Uma bela indigestão

Stephanie da Rosa

 

    Bílis Negra, do dramaturgo brasileiro Uarlen Becker, é a quarta peça da temporada 2024 do TPE. No título, há uma analogia com a narrativa, a bílis é um líquido produzido pelo fígado para auxiliar na digestão, em excesso se torna mais escuro podendo causar sintomas como depressão, confusão e agressividade.

 

   Na peça, uma médica legista dedica seus plantões noturnos a duas paixões, dissecar os cadáveres e se vestir de drag king. Em uma das madrugadas, o necrotério é invadido por duas irmãs universitárias incestuosas. A médica tenta expulsá-las, mas é atraída pelo plano da dupla: elas querem ficar famosas, e para isso pretendem fazer um desfile de moda com um cadáver. Entre negociações, conspirações, desconfianças e sedução, acontece um crime e quando as sirenes da polícia tocam os planos mudam. A legista convence uma das universitárias a assumir o delito, para finalmente conquistar a fama, a jovem fica animadíssima com a ideia e já se prepara para as entrevistas.

 

    As interpretações são marcadas pelas oposições que realçam as características das personagens. A médica (Larissa Lima) tem movimentos precisos, é meticulosa e observadora. Ainda que as jovens compartilhem as mesmas ambições, e corte de cabelo, elas têm suas singularidades. A Ruiva (Camila Consi) é mais despojada e despreocupada, parece representar a alienação e inconsequência. Enquanto a Loira (Kimberly Pereira) é mais glamourosa, enérgica e ludibriada com a fama. A montagem é muito engraçada, o público realmente se surpreende com os acontecimentos e com a suposta falta de sentido.

 

    Mas uma coisa chama minha a atenção, logo no primeiro momento, há vários manequins expostos nesse cenário de necrotério. Alguns em partes, outros inteiros, um na maca, mas todos têm um revestimento prateado e são muito agradáveis de se ver, sendo justamente os corpos já mortos ou até abertos e mexidos. Ao passo que a médica drag e as jovens universitárias têm uma maquiagem assimétrica.

 

     Ao longo da peça, a gente vê que essa maquiagem está de acordo com a personalidade confusa e bizarra das personagens. Penso que o corpo morto do manequim é previsível e está sob controle. Já o suspense, o absurdo e o caos são coisas que ainda estão vivas. Quando atentamos para essas personagens percebemos que elas são realmente dismórficas, a aspiração de fama a qualquer custo é frágil e superficial, e até a ligação entre as incestuosas se mostra rasa. O retrato de um desequilíbrio, excesso de individualismo e falta de identidade. Enquanto os cadáveres ocupam o espaço sem causar surpresas ou danos, a assimetria está em nós, vivos.

 

    A aparente leveza pelo nonsense dos diálogos engraçados é um engano, a obra proporciona -pelo menos pra mim- uma experiência de viajar e questionar algumas coisas sobre morte e vida: O que fica depois de partirmos? Quando acaba nossa existência? Vale a pena ser conhecido sem ser reconhecido? O belo também pode ser indigesto?

 

Stephanie da Rosa

 

Stephanie da Rosa

 

Stephanie da Rosa

 

Stephanie da Rosa

 

 

 

Elenco: Camila Consi, Kimberly Pereira e Larissa Lima

Direção: Fae de Sousa

Dramaturgia: Uarlen Becker

Fotos de divulgação: Stephanie da Rosa

Produtora e maquiadora: Vitória Stifft

Iluminação: Adami

Operação de som: Laura Fensterseifer

Orientação: Cristiane Werlang

 

Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 17 – dezembro de 2024 a março de 2025. ISSN. 2675-4207.