Fugindo de si mesma: entre linhas, cordões e correntes

Notícias de jornal, remédios, boletos, mais boletos, mais remédios, mais notícias de jornal. Cordões que se cruzam e entrecruzam revelando o desenho bruto do entorno da vida de cada um de nós. Em um deles, porém, uma reportagem grita: “Menina de trinta e poucos anos acaba no hospital após tomar uma cartela de remédios”. Outra anuncia: “O índice de depressão entre jovens mulheres é o maior dos últimos 20 anos”. E uma terceira conclui: “Cresce o número de mulheres com comportamento de risco: sexo, drogas, álcool”. Enuncia-se a morte. Explode uma temática. Vidas de mulheres importam?

Cordões de Cordélia, espetáculo sob a direção de Carô Conceição (direita) e Cláudia Carvalho (esquerda), finaliza para o mês de dezembro a temporada 2022 do Projeto TPE (Teatro, Pesquisa e Extensão) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Foto: TPE/UFRGS, Chamada Instagram, 2022.

Conta-se na mitologia grega um fato interessante. Nela, as Parcas (ou Moiras), três irmãs de aspecto sombrio, seriam as entidades responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio de vida dos seres humanos, determinando assim o destino deles desde seu nascimento. Seu objetivo seria o de lembrar aos mortais que não importa o quanto tentem conduzir sua própria vida, ao fim, serão reféns da fortuna pois os cordões de nossa existência já estariam traçados. Cordões de uma vida. Cordões de Cordélia. Este, o nome da peça para o mês de dezembro do Projeto TPE 2022 (Teatro, Pesquisa e Extensão), da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), na Sala Qorpo Santo, apresentadas todas as quartas-feiras, às 19h30, com as atrizes Carô Conceição e Cláudia  Carvalho, ambas intercalando-se no papel principal para trazer consigo considerações importantes sobre saúde mental, especialmente sob a perspectiva das mulheres.

Inspirada na dramaturgia Lobo de Óculos: Uma Trilogia Onírica, de autoria de Carina Corá, a peça traz reflexões sobre a vida de uma mulher, Cordélia, que apresenta-se engolida pelos seus próprios pensamentos ao mesmo tempo que busca – de todas as formas possíveis – escapar dessa realidade opressiva. Para tanto, a personagem acaba buscando ajuda pelas vias institucionais e tradicionais, pelo uso de medicamentos antidepressivos e também a partir de sessões de terapia de grupo, mas sem obter sucesso algum, acaba optando por aventurar-se no mundo das drogas, do álcool e do sexo, fabricando sua própria realidade junto a diversas situações, destacando-se sua relação com o solitário bartender do bar da esquina, que pode (ou não) ser um fragmento de sua própria imaginação. Manifesta-se, portanto, uma atmosfera onírica, similar a um sonho, com cenas fragmentadas e não necessariamente lineares, que vão aos poucos dando os contornos da vida de Cordélia.

Cordélia: Terapia de grupo, luz de açougue, cadeiras milimetricamente ajeitadas em círculo. Eu vazia, eu sozinha no meio de um bando de gente. Eu humilhada pelos meus próprios pensamentos. Uma mulher que dorme. Uma batida rítmica da caneta de um homem sentado ao meu lado aguça minha percepção, eu sempre ouvi muito bem, me orgulho disso, uma das minhas poucas qualidades junto a um consumo extraordinário de remédios e uma prática constante de sexo.

(Carina Corá, Lobo de Óculos: Uma Trilogia Onírica, 2018.)

Tendo se originado junto ao trabalho final da disciplina de Dramaturgia do Encenador, do DAD (Departamento de Arte Dramática), da UFRGS, Cordões de Cordélia carrega consigo muitas das características e contradições de um trabalho que foi concebido dentro das premissas de uma disciplina de universidade, trazendo consigo a difícil missão de conciliar dois pontos de vista aparentemente contraditórios: 1) alinhar o caráter de peça imaginada dentro de um contexto disciplinar, sob o olhar de um professor acadêmico, apresentada prioritariamente para um público diminuto e seletivo (usualmente colegas de curso), e pensada de forma livre das pressões de uma audiência mais ampla e das exigências de uma montagem mais séria; 2) para também tentar incorporar as demandas que um projeto sob a regência de um edital, tal como o Projeto TPE irá exigir, e que por estar aberto ao grande público, demanda também uma postura mais profissional do elenco, tanto em sua concepção cênica quanto na execução do trabalho. Como elemento agravante, Cordões de Cordélia também adiciona outro patamar de dificuldade, pois sua primeira versão foi concebida de forma digital, em vídeo, devido a pandemia de COVID-19, com os participantes tendo que reconfigurar os elementos cênicos da linguagem audiovisual para a linguagem teatral.

