COMO CAVALGAR UM DRAGÃO: sobre aqueles que ficam

 

Uma das coisas mais interessantes no teatro talvez seja a mudança. Quem faz e frequenta teatro sabe: uma sessão nunca é igual a outra. Mesmo que sejam executadas as marcas pré-estabelecidas com perfeição e que o texto seja dado com todas as nuances requeridas, ainda assim, é sempre diferente. Alguns poderiam dizer que esse é o “problema” do teatro quando comparado a outros tipos de arte que não fazem uso de um material humano para que aconteça. As pinturas, depois de emolduradas, permanecem imortais em toda a sua magnitude e, quando colocamos os fones para ouvir uma música que gostamos, sabemos exatamente o que iremos escutar. Eu prefiro pensar que esse caráter mutável, essa efemeridade que é indissociável do teatro ao ponto de servir para descrevê-lo, é uma potência. E quando digo “efêmero” para especificar a fragilidade que existe na arte teatral é porque, no fim das contas, essa forte mutabilidade na qual o teatro se constrói descreve também outro aspecto que faz parte dele: o teatro é um acontecimento, e não existe nada mais fugidio que o momento.

Existe uma tendência a interpretar o “efêmero” como facilmente destrutível e desprovido de potência. Pensar em algo duradouro, por outro lado, desperta uma impressão de vitória. É evidente que artefatos antigos carregam um valor inestimável, principalmente do ponto de vista histórico, tal qual é o caso de construções milenares como as pirâmides, as estátuas da ilha de páscoa, o coliseu e tantas outras, e muitos concordam que entrar em contato com algum desses monumentos seria capaz de avivar um sentimento de deslumbramento… Mas não quero me demorar dissertando sobre monumentos grandiosos, quero atentar para o poder que há por trás da efemeridade.

Neil Gaiman, em seu livro intitulado “Coisas Frágeis”, escreveu uma passagem que talvez auxilie para explicar esse encanto pela mudança, pelo efêmero e pela fragilidade que recheia os momentos.

 

Enquanto escrevo isto, me ocorre que a peculiaridade da maioria das coisas que consideramos frágeis é como elas são, na verdade, fortes. Havia truques que fazíamos com ovos, quando crianças, para demonstrar que eles são, apesar de não nos darmos conta disso, pequenos salões de mármore capazes de suportar grandes pressões, e muitos dizem que o bater de asas de uma borboleta no lugar certo pode criar um furacão do outro lado de um oceano. Corações podem ser partidos, mas o coração é o mais forte dos músculos, capaz de pulsar durante toda a vida, setenta vezes por minuto, não falhando quase nunca. Até os sonhos, que são as coisas mais intangíveis e delicadas, podem se mostrar incrivelmente difíceis de matar.

 

Foto: Nós em Arte.

 

Todos momentos são frágeis. Desaparecem rapidamente e não conseguimos resguardá-los entre os dedos. A única coisa que sobra depois deles é a história que contamos a nós mesmos sobre eles. E por mais efêmeros que sejam, se deles lembramos e criamos narrativas inspiradas por eles, não seria correto dizer que nos impactaram ao ponto de continuar ecoando dentro da gente? E que esse eco é uma forma de continuar existindo?

Acontece que o teatro, assim como os momentos, finda. A cada sessão, ao abrir das cortinas, um mundo inteiro é criado, ao qual espectadores e atores são transportados para coexistirem numa ficção de acontecimento que desaparece ao cair do pano. O teatro, portanto, nasce, vive e morre todos os dias e, se ressurge após a sua morte, já é outra coisa, modificada e parecida com o que fora, mas nunca mais a mesma. Poderia haver algo mais poético do que invocar vida através da arte?

Dessa maneira, nesse bater de asas de borboletas que podem gerar vendavais, o acontecimento teatral, que deveria ser frágil, também produz tempestades fortes o suficiente para derrubar governos, incitar revoluções, produzir sonhos de liberdade, ampliar gritos doídos, desestruturar hipocrisias, desenterrar mortos e revivê-los com poesia. Se a morte faz parte da vida e teatro é sobre a efemeridade da vida, também é sobre a morte e todos os mistérios que ela contém.

