Pííííííííííííííííííí
RUÍDO.
Uma janela dançando cortina.
Branco vazio de janela de grades.

Passamos por pincéis manchados de tinta e folhas secas, a câmera lentamente se abre para o cômodo de caixas e quadros empacotados. Andréia entra em tons terrosos fazendo conjunto com as cores da sala empoeirada. Terra e pó contrastam amarelo da porta e girassol que parecem ser as únicas coisas vivas dali.

Andréia tenta falar e as palavras não saem, parece difícil formular a frase.
É difícil quando a gente tenta dizer o que não quer que seja dito. Seu olhar por vezes vago e noutras dolorido com a voz embargada de quem se sente só.
Não é fácil puxar o barco sozinha. Só quem naufraga sente o peso de saber afundar.
Dê play aqui →
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise
Pegue essas asas quebradas e aprenda a voar
Durante sua vida toda
Você só estava esperando este momento para decolar
Pegue estes olhos fundos e aprenda a enxergar
Durante sua vida toda
Você só estava esperando este momento para ser livre
Todos fugiram e só eu fiquei, diz Andréia. Às vezes tem disso pra quem fica. Como se o mundo pesasse só nas tuas costas. Um pouco de ego. Quebrado. Mas ego.

Depois das discussões mesquinhas de Rita e Inácio, é na conversa de Odilon com Andréia que descobrimos o que está acontecendo que é motivo pelo descarrilhar dos trilhos na vida de todos dessa estória. Todos têm uma amiga em comum, a Lila. Que se matou.
Você foi embora e a gente têm que lidar com essa tua ausência nos consumindo.
To com tanta raiva e com medo.
Medo de lembrar errado.
A gente se enxerga na solidão. Todo mundo se sente só. Às vezes. Ou sempre. Solidão já é um buraco na palavra. Só. Sozinho. Essa imensidão cheia de nada que abre sem explicação dentro da gente. Tem pessoas que fogem, como Odilon. Que correm, correm e voltam pro mesmo lugar, que é dentro. Tem gente que finge que nada está acontecendo, como a Inácio. Que continua continuamente não sentindo e reclamando da vida que vai passando, reclamando o All Star que quer caber no seu pé, que quer continuar cabendo em um lugar que não existe mais. Outros ainda, como a Rita, se medicam descontroladamente… fumam tentando tragar e preencher o vazio com fumaça e boletas, aceitando migalhas de um quase amor porque falta o próprio, sobrevivendo anestesiados a qualquer custo. Tem também as Andréias, que engolem seco e burocraticamente fazem o que tem que ser feito, seguem as cartilhas do fazer e se sentem confortáveis na posição de dever cumprido.
Depois de longos caminhos solitários mostrando como lidar com a morte, ou como cavalgar um dragão, esses amigos se encontram ao final.

