
A Princesa Careca estreou no início do ano, dentro da programação da Mostra DAD, uma ação de Extensão do Departamento de Arte Dramática do IA/UFRGS, que ocorre desde 1997, chegando este ano aos 25 anos [1]. O espetáculo é um marco na história do departamento, pois foi a primeira montagem realizada na ênfase de Escrita Dramatúrgica, recém criada dentro do curso de Bacharelado da Universidade, cuja primeira turma ingressou em 2019.
Assim, o curso agora possui três [2] habilidades: Direção Teatral, Interpretação Teatral e a novíssima Escrita Dramatúrgica – boatos de que é a única desse Brasil. Ou pelo menos uma das únicas, pois essa qritiquer aqui não encontrou pela internet a informação, só encontrou cursos de extensão, curtos, ênfases, especializações… mas graduação mesmo, só essa.
De acordo com o detalhamento do projeto pedagógico [3] do curso:
O egresso da Habilitação em Escrita Dramatúrgica é capacitado para o desenvolvimento do pensamento crítico e criativo, aliando sensibilidade artística à reflexão acadêmica, com uma sólida formação técnica, artística, ética e cultural. Apto a atuar como dramaturgo e agente cultural de modo autônomo ou em equipes temporárias ou grupos permanentes, em produções institucionais ou independentes, assim como em atividades de investigação acadêmica, conjugando teoria e prática na criação de textos para teatro.
E por quê dizer isso tudo? Porque ela, Franchesca Coppola, é nossa primeira formanda da habilitação, e seu estágio foi escrever a dramaturgia e realizar a montagem de A Princesa Careca.
Essa é a Franchesca Coppola, primeira formada da habilitação em escrita dramatúrgica do DAD/UFRGS e dramaturga da peça A Princesa Careca.
Então, só reforçando aqui mais uma vez. A primeira peça da nova ênfase é de uma mulher que escreve uma dramaturgia para o público infantil. Não é novidade pra ninguém o protagonismo masculino nos meios e etc. O teatro e a dramaturgia, principalmente, vêm nessa esteira também, faz pouco tempo que temos realmente dado espaço para dar vez e voz para elas, em um movimento crescente de incentivos como projetos, ações, grupos, editais e, principalmente, pela escolha de grupos e artistas por estes textos.
A onda de publicações e formação de coletivos de dramaturgas e escritoras têm se destacado. Aqui em Porto Alegre, por exemplo, tem o Coletivo As DramaturgAS (@coletivoasdramaturgas), com 14 livros publicados. Mas pesquisando por dramaturgia de mulheres e feministas, encontramos muitos outros grupos. Em 2019, Layla Loli da SP Escola de Teatro, criou uma lista colaborativa com 153 nomes de mulheres autoras de teatro, brasileiras e estrangeiras, no intuito de registrar e divulgar essa pesquisa, que você pode conferir aqui.
Outra coisinha que… tá, acho que já superamos. Mas, como já estamos aqui… Será? Bom, vou expor. Se você, leitor, é artista e tals, não é novidade, mas vai que, né?
Tá, seguinte: vou até reproduzir as palavras de pesquisadores aqui, pra me ajudar:
- “Há séculos o teatro infantil no Brasil sofre preconceito por parte da própria classe artística que o enxerga como arte menor” [4]
ou
- “O bom teatro infantil resiste ao preconceito e mostra que criança tem todo direito a espetáculo de qualidade. Numa era em que as crianças adotam os shoppings, a Internet, os videogames, os esportes ao ar livre como principais formas de lazer, o teatro infantil se transforma numa atividade de resistência. Com uma crescente profissionalização, principalmente no Rio, mas que ainda enfrenta sérios problemas como a falta de patrocínio, de divulgação na mídia e de salas de teatro. O preconceito – não apenas do público e dos empresários, mas muitas vezes da própria classe teatral – foi eleito o grande vilão desse conto que de fadas não tem nada”[5].
Enfim, esse rolê. Então acaba por ser sim mais um desafio escolher a linguagem para o público infantil, mas estamos superando esse pré-conceito bobão e vendo que talvez estejamos realmente entrando no século XXI e diluindo essa questões padronizadoras de opinião e categorização das artes em quadradinhos apertados. Podemos até dizer que nem tem mais essa nomenclatura de “teatro infantil”, se faz teatro, e às vezes a linguagem vai ser livre e direcionada principalmente pros pequenos. O Projeto Gompa, por exemplo, encabeçado por Camila Bauer (diretora teatral e professora de dramaturgia), encena o texto Chapeuzinho Vermelho [6] de Joël Pommerat, vencedor de 24 prêmios e com mais de 65 indicações, incluindo o Troféu CENYM 2019. A montagem é para todas as idades, sendo que cada uma delas vai se apropriar da linguagem da sua fase e fazer as conexões dentro da sua realidade:
A encenação brasileira propõe estética de teatro adulto ao mesmo tempo em que a fábula é pensada também para crianças – tendo sua premissa reconhecida através de indicação a prêmios de teatro adultos e para crianças. Segundo o psicólogo Pedro Lunaris, possui uma linguagem apropriada e envolvente ao mesmo tempo em que deixa certas conclusões a salvo para a leitura dos adultos. (…) Nesta linguagem híbrida, busca-se dialogar com as diversas idades de espectador, construindo um espetáculo com distintas camadas de leitura.
Tá? Então, tá! Voltando aqui. E não é só isso. A Princesa Careca também conta com uma equipe majoritariamente composta por mulheres. Além de uma DRAMATURGA, temos uma DIRETORA, COREÓGRAFA, uma PROTAGONISTA, uma OPERADORA DE SOM, a PREPARADORA VOCAL… Um mix que juntou todas ênfases da faculdade e criou do zero o trabalho todo. Entenderam, né?