O desenrolar de fios de barbante realizado ao longo da cena pelas atrizes também é um outro elemento de destaque. Eles acabam amarrados em vários pontos do cenário, entrecruzando-se com os já dispostos no palco, evocando-se a imagem de uma linha da vida errática, com cada atravessamento, cada amarramento, representando os encontros, os choques da vida de Cordélia. Foto: TPE/UFRGS, Divulgação, 2022.

Se antes, em formato virtual, a cena acaba restrita a uma tela de computador, em um pequeno quadrado imagético com espaço de exposição limitado, no palco de teatro a história é outra. Para a versão presencial, outra linguagem se instaura, com o grupo fazendo escolhas arriscadas e corajosas. No desenho da cena presencial, por exemplo, revela-se jornais, bulas de remédio, blisters (o lugar onde os remédios estão), dentre outros objetos, que estão pendurados em varais de barbante por todo o palco da Sala Qorpo Santo. Junta-se a eles um cofre com objetos, um sofá com uma mesinha ao fundo, e do lado direito do espectador um bar improvisado com bebidas, que as atrizes interagem ao longo da peça. A imagem que se constrói tem um forte caráter onírico, de beleza ímpar – com destaque para os cortes entre uma cena e outra, com as projeções, iluminação e escolhas musicais delineando e ilustrando bem a dramaturgia –, anunciando também consigo as principais temáticas da peça: a importância do tema da saúde mental feminina na contemporaneidade e a forma esguia com que Cordélia lida com seu sofrimento a partir de uma fuga da realidade.

Outro ponto de escolha cenográfico foi o de não usar o espaço da plateia da  Sala Qorpo Santo para disposição do público, optando por acomodá-lo junto às atrizes, no palco. Tal escolha talvez resida na intenção de acentuar o caráter intimista da peça, para criar assim uma relação mais próxima dos espectadores com a cena, e também com a personagem principal. Assim, ao invés de usar a capacidade total da sala, que conta com 163 (cento e sessenta e três) lugares em casa cheia, foram disponibilizados apenas 30 (trinta) lugares no palco, havendo vista que o espaço embaixo do palco é oco, e com isso um número maior de pessoas poderia acarretar em riscos para todos os envolvidos.

Aqui, no entanto, começam algumas de nossas inquietações. Tomemos, por exemplo, as razões por que o grupo escolhe priorizar uma estética intimista, com recorte limitado de espectadores para assistir a peça, sendo que o Projeto TPE também faz parte de uma ação que visa popularizar e facilitar a ida ao teatro por parte do grande público, para garantir assim que pessoas que nunca antes foram ao teatro consigam pela primeira vez assistir peças gratuitas e de qualidade no espaço da universidade. Nesse sentido, com apenas três apresentações mensais para o mês de dezembro, há de se imaginar que todo o público possível no palco o máximo atinja um total de 90 (noventa) pessoas, com casa cheia, versus um total de 489 lugares de plateia, também com casa cheia; um valor aproximado de 20% do total de pessoas. Uma restrição considerável. Tal perspectiva reacende a discussão importante sobre qual deve ser nossa prioridade enquanto artistas da cena, gerando algumas reverberações necessárias sobre democratização do acesso à arte e a cultura, e se não estamos armadilhados – mesmo sem perceber – negligenciando os valores de um dos principais dos pilares da universidade, a Extensão (também ressaltando que o próprio Projeto TPE (Teatro, Pesquisa e Extensão) carrega em seu nome tal conceito), que deve fazer essa ponte entre o que é produzido institucionalmente e a comunidade de Porto Alegre:

Como reflexo das salas de aula e laboratórios de pesquisa, a Extensão tem presente a possibilidade de propor e executar projetos interdisciplinares, inspirados na solidariedade e na inclusão dos setores marginalizados, de modo que a tarefa política profunda da Universidade consista em seu aporte no crescimento de diferentes setores sociais.