É um paradoxo. Assim como precisamos citar a luz para descrever a escuridão, só podemos adentrar nos mistérios da morte se nos valermos do acontecimento vivo.

E a peça sobre a qual escrevo hoje é sobre tudo isso.

Somos muitos, ainda que não declaradamente, os fascinados por aventuras de finais trágicos. Sempre amamos as tragédias. Os amores impossíveis que acabam em mortes belas, os destinos irremediáveis do que somos perante o que gostaríamos que fôssemos e tudo aquilo que acontece entre o início de uma jornada e o seu final. Adoramos ler, ouvir e assistir a histórias que contam sobre um destino triste e como seus protagonistas tentam evitá-lo fracassadamente. Há quem diga que é por causa de uma projeção própria que fazemos nas personagens, outros dirão que é pelo sentimento de catarse, tão citado nas teorias teatrais e literárias, e tem, também, alguns que citam um prazer sádico em presenciar as desventuras dos outros.

Eu acredito que é, em parte, pela nossa paixão pelo desconhecido que a morte nos enfeitiça com a sua falta de respostas.

Como Cavalgar um Dragão é sobre morte. Não apenas sobre A morte, mas sobre a escolha estranha que alguns fazem dela e a incompreensão daqueles que ficam.

Nas desventuras ficcionais, muitas são as histórias sobre os heróis que se vão. Há um quê de audácia por trás do papel do herói, seja nos livros, nas contações, nas músicas, nas peças. Vemo-os como aqueles protagonistas que enfrentam o perigo da morte em prol de algo maior. Talvez esteja aí uma das principais peculiaridades da peça. Tudo começa pelo meio, a partir da morte de Letícia e, diferente dessas histórias de heróis que lutam contra algo maior arriscando perder suas vidas, nos confrontamos com uma escolha dificílima de ser compreendida, a opção de Letícia por antecipar sua própria morte cometendo suicídio.

Quando assisti ao espetáculo apresentado na Mostra DAD, o estágio dos atores Pedro Schilling e Nairim Tomazini, eu já sabia sobre o que se tratava. Também conhecia o texto e as ideias de encenação, isso porque pude presenciar alguns fragmentos do processo em um ensaio aberto ao qual fui convidada e também pela conversa constante com parte do elenco durante a elaboração da peça.

Porém, como disse anteriormente, o teatro é eternamente mutável. Mesmo tendo assistido a alguns fragmentos, quando fui assistir à peça “pronta” (e digo pronta entre aspas porque me parece que o teatro nunca está finalizado) me senti transportada para um mundo que não conhecia.

Eu sabia, por exemplo, como seria o cenário. Também sabia um pouco sobre a concepção de direção e outros aquéns que comporiam o espetáculo, mas jamais poderia dizer que imaginava os sentimentos que surgiriam ao assistir à história escrita por Diogo Liberano (o dramaturgo) como espectadora.

 

Foto: Nós em Arte.

 

Quando adentrei a Sala Qorpo Santo em outubro do ano passado, lembro de me surpreender com uma estrutura estranha posta no palco. Havia três paredes brancas, mas não eram paredes comuns; estavam tortas pendendo para fora como um tipo de bacia, como se esperassem o derramamento de alguma coisa. E não existia parede entre o público e a cena, ou na verdade havia, mas era invisível aos olhos do espectador, existindo apenas como uma membrana identificável apenas por aqueles que executavam a cena. De qualquer forma, sugeria um ar estranho, beirando o hiperbólico- paredes sobre um palco fechado por outras paredes maiores.

No fundo, na parede contrária ao público, havia uma janela fechada e isso também me soou estranho. É curioso pensar em como reconhecemos janelas em cena sendo que a sua função, que é abrir os ambientes e mostrar o que há do lado de fora, perde o sentido quando colocadas em cena. Ainda assim, era óbvio que o buraco simétrico em uma das paredes era, de fato, uma janela. Novamente, hiperbolicamente fechada.