Por falar em protagonista, a Nique também vem para levantar a bandeira das meninas, questionando imposições e reforçando a autonomia das escolhas. A história é clássica. Uma princesa jovem, presa no castelo, que só tem os livros para viajar e que sonha em embarcar em uma aventura de descobertas em que possa ver de perto esses lugares e culturas.

(Foto: Gabriehl Oliveira)
Logo de início, vemos que esta menina não pode sair de casa por que sua mãe é muito protetora (clássico), ela é muito criativa, tá sempre inventando e já leu todos os livros possíveis que estejam no castelo, até os de receita. Sem muitos spoilers, ela conhece alguém que vai embarcar com ela em uma grande aventura da Conquista da Coroa. Já de início, em conversa com esse novo amigo, ela já começa a questionar esses padrões de princesa clássicos; em um momento, diante da dificuldade em sair do castelo, por exemplo, já diz que assim, preferia nem ser princesa.

Ou então, quando comentam as histórias das princesas da Disney, em uma linguagem muito acessível e leve, Nique fala sobre consentimento das princesas, quando os príncipes beijam Branca de Neve ou Aurora, que não estão nem conscientes no momento. Questiona porque os sete anões também não limpam também a casa onde moram e que, enfim, as princesas não precisam de príncipes, porque podem se salvar sozinhas!
Embarcando na aventura, Nique e seu companheiro navegam em navios piratas, entram na barriga de uma baleia, conhecem as Três Marias e a Mãe Natureza.
Hummm, preciso abrir um parênteses.
(A história de pano de fundo, não é bem uma novidade, como já falamos aqui e, acredito que, sabendo já desse lugar, assume mesmo vários recursos comuns que tendem a funcionar de forma a dar vida ao texto. A personagem principal – princesa presa no castelo, que é proibida de conhecer o mundo e afoga seus dias entediados na biblioteca, acaba por conhecer magicamente um companheiro que vai guiá-la na sua aventura – tem um amigo que faz o seu contraponto, temos figurinos coloridos, piadinhas, jogo de luz, coro, transformações de objetos cênicos em outras funções (como o baú que vira barco), canções… Por falar nelas, inclusive, deixo registrado que é muito legal ver que foram criadas canções originais para o espetáculo, mas nas duas oportunidades que assisti, estranhei um pouco. Não sei se estava muito baixo, ou muito aparente que era “dublado”, mas pode ser uma opção assumir que é gravado mesmo e só coreografar em cima, ou seguir no embalo da última música da peça, em que os atores incitam a platéia a fazer os estalinhos de dedos e Nique canta à capela e fica MUITO fofo e querido ^^).
Ufa! parêntesesão. Voltando aqui, então… A jornada de Nique e seu melhor amigo os leva a perceber que as vezes as pessoas podem ficar um pouco confusas ou perdidas e que isso não é um problemão; que os pais, mães, adultos, também podem ter medo e que com o tempo, aprendemos que REFLEXÃO e CONFIANÇA são muito importantes na nossa trajetória.