Pró-Reitoria de Extensão (PROREXT-UFRGS), 2022.i

Outra inquietação que destacamos é que com tal escolha, de colocação dos espectadores no palco, o desenho da cena, por mais esteticamente bonito que seja, acaba também reforçando alguns problemas de montagem que por ora poderiam passar desapercebidos. Ao longo da peça, por exemplo, por mais de uma vez não foi possível observar o corpo, nem o rosto das atrizes em certos momentos, pois os jornais ou papéis pendurados obstruíam sua imagem, ficando em sua frente, atrapalhando a composição e andamento da cena. A movimentação das atrizes também acabou prejudicada, pois era difícil delas se mexerem sem ter que desviar de algo, ou trombarem em algum objeto, quebrando a imersão atmosférica e atrapalhando o desenrolar da dramaturgia.

Na foto, Cordélia e seu confessor Bartender brindam. A troca entre as personagens na cena é um elemento interessante mas também pode acabar atuando contrário a dramaturgia. Se por um lado, expande o caráter onírico da peça, fragmentando-a, beirando um surrealismo leve, revelando elementos interessantes, por outro, também pode confundir o espectador, que demora para retomar o desfecho da cena. Foto: Própria. 2022.

A troca constante do papel de Cordélia entre as atrizes também merece algum comentário. No decorrer da peça, ora Cordélia era representada por Cláudia, ora por Carô, e vice-versa, com a troca de tais personagens reforçando o elemento onírico do texto dramático, no intuito de confundir os papéis, coringar as personagens, multiplicando com isso as possibilidades de interpretação do texto dramático. Nesse sentido, é uma ideia interessante e corajosa, que possui muito potencial para ser explorada em cena, mas por outro, da mesma forma que num sonho as coisas podem subitamente se transmutar para um desfecho caótica, a execução de tais ações podem dar origem a uma certa margem de interpretações confusas mesmo no espectador atencioso. Como exemplo particular, eu mesmo nunca percebi quando a troca da personagem (de Cordélia para bartender, e vice-versa) era realizada – algo que só foi revelado por uma colega no pós-peça que era quando as duas atrizes brindavam seus copos – o que fazia com que eu flutuasse pelo texto dramático, provocando uma certa dispersão, não conseguindo apreendê-lo em toda sua potência. A falta de um corpo cênico que diferenciasse tais personagens ou mesmo de um elemento de ancoragem (um cachecol, um anel, alguma roupa em específico) corroborava com tal questão, e muitas vezes poderia ficar difícil para o espectador descobrir quem é Cordélia em momentos específicos da dramaturgia.

Por último, e talvez o item mais importante, gostaríamos de enaltecer a importância da dramaturgia que foi escolhida pelo grupo – que também é de autoria de uma escritora local, Carina Corá, aqui de Porto Alegre – destacando com ela o respeito e o cuidado dos integrantes com a temática da peça: reflexões estéticas sobre saúde mental, especialmente das mulheres. A história de Cordélia, assim como muitas mulheres próximas de nós (mães, parentes, amigas, e colegas), conta o drama pessoal de uma personagem que acaba vítima de uma máquina opressora que adoece os corpos, forçando-as a se medicalizar para performar certos atributos, gerando um sofrimento agudo nestas pessoas quando tais intervenções não funcionam. De forma análoga a uma mosca presa numa teia, a trama parece sem saída e circular, e a fuga da realidade aparece como o único caminho possível para Cordélia obter algum alívio. Assim, o uso abusivo de álcool, drogas e sexo – muito sexo, como a mesma já diz – se instaura, até o ponto em que suas ações chegam a enredá-la cada vez mais. A cena final, nesse sentido, é de extrema sensibilidade, sendo muito poética e bonita, revelando uma ação na qual uma das atrizes vai recolhendo o cordão que foi lançado e entrelaçado no palco, até chegar a sua dona, Cordélia, sugerindo um possível desfecho final da trajetória da personagem. Nela, seu tempo esvaiu-se, não há mais fuga, pois já não há mais corda, não há mais cordões, não há mais vida. As Parcas terminam seu trabalho.

Cordões de Cordélia é uma peça importantíssima pela temática de saúde mental que se propõe a trabalhar e também por ser inspirada em uma dramaturgia produzida pela cena local, Lobo de Óculos: uma trilogia onírica, de Carina Corá, demonstrando uma sensibilidade que valoriza as artistas-escritoras-mulheres de Porto Alegre. Na foto, a atriz Carô Conceição no papel de Cordélia. Foto: TPE/Divulgação, 2022.

