Não feche os olhos

O projeto Novas Caras 2025 traz ao palco a peça “Retalhos ou porque algumas pessoas dormem com cadáveres”. O trabalho surgiu no Departamento de Arte Dramática da UFRGS, e tem como proposta causar horror, ao expor o lado bizarro de uma família aparentemente pacata. A obra se baseia na história real de um serial killer.

 

[cadeira de balanço] [mesa posta] [sopeira, toalha de crochê] [máquina de costura]

 

Tudo simples e aconchegante. Mas será que essa casinha é realmente acolhedora? Individualmente os elementos do cenário de “Retalhos” carregam esse aconchego. Entretanto estão espalhados pelo palco como ilhas, há espaços vazios e escuros entre elas e por algum motivo os móveis parecem não estar em harmonia.

 

Pai, mãe e filha se reúnem na mesa do centro para jantar, conversar e jogar carteado. Na cadeira de balanço ocorrem os momentos mais afetuosos. Os diálogos internos e preces ocorrem nas laterais. Algumas aparições surpreendem, pela proximidade com o público. 

 

Mas há um cantinho que se destaca: o da máquina de costura. Sobre ela máscaras penduradas e uma iluminação quente, que a destaca dos outros ambientes. Ali ocorrem as grandes transformações, sejam físicas, psicológicas ou dramatúrgicas.

 

De certa forma o público também costura. Lembranças, conflitos e revelações se sobrepõem. A peça que se mantém instigante, mesmo sem pressa para acontecer. Silêncios, pausas e repetições de hábitos são importantes na ambientação da aparente tranquilidade, e também dão ao público tempo para juntar retalhos e entender o que os motivou a viver nesse lugar.

 

As atuações mostram uma precisão coreografada, e são fundamentais para expor contrastes. Especialmente no caso da mãe, que mescla momentos de submissão e autonomia, afinal, quando essa mulher pode ser ela mesma e quando é o que projetam nela?

 

Roteiro, luz, cenário, objetos, trilha, trama… tudo se encaixa, como se alguém meticuloso estivesse no controle.

 

Costurar os retalhos dessa obra faz com que o público esteja ativo, como em uma investigação. Cada detalhe dessa engrenagem se torna uma peça importante na construção de sentido. A busca pelo desfecho amplia a percepção, expectativa e o choque.

 

 

 

 

 

Equipe

Direção: Ale Agnes.

Atuação: Adami, Laura Fensterseifer, Victoria Muraro, Sofhia Lovison.

Dramaturgia: Adami, Ale Agnes, Laura Fensterseifer, Victoria Muraro.

Iluminação e Trilha Sonora: Ale Agnes.

Cenografia e Indumentária: Companhia Espectral.

Operação de Luz: Roberta Eltz.

Operação de Som: Eduard Pereira.

Produção: Companhia Espectral.

 

Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 19 – agosto a novembro de 2025. ISSN 2675-4207