(Foto: Gabriehl Oliveira)
E que, no fim,
A
CONFUSÃO
FAZ
PARTE
DA
VIDA!
[1] http://Consiste na apresentação pública dos espetáculos de conclusão de curso das alunas e alunos de Estágios de Atuação e Montagem e das apresentações das pesquisas de TCCs das alunas e alunos do Curso de Licenciatura em Teatro. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/prorext/mostra-dad-25-anos-apresenta-espetaculos-de-alunos-do-departamento-de-arte-dramatica-do-ia-ufrgs/>
[2] http://Embora possuam uma grade curricular comum em boa parte das etapas, os alunos são encaminhados para as suas habilitações a partir do terceiro semestre, e essa diferenciação apresenta-se em alguns momentos específicos do curso. A partir daí, as habilitações em Direção Teatral e Interpretação Teatral permanecem ainda próximas. A habilitação em Escrita Dramatúrgica, por sua vez, distancia-se mais das outras duas a partir da Etapa 3. Estes diferentes percursos devem-se às diferenças e especificidades do fazer teatral de cada uma destas habilitações. As práticas das habilitações em Direção e Interpretação voltam-se mais à encenação, e as da habilitação em Escrita Dramatúrgica voltam-se para a dramaturgia.
[3] ttps://www.ufrgs.br/institutodeartes/wp-content/uploads/2020/09/PPC-bacharelado-em-teatro_tres-habilita%C3%A7%C3%B5es_2019.pdf
[4] http://Chirzóstomo, L. P. A., & Enedino, W. C. (2018). UM OLHAR PARA A DRAMATURGIA INFANTIL BRASILEIRA: (CON)TRADIÇÃO E TRANSITORIEDADE EM A VIAGEM DE UM BARQUINHO, DE SYLVIA ORTHOF. Revista Do Sell, 7(1). https://doi.org/10.18554/rs.v7i1.2309
[5] http://ENTRE FADAS E BRUXAS: O BOM TEATRO INFANTIL RESISTE AO PRECONCEITO…Matéria publicada no Jornal do Brasil – Caderno B – 1ª página. Por Roberta Oliveira – Rio de Janeiro – 1996. Disponível em: <https://cbtij.org.br/o-bom-teatro-infantil/>
[6] https://www.projetogompa.com/chapeuzinho-vermelho
FICHA TÉCNICA
Sinopse: Nique é uma menina esperta que leu todos os livros da biblioteca do reino onde mora. Entusiasmada a participar de aventuras que vão além das páginas, parte em uma jornada criativa e animada, acompanhada de um rapazinho curioso, o qual a encoraja a buscar algo que lhe pertence.

Ficha Técnica:
Dramaturgia: Franchesca Coppola
Direção: Savana Ferreira
Elenco: Franchesca Coppola, Gabi Fernandes, Jéssica Gladzik, Luiz Borges, Natália
Izaguirre e Pati de La Rocha
Trilha sonora: Ciro A. Gomes
Operação de som: Vivian Azevedo
Iluminação: Li Pereira, Adami
Coreografia: Cecilia Diez
Maquiagem artística: Andrielli Machado, Franchesca Coppola e Luiz Borges
Direção de arte: Augusto Souza, Franchesca Coppola e Leonardo Selbach
Preparação vocal: Sofia Sol
Qorpo Qrítico – Vol. 05, n. 12, março a julho de 2023. ISSN 2675-4207.
