A VOLUPTUOSA PELE DO ECRÃ (OU: A CARNE DA IMAGEM)

 

“E o verbo se fez carne e habitou entre nós… E vimos a sua glória.” (João I,I)

ou

E a linguagem se erotizou. E gozamos…

“De fato, existe uma estreita ligação entre a não-aceitação da aparência, o temos à imagem, sob suas diversas formas, e o horror dos sentidos, o medo da beleza ou ainda o ódio à matéria.” (Michel Maffesoli, A contemplação do mundo)

 

Sobreposição com a imagem da Live Première mundial do Grupo de Pesquisa Insubordinada.

 

Aqui num pequeno e pouco charmoso Café do centro relendo Fragmentos de um discurso amoroso, do filósofo francês Roland Barthes encontro “a mão repousa sobre a pele:.. região paradisíaca dos signos sutis e clandestinos: como uma festa, não dos sentidos, mas do sentido” e sinto que não escrevo apenas sobre a pele, mas na pele, à mercê da pele, subjugado por ela… E a própria escrita, acaricia a superfície da alma, do corpo. E os meus olhos apalpam a película, a imagem. E o verbo se faz pele, pele acariciada, pele… linguagem. “Moi peau” (eu pele) afirma o psicanalista francês Didier Anzieu; eu digo: Moi image (eu imagem). E, num repente, sou como que possuído pela imagem, tomado pelo discurso da imagem, arrebatado. Ela fala por mim, sou seu médium, sua mídia.

Sou Volúpia, uma imagem penetrável, envolvente, acariciável. Também, uma imagem maleável, manipulável; uma imagem que se oferece não só aos olhos, mas ao corpo, à mão, às pontas dos dedos, que me apalpam, me beliscam, me contraem e me distendem. Tanto à portas abertas ao público como à portas fechadas das alcovas sou lasciva e obscena. Posso me tornar imagem de qualquer outra coisa ou ser, não há limites para o meu poder de mutação. Sou uma imagem eletrônica, uma infoimagem, uma imagem que perambula na rede digital. Proteiforme, tenho mil faces, e posso mostrá-las todas ao mesmo tempo numa massa amorfa, ou uma a uma. Não há limites para os meus poderes. Em fração de segundo posso me transmutar assumindo qualquer aparência. Sou indecente – e iridescente -, concupiscente, promíscua, erógena. Eu, a louca da casa, perseguida tanto por adoradores como por detratores, agora estou solta na cidade.

Habito impudentemente esses lugares fronteiriços, atópicos, das redes digitais, onde me instalo, provisória, modificando tempos e espaços. Meu tempo é o Kairós dos gregos, tempo da graça, da oportunidade, da possibilidade. Sou feita da matéria reticular da dança dos signos digitais binários. Pele maleável e móvel do pixel: pele da tela.

Tomo as palavras da escritora e psicanalista francesa Anaïs Nin, e afirmo que também “uma fome de maravilhas me aflige”. Como aquela mulher polifacética, maleável, plástica, despedaçada que era Nin, infinitas camadas possuo, e me realizo, atualizo e virtualizo na remoções ininterruptas das minhas pátinas. Sou pátina sobre pátina. Sou pátina sob, intra, infra e justa pátina. Na conflagração de todas minhas camadas vivifico. Percorrer-me é perscrutar cavernas, decifrar hieróglifos, desvendar línguas pretéritas. Então me revelo, me desvelo; retiro meus véus um a um, impudica. Ávida de aleatoriedades, abandono meus vestígios, minhas roupagens e cascas translúcidas por onde passo.

Infiel e corruptível, não tenho pretensões de representar um original, essa instância primeira, essa realidade, essa verdade, esse Deus. Deuses omnipotentes não me atraem, ao contrário, me rejubilo com o que é terreno, baixo, abjecto, resíduo, resto, coisa. Congratulo-me com os seres das sombras, dos crepúsculos, das encruzilhadas, seres hermesianos, suspeitos; talvez por isso me temam e me vilipendiem. Mas, mesmo escarnecida, abandonada e renegada, prossigo ígnea, inflamável, pervertida e perversora, voraz e inexaurível; dona de um frenesi que condena à vertigem quem me olha no olhos. Provoco a ira dos Deuses ciumentos que convertem em estátua de sal àquelas que ousam não resistir a minha sedução. Porém, não seduzo como o fazem as imagens nobres, sublimes, sagradas; mas bem, prefiro ser talismã, imagem banal, supersticiosa, clichê. Repetitiva e vulgar, fujo das paredes pulcras dos museus para macular-me nos ecrãs das pequenas máquinas descartáveis, esses aparelhos “de ser inútil”, jogados “no chão, quase coberto de limos”, como no verso do poeta brasileiro Manoel de Barros.