Havia caixas, objetos, móveis que simbolizavam que aquele espaço um dia foi o quarto de alguém, mas que aparentemente não estava mais sendo utilizado por seu dono.

Aos poucos, a medida em que as personagens entravam em cena, naquele quarto estranho de janela fechada, descobrimos que eram amigos da antiga moradora do lugar e que se encontravam ali para guardar os pertences dela. Lembro de ter a sensação de que um sitcom similar a Friends ia se desenrolar para o público.

O grupo de amigos era composto por vários tipos. Havia o rebelde, com atitudes grosseiras e língua afiada; a apaziguadora, que tenta fazer os outros se conciliarem; a melancólica, que culpa a si mesma pela morte da amiga Letícia; e outros dois que tentam lidar com a própria dor recorrendo à fuga, através de remédios e distanciamento geográfico da situação.

Entre as várias discussões e acusações de uns aos outros, o grupo tenta encontrar respostas para a atitude de Letícia, tentando lembrar de algum indício que pudesse explicar porque a amiga havia se atirado da janela daquele quarto, agora concluidamente fechada numa tentativa de tapar a dor de todos aqueles que permaneceram.

Durante as cenas, eles decupam os últimos momentos que tiveram com Letícia detalhadamente, procurando neles pistas mas, aparentemente, não há nada que possa auxiliar em alguma conclusão. Percebemos, então, que a peça é sobre mais do que apenas o suicídio. É sobre a dor daqueles que ficam, sobre como tentamos encontrar lógica por trás de uma atitude tão trágica, numa tentativa de aliviar um pouco a tristeza que sentimos quando alguém querido parte.

Enquanto assistia, percebi que a potência da peça está além da técnica dos atores, da dramaturgia ou da encenação. As vezes, olhava para os lados e via meus próprios amigos emocionados com o que presenciavam, absortos na tristeza da ficção que movia-se do palco e adentrava nas experiências de cada um. Eu mesma não conseguia afugentar minhas próprias memórias enquanto assistia, e foi nesse momento que compreendi que o que havia ali, nesse acontecimento efêmero, era um tipo de comunhão. Todos já haviam perdido alguém, e toda aquela confusão nas quais as personagens se encontravam era a mesma bagunça que nos acomete quando temos que nos despedir de alguém.

O conflito não estava na história que se desenvolvia perante nossos olhos, iniciava-se na obra e tomava corpo nos próprios espectadores. Os que assistiam incorporavam o próprio luto à peça, qualquer um, naquela sala, poderia ser algum dos sujeitos interpretados pelos atores, repletos de dúvidas, de dor e a procura de um entendimento acerca do mistério que é a morte. Se as personagens não encontram respostas, tampouco nós conseguimos fazê-lo.

No fim, penso que Como Cavalgar um Dragão também é sobre as mudanças que somos obrigados a enfrentar, as coisas pequenas para o universo como um todo, tão frágeis se comparadas às tempestades, mas que nos impactam violentamente.

Acredito que muitos também se perguntam sobre o título da peça, que dragão é esse que pensamos em como cavalgar…

Mas eu, pessoalmente, nunca vi um dragão. Se alguém viu… Bom, duvido muito que queira estragar o mistério que mobiliza a nossa imaginação a pensar sobre eles, muito menos sobre como domá-los. Acho que deveriam ser livres, mutáveis, efêmeros… Como a arte, a vida e, portanto, a morte, em toda a incompreensão que temos a respeito delas.

 

Foto: Nós em Arte.

 

***

Ficha Técnica

 

Elenco: Cláudia Carvalho, Dani Dutra, Mariana Fernandes, Nairim Tomazini e Pedro Schilling

Direção: Henrique Strieder e Pedro Schilling

Assistência de direção: Renata Lorenzi

Dramaturgia: Diogo Liberano

Orientação: Luciana Éboli

Criação de luz: Henrique Strieder

Operação de luz e som: O Grupo

Estágio de Atuação de Nairim Tomazini e Pedro Schilling

Foto: Renata Lorenzi

 

 

 

 

Qorpo Qrítico – Vol. 02, n. 04, junho a setembro de 2020. ISSN 2675-4207.