Existe um potencial no conceito de legado: transcender a realidade, o palpável, a efemeridade inerente e figurar para além das gerações. Como seres carnais e práticos, com incontornáveis prazos de validade física, é esse potencial que faz do viver algo além do que os olhos são capazes de captar ou a pele de sentir.
Construir um legado ou carregar um é o real sentido da humanidade. E não falo aqui do legado financeiro ou material, mas sim do seu total oposto: o legado intangível, incalculável. Vivemos e morremos por ele. Com suas resolução ou não, entendemos a quantas anda nosso caminho. Porém, podemos esquecer dele. Infelizmente, podemos.
Com o objetivo de recordar o legado construído e transferido pelas mulheres, ocorreu no dia 17 de Abril, no Bar Ocidente, o Burlescagens: Mulheres Foda – 2ª Edição. Do Grupo de Teatro Burlescagens e realizado dentro do Projeto Espaçonave da Cia. Teatrofídico, o evento contou com o elenco de performers: Enigmática, Juju Maverick (Interpretada pela atriz e dramaturga Juliana Strehlau), Meg Low Maniac (Interpretada pela atriz e figurinista Thais Diedrich) e a Drag Queen Katrina Addams. Colaboraram como assistentes de produção o performer Alexxxperience (interpretado pelo ator Alexei Goldenberg) e Matheus Strehlau. A atriz Catharina Conte atuou como Mestre de Cerimônia.
A estrutura dramatúrgica da performance em si era simples: resgatar, através de intervenções musicais e corporais – típicas do burlesco, os maiores vultos femininos da nossa história como sociedade e espécie. De cantoras a lideranças estatais, o grupo aspirava recordar ao público presente que a história da humanidade é a história das mulheres.
O que não imaginavam, contudo, era que a simplicidade da vontade geraria uma explosão de emoções. Enquanto as luzes baixavam ou cortavam o interior do velho prédio do Bar Ocidente e o palco era ocupado pelo elenco, nós, o público, vislumbrávamos nossa própria vergonha, nossa própria culpa. Ao longo dos últimos séculos, esquecemos de cada mulher que confeccionou o legado invisível que hoje sustenta nossos passos. Como sanguessugas, fazíamos uso do produto, ignorando quem o construiu.
É claro. Esquecer é o sintoma de algo maior. Quando falamos de epistemicídio, falamos da parte seguinte da violência física. Uma coisa está ligada a outra. E eu gostaria de dissertar sobre isso com a profundidade, atenção, e cuidado que o tema requer, mas esse não é o espaço adequado e tampouco o meu lugar de fala. Creio existirem outras vozes capazes de fazerem ecoar análises singulares sobre a violência histórica que é lançada contra as mulheres. Aqui, vou me limitar às emoções como espectador de um acontecimento teatral, ao que senti quando assisti esse evento.
A cada descida do palco e posterior subida, uma nova história era contada. Com uma cenografia tímida (com poucos ou quase nenhum material de apoio), mas com um figurino ímpar, detalhista, colorido, coerente e igualmente ousado, as performances nos levavam para eras distantes e, após, nos traziam para os tempos atuais. O público era movido de lugar sem sair da cadeira, sem deixar o Bar Ocidente.
A iluminação baixa e soturna aprofundava o vórtice temporal criado. O público sentia-se capturado por uma abertura no tecido da realidade. Éramos atentos viajantes no corredor do tempo, conhecendo a história que tínhamos esquecido.
Ao término daquela noite, retornei para casa. Não era o mesmo. E sabia que todos os presentes, todos que estavam naquelas mesas, sentiam igual emoção. Conhecer a nossa história tem um poder libertador. Desvela a verdade dos fatos e insta questionamentos sobre o que acreditamos ser nossa identidade.
O Grupo de Teatro Burlescagens almejava restaurar um legado.
Fizeram isso.
E muito mais.







Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 17 – dezembro de 2024 a março de 2025. ISSN 2675-4207.