Volúpia suprema, obscena, manifesto-me como uma espécie de glossolalia visual: cintilante, imperiosa, vibrante, potente e descontrolada. A efervescência e o rejubilar-se do pixel, da eletricidade. O bacanal concupiscente da tela libidinosa e ardente. “Miríade de eflorescências”, como descreve o filósofo francês Michel Onfray as propriedades borbulhantes da champagne, em A Razão gulosa. É outro deus que habita aqui (assim como d minúsculo), ou melhor, deusas: as deusas do entusiasmo. Imagens que inebriam, fascinam, sideram. A imageria como um médium, que me coloca em relação com um isto do corpo. Possessão mútua, exorcismo mútuo. Libertação.

Finalmente, nos domínios das aparências, a carne se divorcia do Espírito e associa-se aos espíritos, aos daimones. A carne se assume como coisa, não necessita mais um Espírito que a habite e a enobreça, se satisfaz com a aparência, os sentidos. Batismo na carne e pela carne, onde a aparência se faz carne. Aquilo que era aparência se concretiza virtualizando-se. É a vez da coisa e da aparência cohabitarem. A tela se espiritualiza num tecnopentecostalismo pagão. É a era dos espíritos, dos demônios, das Bacas, de Dioniso, do simulacro, dos emblemas vulgares e talismãs – esse ídolo portátil.

Agora, a imagem se banha nela mesma, na sua espiritualidade polifacética, entidade viciada em si mesma como coisas, a carne se realizando plena e atuando num pacto erótico com os espíritos, as aparências, as confusões. As bodas dos daimones e sarke, demônio e carne cohabitando. Os espíritos tornam-se assim coisas, e a coisa transcende, se transcende na aparência imanente. Um concubinato: coisa e aparência se amasiam, e sob o auspício da Era da aparência e da coisas, se apaixonam e copulam. Uma total ateologia da imagem nasce desse amor dos espíritos pela carne e vice e versa. Toda tentativa de matar a carne, aprisioná-la pela lei ou numa espécie de semelhança, fracassou. Não se trata mais de realização ou semelhança, tampouco de redenção: a carne está aberta às influências e poderes do mundo. A imagem como coisa, sem aura, sem original, acéfala, sem precisar de ninguém para cuidá-la. Não é mais plena. Não tem necessidade de significação, não precisa ser insuflada. É aparência, é coisa, é… imagem: apenas carne e sangue do mundo; não carece mais de justificação, de amparo do grande Espírito único. Não tem pretensões de onisciência, onipotência ou onipresença. Ao contrário, ela se entrega à corrupção, à ignorância de si mesmo. Fragmentada, concupiscente e desnaturada, pode ser perversa e atraente, mas sempre exibindo uma sensualidade e sedução completamente frágil, fútil e fugaz, com vocação mais para estátua corruptível e quebradiça de sal, que de monumento de solidez perpétua. Repleta de desejos e camuflada, miragem, simulação, máscara, não esconde mais a alma, a essência. Não mais essência e pureza, mas aparência e hibridismo. Desaparece a essência e permanecemos na aparência. Já não vemos face a face. De volta do santuário, podemos finalmente atravessar a terra em direção ao hades.

“…a imagem é, de parte a parte, orgíaca.” (Michel Maffesoli, A contemplação do mundo)

