Em cena, um grupo de mulheres ocupa o centro do palco. Uma luz azul ilumina suas
roupas brancas e com tons rosados. O cheiro do incenso na entrada me acompanhou
até a cadeira. Assistir da primeira fila, assim, tão próxima aos artistas, me levou a uma
entrega que fez meu coração transbordar em lágrimas ao longo do espetáculo e que
agora, ao escrever, escuto sussurar aos meus ouvidos uma palavra: cidadania.
Mas o que é cidadania, afinal?
Com uma pesquisa rápida podemos chegar à ideia de que cidadania é a condição de
pertencimento de um indivíduo a uma comunidade política, traduzida no conjunto de
direitos e deveres civis, políticos e sociais e sustentada pela participação ativa e pelo
respeito ao bem coletivo. Cidadania, então, é o estado do cidadão.
E cidadãos somos todos que vivemos em determinados territórios.
Assim, deveríamos ter direitos, deveres e oportunidades distribuídos com equidade. E
esse espetáculo nos mostra uma das faces cidadãs mais bonitas.
O coletivo Múltiplos, de dança inclusiva, autor do espetáculo Multiplicidades,
apresentado nos dias 12, 13 e 14 de junho na Sala Álvaro Moreira, tocou nos ossos da
minha humanidade e fez novamente aquilo que a arte, ao meu ver, sabe fazer melhor:
tocar o coração. No meu caso, também retirou algumas ranhuras cultivadas pelas
lógicas de superioridade, inferioridade e competitividade que nos fazem tropeçar no
próprio chão que nos acolhe.
Imaginem pessoas com diferentes deficiências e outras consideradas sem deficiência
dançando juntas. Uma dança em que as diferenças são reconhecidas e respeitadas;
em que o tempo do outro é levado em consideração; em que ninguém deseja ser
melhor que ninguém e, ainda assim, ninguém precisa apagar sua individualidade.
Instaurou-se um mundo possível, mais harmônico, que emergia daquelas cenas
construídas entre improviso e presença.
Teve calça sendo arrumada porque estava caindo. Teve nome sendo chamado para
sair da cena. Teve alguém caindo e levantando enquanto seguia aproveitando o
momento. Tudo me tocou porque abriu um espaço genuíno de vida. Uma vida que não
busca uma perfeição rígida, mas encontra potência nas próprias imperfeições.
Aquilo que poderia parecer “fora” dentro de um espetáculo convencional de dança
nesse se fazia dentro. Nada era deixado de lado. Tudo estava incluído. E isso é o
cotidiano. E é lindo justamente porque é honesto. Porque é humano.
Fazer isso hoje, em meio a guerras, crises ambientais e sofrimento coletivo, é
revolucionário. As bailarinas trocavam de figurino nas laterais do palco com ajuda da
equipe de produção. Entre uma cena e outra, surgiam palavras espontâneas.
“Uau. Essa dança foi demais”, disse uma bailarina ao terminar sua apresentação. E foi
mesmo, querida.
Todos vibravam com esses comentários.
As asas do pássaro construídas pela mão da bailarina Flávia do Canto junto à mão da
bailarina Denise Brose me pareceram representar a força da união e a importância de
contar com o outro para se fazer expandir, como bem sublinhou, Vera Coronel, o limite
autoimposto, ao interpretar o verso atribuído a Machado de Assis: “cego é aquele que
não vê o próximo”.
Multiplicidades convocou o olhar do público para as pessoas e suas vidas de forma
sensível, compartilhando vivências e textos autorais que colocam qualquer pessoa num
espaço de empatia profunda. E quando isso acontece, é porque a arte mostrou, mais
uma vez, do que é capaz.
Em uma das cenas, ao ver a diretora do Múltiplos, Carol Tasso, dançando, senti um
orgulho imenso. Ela, mãe atípica de quatro crianças, apareceu ali como artista
profundamente enraizada naquilo que acredita que o mundo precisa em suas ações e
em seu sorriso de quem abraça o mundo.
A cena final era um carnaval. Uma celebração cheia de alegria, em que os artistas se
organizavam em grupos de três ou quatro pessoas, diversos em corpos e movimentos
livres ao som de uma música sobre liberdade. A luz focalizava um grupo por vez e
depois se abria revelando todo o espaço. Isso me trouxe uma reflexão: cada grupo na
sociedade merece ser visto, celebrado em seus direitos e reconhecido em suas lutas
pelo bem-estar coletivo.
Todos livres para dançar.
Todos livres para existir.
De fato, Multiplicidades é um espetáculo que poderia circular pelo Brasil promovendo a
sensibilidade necessária para pensar novas políticas públicas de incentivo à arte, ao
pertencimento e à acessibilidade. Mas também para compartilhar o acalento de ver
pessoas com e sem deficiência criando juntas em cena, num improviso perfeito, com
todas as suas ‘imperfeições’ sinceramente perfeitas.
Tal como a vida. Bela e, muitas vezes, com momentos que consideramos imperfeitos.
Cheia de espectros e sabores. Mas que, dando as mãos à arte, pode tornar mais leve o
caminho da aceitação, da liberdade e do direito de ocupar seu espaço — na cidade, no
palco e onde mais quiser ser.






FICHA TÉCNICA – MULTIPLICIDADES:
Elenco:
Adronilda Santos da Conceição
Aramis Prado Albuquerque
Brenda Brasil
Carlos Gonçalves
Caroline Tasso
Cleonice Terezinha Conceição Ferreira
Denise Schaun Brose
Eleonora Bettiol Prado da Silva
Flávia Praxedes do Canto
Franciele Cardoso da Rocha
Gisele Paim de Souza
Ilza do Canto
Inês Oliver Sil
Katie Baldigen Niedermeier
Mateus Gonçalves
Miriam Baldigen Niedermeier
Tatiana De Lima Pinheiro
Vera Coronel
Direção:
Caroline Tasso
Ilza do Canto
Operador de iluminação:
Osório Antônio Rocha
Operador de som:
André Luis Cordova Brasil
Fotografia:
Sany Brasil
Apoio: Turma de estudantes da disciplina de Produção Cênica do curso de Licenciatura em Dança da
UFRGS
Qorpo Qritico – Vol. 8, n. 21 – abril a julho de 2026. ISSN 2675-4207
