequentemente
invisibilizado: o das pessoas gordas — especialmente o de uma mulher gorda e bailarina. Esses
temas, direta ou indiretamente, impactam a todos, mesmo que de forma inconsciente. Durante o
espetáculo, fui levada a refletir sobre situações em minha vida em que a gordofobia esteve presente,
ora como algo que eu e as pessoas ao meu redor perpetuávamos, ora como algo que nos causava
dor.
A peça também destaca a pressão estética constante e a completa aversão à possibilidade de ser
considerada gorda que permeiam a vida das mulheres, perpetuadas de geração em geração. Essa
pressão, por vezes, é oriunda de um local de carinho e proteção, para que não soframos no futuro,
mas continua a ser dolorosa, nociva e severa. Mesmo ciente do impacto destrutivo da gordofobia e
de suas consequências, e mesmo não concordando com esses padrões, percebi-me, ao longo do
espetáculo, encolhendo a barriga, ficando nas pontas dos pés para evitar que minhas coxas se
espalhassem pela cadeira. Ao retornar para casa, não me permiti fazer uma refeição completa e
saudável. Por que continuamos a perpetuar esses comportamentos e falas?
Em um determinado momento, Renata Teixeira afirma: “Quando eu era criança, quando meu corpo
costumava ser meu.” Essa frase trouxe questionamentos profundos: será que algum dia meu corpo
voltará a ser meu? Será que um dia conseguirei alinhar o que falo aos outros com a forma como
trato a mim mesma?
Acima de tudo, a peça me despertou raiva. Raiva pela existência da gordofobia, pela imposição de
padrões estéticos. Raiva de quem já feriu Renata Teixeira e de adultos que foram capazes de olhar
para uma criança e fazer com que ela se sentisse inadequada em seu próprio corpo. Mas,
sobretudo, uma raiva de mim mesma por ainda não conseguir escapar dessas imposições.
Não sei se consegui expressar minhas opiniões com o distanciamento e a neutralidade normalmente
exigidos para uma crítica. Como, porém, ser objetiva sobre algo que toca tão profundamente o cerne
de minha existência?
O espetáculo aborda questões extremamente relevantes, especialmente em uma realidade onde,
cada vez mais cedo, jovens são expostos a ideais inatingíveis de beleza — como se vê, por
exemplo, nas “Sephora Kids” do tiktok. O desejo que me fica é o de pegar as pessoas pelas mãos e
conduzi-las a assistir a esse espetáculo.
FICHA TÉCNICA:
Direção: Guadalupe Casal
Elenco: Renata Teixeira
Dramaturgia: Renata Teixeira e Patricia Fagundes, costurando textos de diversas fontes e autoras
Criação de luz: Vigo Cigolini
Operação de luz: Vigo Cigolini e Anne Plein
Operação de vídeos: Ursula Collischonn
Desenho e operação de som: Casemiro Azevedo
Criação e edição de vídeos: Duda Rhoden
Cenografia: criação coletiva
Concepção de figurino: Renata Teixeira
Produção: Renata Teixeira e Ursula Collischonn
Mídias e produção de conteúdo: Renata Stein
Arte gráfica: Luiz Argimon e Renata Stein
Fotos de divulgação: Débora Koller
Assessoria de imprensa: Renata Stein
Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 17 – dezembro de 2024 a março de 2025. ISSN 2675-4207.
