“Não sei como escrever um texto a altura dessa peça”

Nem sei como escrever um texto a altura dessa peça. 

Fiquei tão tocada que…

Sonhei cidades submersas 

As lótus você via

Quando as ondas recuavam 

Mas eram de concreto

As flores no caso, ou seriam as ondas? 

Crianças e adultos comiam bolo de caneca 

No aniversário da Nina

Eram de todos os tamanhos possíveis 

Espalhados

Os bolos,  no caso, ou seriam as pessoas?

Sissi me pedia que colocasse algo na cabeça

Dela

 Mas não parava 

Nem ela, nem o troço

Sentimos falta das asas

Quem as pegara? achei!

Devolveram 

tudo certo 

Que festa! 

Eu dizendo pro João sobre o paraíso 

E ele: tenho mais 4 rolando agora 

(Um agora bem puxado no Porto alegrês)

Gente! 

Como consegue fazer tudo isso ao mesmo tempo?

Acordei! 

Que pena!

Que peça!

Cenas tão bem construídas e impactantes que você pensava

 “Que final!”

Mas não era…

Nem sei como escrever um texto a altura dessa peça. 

Tentei abordar por vários aspectos, mas quando lia o texto não enxergava a peça nele. Foram tantas imagens que sonhei cidades imersas (ou submersas?) onde íamos fotografar, festas de bolo de caneca, o João dizendo que estava com mais quatro peças e eu cho-ca-da: como ele conseguia fazer tanta coisa! (acho que estou me repetindo…)

Tentei partir do texto – o relato de uma costureira chinesa imigrante …não peraí. As consequências de um capitalismo selvagem que polui, que mata, e que …. Já sei! O início – corpos expostos em carne, órgãos, angústias, lixo, montanhas de lixo, bateria, celular… Quem sabe – o contraponto da riqueza e da elegância dos white people problems ou rich people problems que vem com os outros personagens e – cenas musicais exageradamente faceiras que entrecortam uma história dramática expondo nossas ridicularidades … nossas crueldades enquanto sociedade dos bens de consumo… quanta elegância! 

Belíssimas em seus vestidos, montados em seus ternos e gravatas trepam pelos cantos, não gritam, discutem, olham pela janela as notícias catastróficas que nos atropelam de trem. Ficamos juntando os pedaços, enquanto o diabo ri. 

E é desse jogo com o texto que se constrói aos pedaços que as cenas se constróem aos pedaços, assim como se reúnem e se despedaçam  os sonhos que a personagem  alimenta.  E desse lugar ilusório de realidade criada se montam realidades paralelas que dão o tom pra essa narrativa e pra nossa: a da humanidade falida que de tão afundada em sua soberba não só beira ao ridículo, mergulha no escárnio, ou ainda, se afunda na… 

Ou um tom de reportagem: Uma história atual e muito conectada com a realidade da exploração do trabalho, do consumismo, do imperialismo, do capitalismo exacerbado, da indústria, da crueldade antropocêntrica…

Da extrema direita …. (no Brasil!?) , que é piada pronta (?!) e de mau gosto… e eu pensava “quanto bom gosto!” … mas questão de gosto não é digno de uma apreciação “imparcial”, afinal de contas não se pode ser subjetivo e …

Também não dá pra dizer que o texto original é só um pretexto porque ele é potente. Mas a forma como a peça se constrói e escolhe o que dizer do texto, ou aproximar o texto de questões nossas ou entrecortar o texto ou esquecer o  texto e trazer o foco para nuances das suas denúncias é irretocável. 

As imagens poderosas, limpas, singulares (será que eu estou me repetindo? não) que escolhem muito bem os detalhes dos corpos,  o que mostrar em recortes de luzes que também performam, que desenham trens, fábricas, cortes, centauros diabólicos, musicais e infernos utilizando primorosamente os recursos da arquitetura do Teatro (no caso, o São Pedro). 

Movimentos suaves, contidos, mínimos, despidos na representação dessa personagem singela cujo texto flutua no tai chi. Ou corpos expandidos, montados, ostensivos, elegantemente ou esdruxulamente  fúteis ou extravagantemente vestidos na representação dessa  “merda” que somos. 

De um lado quem veste, do outro quem morre. Pra alguém ser vestido. Pra produzir o que vai ser vestido. Tudo para que a moda produza toneladas de lixo, digo, de roupas

Em condições subumanas de trabalho…

Corpos vestidos e que se despem enquanto notícias sobre a indústria têxtil circulam pelo palco em 

                  letreiros

                                 reportagens

                                                        repórteres…

Um equilíbrio muito bem dosado entre drama, humor ácido, autoficção e metalinguagem. Imagens irretocáveis. Cenas primorosas todas e cheias de curvas, ritmos, climas. 

Um incêndio!

Costumo assistir à Cia Espaço em Branco com frequência. Por isso já esperava algo assim… que me arrebatasse. Mas essa peça ainda fez isso: me surpreendeu em sonho com imagens outras, reverberando esse lugar insólito- poético… 

Nem sei como escrever um texto a altura dessa peça. 

 

LAURA MOREIRA/DIVULGAÇÃO/JC
BRUNO GULARTE BARRETO/DIVULGAÇÃO/JC

 

Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 17 – dezembro de 2024 a março de 2025.