Cordões de Cordélia, em suma, é uma peça interessante de ser assistida e analisada – e por que não? – criticada. Ela revela a dificuldade de adaptação de um trabalho concebido dentro de uma disciplina de universidade, revelando os contratempos de uma adaptação possível – seja do virtual para o real, seja de uma sala pequena para uma sala grande de teatro, a Sala Qorpo Santo, seja de uma dramaturgia completa para fragmentos de cena.

Nesse sentido, se manifesta como um trabalho com muitos pontos positivos, mas também com um pouco de timidez, ficando atravessada entre o lugar de uma peça completa bem delineada, em que todo o elenco assume a responsabilidade pelo trabalho, e o lugar de uma peça ainda em construção, fruto de um trabalho de disciplina de universidade, cujos objetivos são o de aprendizado e experimentação cênica, mas sem a pressão de uma audiência maior. A falta de praticidade da cenografia e a troca confusa entre as personagens, que atua prejudicando as atrizes, assim como a escolha estética de representação para um público diminuto e restrito, mesmo que busque evocar uma atmosfera intimista, são pontos importantes a serem revistos e considerados.

Ao mesmo tempo, destacamos que a escolha de uma dramaturgia – de autoria local (valorizem as artistas locais!) – com uma temática importante, que fala sobre saúde mental, em especial de mulheres, são preciosas escolhas do grupo, assim como as decisões acertadas das projeções, música e iluminação, que colaboraram em muito para enaltecer o elemento onírico da cena, sendo estes pontos altos a serem destacados. Por fim, acreditamos que também há espaço para que a peça se aprofunde ainda mais na temática de saúde mental, com a dramaturgia podendo ser expandida para além do drama individual de uma só mulher, incorporando elementos coletivos e de classe, buscando trabalhar também as raízes psicológicas e sociais que adoecem as mulheres. Nesse sentido, cabe também afirmar e perguntar: Cordélia não está sozinha. Se vidas de mulheres importam, seriam algumas vidas femininas mais importantes do que outras?

ihttps://www.ufrgs.br/prorext/prorext/ Acesso em 21/dez/2022 às 16h45min.

FICHA TÉCNICA

Sinopse: A dramaturgia escolhida é parte integrante da obra Lobo de Óculos: Uma Trilogia Onírica, de Carina Corá. Cordões de Cordélia apresenta uma personagem engolida pelos seus próprios pensamentos que busca subterfúgios para escapar de uma realidade opressiva, primeiro, pela via tradicional, através de medicamentos antidepressivos numa sessão de terapia grupal. Sem sucesso, ela busca inspiração para construir sua realidade fantasiosa no bar da esquina. Possui, portanto, um caráter não linear, criando uma atmosfera semelhante à do sonho. A trama acompanha a história de personagens psicológicos do submundo que interagem e confundem-se entre si, buscando superar a realidade opressora através da fantasia.

Elenco e Direção: Carô Conceição e Cláudia Carvalho

Captação de Imagens: Leonardo Pradella

Orientação: Inês Marocco

Iluminação, Cenário e Concepção de Figurino: Carô Conceição e Cláudia Carvalho

Dramaturgia: Carina Corá

Dias 7, 14, e 21 de Dezembro, na Sala Qorpo Santo, às 19:30h. (Sessões com público reduzido)

REFERÊNCIAS CONSULTADAS

CORÁ, Carina. Lobo de Óculos: uma trilogia onirica. Editora PUC-RS: Porto Alegre, 2018.

FOLHA DE SÃO PAULO. Jovens e Mulheres são os mais afetados por depressão e ansiedade na pandemia. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/09/jovens-e-mulheres-sao-os-mais-afetados-por-depressao-e-ansiedade-na-pandemia.shtml>. Acesso em: 21/dezembro/2022.

INSTITUTO DE ARTES. Sala Qorpo Santo. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/institutodeartes/index.php/espacos-culturais/sala-qorpo-santo/> Acesso em: 21/dezembro/2022.

PRÓ-REITORIA DE EXTENSÃO-UFRGS (PROREXT). A PROREXT. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/prorext/prorext/> Acesso em: 21/dezembro/2022

UFRGS TV. Cordões de Cordélia – Efêmera Arte. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=eOLUWiGTX5Y&ab_channel=UFRGSTV> Acesso em: 21/dezembro/2022.


 
Qorpo Qrítico – Vol. 05, n. 11, novembro de 2022 a fevereiro de 2023. ISSN 2675-4207.