“Isso não é um manifesto” faço minhas as palavras de um trecho do espetáculo “A mulher que queria ser Micheliny Verunschk”. Essa crítica tem como objetivo a minha subjetividade: Crítica ou desabafo?
“ESSE TEXTO AINDA É UMA CRÍTICA?”
“GOSTOU OU NÃO GOSTOU?”
“será que to parecendo arrogante?”
“ISSO NÃO ERA ENTRETENIMENTO? TU DEVIA TER FICADO FELIZ”
“Será que eu consigo escrever sobre essa peça?”
“É BOM OU RUIM???”
“eu escrevo mal”
Acredito que não existe espectador neutro, nem artista neutro e nem crítico neutro. O meu contato com aquilo que me cerca é influenciado pela pessoa que sou. Dito isso, reitero que não escrevo para validar, resumir ou avaliar. Escrevo agora com o único intuito de compartilhar como fui tocada por essa peça.
Assisti duas vezes, a primeira no Theatro São Pedro, em meados de 2024, numa mostra que buscava retomar as atividades culturais do estado, após a enchente. Naquele momento estava me sentindo completamente perdida e desconexa, repensava todos os aspectos da minha vida. Fiquei extremamente comovida. Era difícil colocar em palavras o que assisti, senti que as minhas emoções eram como águas agitadas que deixam o mar turvo. Passei um bom tempo pensando na história dessa mulher, na minha história, e no que nos move a contar histórias.
Soube que a peça teria uma nova temporada, em abril de 2025, dessa vez na sede da Cia. Stravaganza. Em uma dessas sessões estava a oportunidade de assistir a esse trabalho com mais nitidez, afinal estou em outro momento. Me enganei, as emoções foram outras, mas não menos expressivas, e percebo que também errei em achar que elas me afastam de uma reflexão sobre a obra.
A peça é baseada no livro homônimo de Wilson Freire. Nela, Verunschk é uma escritora de Recife, cidade portuária. O cotidiano do local é atravessado por homens que cruzam a linha do equador, chegam na cidade e logo partem deixando filhos, saudades, cicatrizes. Essas passagens moldam a identidade daqueles que sempre ficam.
Ela escreve sobre suas vivências. Viveu uma série de opressões. Tentaram colonizar sua escrita, tentaram fazer com que ela fosse menos Micheliny Verunschk. Eu queria dizer que não conseguiram, que isso não atinge a ela (e nem a mim), mas não posso. A gente para de se reconhecer, de sonhar e de escrever. Depois volta sem saber porque. Volta feliz, dançando pela casa, escrevendo até faltar papel, até faltar parede.
Mesmo sem uma resposta fixa, é importante poder fazer perguntas, como é bom ser afetada por esse espetáculo. A atuação de Sandra Possani consegue ser precisa e humana, fazendo uma ponte entre o público e a trama, questões individuais e problemáticas sociais. Somos conduzidos numa viagem entre as linguagens, memórias e emoções. Mesmo as transições para os momentos mais densos são graduais e suaves, há tempo para a escutar a atriz e há espaço para a escuta de si mesmo.
Para mim, a peça ainda não acabou completamente. Suponho que vou pensar nela de novo, quando tentar reunir pedaços da minha história, quando tiver dificuldade em me reconhecer, e principalmente nos momentos em que é preciso dançar sobre os escombros.




Ficha técnica
Atriz: SANDRA POSSANI
Diretora: ADRIANE MOTTOLA
Texto: WILSON FREIRE
Dramaturgistas: FERNANDO KIKE BARBOSA / ADRIANE MOTTOLA / ANGELA SPIAZZI / SANDRA POSSANI
Diretora de Movimento e Assistente de Direção: ANGELA SPIAZZI
Cenografia: RODRIGO SHALAKO
Figurino: LIANE VENTURELLA
Iluminação e Videografia: RICARDO VIVIAN
Cena Sonora: ÁLVARO ROSACOSTA
Música: EL TIEMPO TEJE HISTÓRIAS (Álvaro RosaCosta) / Arranjo, violão e charango: Beto Chedid / Voz: Simone Rasslan / Edição e percussão: Álvaro RosaCosta
Maquiagem: MIRIÃ POSSANI
Designer Identidade Visual: PINGO ALABARCE
Assessor de Imprensa: LAURO RAMALHO
Redes Sociais: SIANO
Produção: DUDA CARDOSO
Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 18 – abril a julho de 2025. ISSN 2675-4207.
