Andar descalça na areia

Eu sei que você está aqui pra saber se eu gostei da peça. Sim eu gostei. Vou começar antecipando o que acontece nessa crítica porque é assim que fazem na peça. Nesse texto você encontra uma análise da montagem de Amores Surdos que esteve em cartaz no TPE de 2025, a peça é uma adaptação da obra homônima de Grace Passô. Antes de falar sobre a montagem, eu comento os principais aspectos do texto original para que você entenda o ponto de partida do grupo. Depois faço uma breve análise da montagem e comento sobre como o trabalho me impactou. Também inseri frases da peça (ou similares) que destaquei em itálico. 

 

A peça de Grace Passô fala sobre uma família que vive uma rotina cotidiana. Os membros enfrentam desafios pessoais como auto sabotagem, superproteção, incomunicabilidade e distância. Mas há uma questão em comum que todos se esforçam para ignorar: a ausência do pai. Essa é materializada por um hipopótamo – como na famosa analogia do elefante branco na sala, que ilustra um assunto difícil de ignorar.

 

A dramaturgia também vai além da trama familiar, em monólogos onde o ator se dirige ao público e questiona convenções como aplausos e expectativa pelo desfecho da trama. Ninguém aqui é Pequeno!

 

É um texto que me toca bastante, e não sou a única, já assisti diferentes versões, e também já fiz parte de uma delas. Cada montagem conduz o olhar do público por um caminho diferente. É possível que uma escolha gere uma sensação de renúncia e ao mesmo tempo abra infinitas novas possibilidades. Essas decisões são intrínsecas do fazer teatral. 

 

A montagem que assisti no TPE 2025 optou por ambientar em uma época mais antiga. A Grazi não usa fones, lê um livro. Os sons da casa criam ritmos – ora estão todos sincronizados, ora beira a cacofonia. Acredito que essas alternativas acentuaram o contraste entre o realismo e sua ruptura, além de evidenciar o esforço ativo que provoca os problemas de comunicação. 

 

Há um ponto que me fez pensar muito: o conflito do hipopótamo, ele ocupou um espaço menor, não houve nada que representasse materialmente as marcas que ele deixa, como lama, por exemplo. A revelação de um hipopótamo naquela casa não causou tanto alarde.

 

Aqui pude dar um outro sentido a uma obra. Fiquei com a sensação de que a descoberta dos hipopótamos nem sempre é transformadora. O grande bicho vai continuar aqui, nessa casa, dentro de nós! e talvez paredes mais grossas sejam construídas depois. Como se a tomada de consciência não fosse o suficiente para mudar as coisas, sendo incorporada no cotidiano. Inclusive fiquei pensando que essa pode não ter sido a primeira aparição do hipopótamo.

 

Pude revisitar a obra por outra estética, outro viés e por uma movimentação coerentemente orquestrada. Tive surpresas em um caminho que achei que já conhecia.

 

Mesmo que já tenha calçado os sapatos pude andar descalça na areia.

 

 

 

 

 

 

 

 

FICHA TÉCNICA

Elenco: Augusto, Clara Garcia, Isabel Schmitt, Manuela Mattoso e Pedro Salah

Direção: O grupo

Dramaturgia: Grace Passô (adaptação feita pelo grupo)

Fotografia: Leonardo Zillmann

Técnico de som: Júlia Bueno

Técnico de iluminação: Kim Pereira

Orientação: Cristiane Werlang

Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 19 – agosto a novembro de 2025. ISSN 2675-4207