Pele e carne eletrônicas, elétricas, sou as imagens pirotécnicas, efêmeras, anamórficas, metamórficas; nem ficção nem real, mas a realidade da matéria, do pixel, e seu sonho. Imagem perturbada, arranhada, furada, penetrada, desvairada. Frágil e poderosa ao mesmo tempo, na minha delicadeza reside a minha força. Em destruição e reconstrução perpétua evidencio a materialidade mutante do ser, a matéria do mundo. Erógena, erótica, erotizada, imagem erigida como fluxo que jorra ou que escorre. Sem vergonha de ser coisa…, sem vergonha de ser irreal. O fetiche do ser. Em mim, imagem digital, o corpo aparece festivamente travestido em coisa. E a pele se faz pixel e habita entre nós. Não se quer o real, nem melhorar o real, não são registros de corpos, mas, antes, a corporificação dos registros. A máquina eletrônica visível, a vertigem do jogo eletrônico dos pixels evidenciada. Corpo eletrônico voluptuoso. O entrelaçamento concupiscente e lascivo da pele, do pixel e da máquina. Uma imagem que não representa e nem significa, não tem sentido: apenas mostra. Corpo-coisa, imagem-máquina, numa cópula libertina perfeita e plena. Sem qualquer dívida com o real. Sem pretensões de preceder ou engendrar o real, eu, a infoimagem, pelo simples fato de mostrar-me, revelo a incontestável inexistência do real. Tampouco procuro coincidir as info-miragens que reproduzo com um real, um original. Em mim desaparece a diferença soberana entre real e aparência, deserto e miragem, diluindo, assim, o prestígio de uma aura que enobrecia o real, o original, a despeito da aparência. A matéria das infoimagens celebra o reino das aparências que não representam nada, nem ocultam nem revelam o original.

Através da replicação indefinida dessa ínfima luminância, dessa matriz sintética miniaturizada, que é o pixel, matéria maleável que não se aventura pelos territórios do sentido mas encena artificialmente circuitos de jogos em qualquer sistema de signos, finalmente o real – o original, o theos – morre. Boicotando o sistema platônico por onde ele menos esperava, eu, a aparência, não suplanto o real, nem me arrogo o estatuto de original ou de legitimidade; sem recalque nem decalque, não desejo instaurar uma hiperrealidade, nem um desrealidade; não há em mim tal pretensão. Não envolvo o corpo ou as coisas do mundo como uma segunda pele. A imagem da nudez do corpo e das coisas é a nudez da imagem, a minha nudez; não os apresento como real, nem os vitrifico ou impermeabilizo envolvendo-os em uma película. Ao contrário, como imagem eletrônica, brinco com esses signos-significantes do corpo. Quebro o vidro do original estilhaçando-o, derreto a pele do referencial, que escorre pela tela. Liquefaço a imagem e a ofereço aos comandos maquíinicos que podem apresenta-la protuberante, áspera, borbulhenta, inflamada, saturada, lacerada, esfolada, desintegrada: alquímica.

Frágil, falível, vulnerável, não ofereço quaisquer promessas, um dia existo, outro sou jogada fora; como a flor das ervas daninhas, como folhas ao vento, assim sou a imagem da tela. Despojada, à mercê, sem respeito próprio, extraviada nas fantasias de minha própria feitura. Deserdada e erradia, enferma de mim mesma, em mim me encho e logo me esvai, num fluxo constante. E o logos se fez pele, se fez ecrã? Não, a pele se fez pele. Delével, impermanente, visível e tangível, desagrado a aura e o prestígio do original que me é hostil, mas que agora já não me pode tocar porque me espalhei pelo mundo. Não tenho finalidade a não ser em mim mesma. Composta somente de véus. Véus vaidosos: a vaidade da efemeridade do pixel. Uma pele de lumens revestindo sem vestir, transparecendo luminosos, translúcidos… na lucidez do delírio da luz. Luminâncias concupiscentes; carnes translúcidas. Apareço, e logo me vou. Vida breve, epifania elétrica. Portátil, conectiva, transmissora, promiscua. Imagem-carne vadia, vagabunda, inapreensível. Contudo, me deixo possuir por instantes fugazes, me entrego, para imediatamente desaparecer e me transmutar. Sou a “sombra de Dioniso” sugerida por Michel Maffesoli; mas aqui, uma sombra luminosa, a sombra do virtual, que cintila e se vai, cadente, decadente, marginal, erótica. Uma espécie de perturbadora das divindades, como as bacas, sou a própria matéria, o objeto, a coisa, ganhando vida através dessa existência não-controlável e desordenada da imagem eletrônica.

 

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Mesac Silveira. Pós-doutor em Sociologia da Comunicação pelo CEAQ, Sorbonne, Paris V, mestre e doutor em Educação, FEUSP – USP. Coordenou o grupo de pesquisa Soundscape/Atopos, ECA USP. Licenciado e Artes Cênicas, atualmente é professor adjunto do Departamento de Arte Dramática do Instituto de Artes da UFRGS onde, entre outras atividades, ministra a disciplina Práticas do Jogador Performer e coordena o Grupo de Pesquisa Navio Proteu.

 

Qorpo Qrítico – Vol. 02, n. 04, junho a setembro de 2020. ISSN 2675-4207.