Play aqui →
Falar sobre a morte é um tema ingrato e com muitos vieses. A morte em si não precisa ser fim. Não sabemos, afinal. Falamos do que sabemos. Sobre quem fica, sobre o que se sente após, sobre o que sobra.
Sobre como somos atravessados.
Sobre como se cavalga um dragão.
Já perdi um bocado de gente na minha vida, mas faz uns anos um amigo meu se suicidou.
Tem um chão que se abre e não tem onde pisar e tudo que é dito parece não fazer sentido.
Durante um tempo fui Inácio e fingi não ter acontecido nada. Não fui no enterro, não falei palavras bonitas pra ninguém.
Ele tinha escrito um livro, foi publicado um tempo depois e não li.
Vou ler.
Vou ler.
De tudo que tem, acho que não tem como não sentir um bocado de culpa, independente do que ou o quanto ou de que forma se esteve na vida dele. Odilon talvez seja o único que verbalize essa culpa, intrínseca que se sente de quem continua.
É esse ego que tá aqui dentro que não deixa o outro.
Procuramos indícios, momentos, olhares e palavras que foram ditas ou que deixaram de ser, tentar explicar alguma coisa pra gente mesmo. É uma necessidade de ser humano de repente. Ou minha. Já que sempre tento colocar a culpa na humanidade dos meus próprios sentimentos.
Culpa é foda né. Culpa cristã que se carrega por essas bandas do ocidente.
Mas tem um misto com saber deixar ir, de tentar de algum jeito entender que as escolhas cabem a cada um e que a vida é por aí. Também.
Mas é uma saliva que não desce, um embrulho que não sai do estômago, uma falta de ar que acelera o coração.
Pensei não falar dele hoje, mas estou falando, porque foi importante pra mim e isso me lembra. Por sugestão de um amigo que me é caro, e sabe da importância também de a gente colocar as coisas pra fora que a gente tenta por tempos esquecer e fingir não ter mais nada que doa.
Solidão. Fico pensando em quantas vezes ele se sentiu sozinho ou sem chão.
A Lila e o meu amigo tem muitas coisas em comum.
Em quantas vezes a dor é tão grande, as asas estão tão quebradas e se tem um desejo tão grande de se sentir livre e acabar com a dor.
Não tenho que achar nada, mas eu diria que tem que ter um jeito de voar sem doer. Não que eu saiba qual é, mas também estou buscando.
Play aqui →
Fazer teatro não é simples, mais difícil ainda transpor uma peça já realizada com um texto escrito para esse tipo de montagem para o audiovisual. Lendo a dramaturgia entendo algumas escolhas, mas a concepção das abordagens poderia ter ido para outros lugares. Claro que sim, sempre, normal. O texto já se dá numa perspectiva de quem fica e pouco aprofunda um tema tão sensível como a morte e com tantas camadas como um suicídio. O viés é a relação entre esses cinco melhores amigos e em como o suicídio de uma das amigas do grupo os atinge, como eles recebem e como essa relação se transforma.
Não sei se o tempo de duração é exigência de edital ou uma tentativa de não se fazer alongar diante da tela, mas sinto que não terminou. Não tem tempo, ou, novamente as escolhas de cena, deixam lacunas nas relações entre esse grupo de amigos. Os desentendimentos, que no texto original se dão no mesmo espaço físico, se transformam em curtos diálogos, aparecendo pequenos conflitos internos e fruto de como estão transparecendo esta morte. Sinto que algumas cenas importantes para o melhor entendimento de partes da história das personagens foram cortadas do texto original, como a que mostra o relacionamento da Rita e faz com que tenhamos mais afinidade com os dramas existenciais dela. A falta do conflito em conjunto do grupo perde um pouco do clímax, citando por exemplo, na dramaturgia base, enquanto todos estão no mesmo cômodo discutindo quem fica com o que das coisas de Lila, Inácio engole a chave da porta de saída para que a situação entre os amigos se resolva e que não se deixe passar mais tempo apenas com brigas a respeito de objetos e no que cada um deixou de fazer, e sim deixar virem os sentimentos com a intensidade e verdade por trás dessas discussões.
O trabalho audiovisual de filmagem, edição e atuação traduz uma direção de cena em diálogo com a história e com o que vão nos contando, uma estética nostálgica com filtros e nuances que nos levam a sentir as personagens com cores que nos conduzem nas tramas. Há uma pesquisa necessária para colocar esse espaço antes do palco para posicionamento de câmera, condução de cada momento alinhado com o espaço físico e individual das personagens. Ainda assim, e por isso mesmo, poderiam ser melhor aproveitadas as potências dos atores em cenas menos preocupadas na sequência e mais na atuação em si, quebrando a quarta parede e se jogando aos olhos do espectador a profundidade de cada um, principalmente nos monólogos de Rita e Odilon, em que destaco que mesmo que aproveitadas a menor e a menos texto, tem uma ótima condução de Cláudia Carvalho e Pedro Schilling.
. 
Me deu vontade de assistir ao espetáculo ao vivo; o que nessa impossibilidade pandêmica, fica a sugestão de uma versão mais teatral da montagem audiovisual, ou ainda, um corte dois, ou cena expandida ou mesmo uma sequência seriada onde possamos conhecer mais essas personagens e esse grupo de amigos, seguindo a narrativa proposta.
Falo porque fiquei querendo ver mais e saber mais de como outros também lidam com suas as perdas. Porque a gente nunca sabe o que fazer, o que pensar e é sempre uma ferida que vai doer.
Afinal, falamos do que sentimos.
Sobre quem fica, sobre o que sobra.
Sobre como somos atravessados.
Sobre como se cavalga um dragão.
* Prints da apresentação do TPE do dia 01/09/2021.
Ficha Técnica do Espetáculo:
Elenco: Claudia Carvalho, Dani Dutra, Nairim Tomazini, Mariana Fernandes e Pedro Schilling
Direção: Henrique Strieder e Renata Lorenzi
Dramaturgia: Diogo Liberano
Roteiro: Henrique Strieder, Mariana Fernandes, Nairim Tomazini e Grupo
Direção Audiovisual, Operação de Câmera e Edição: Renata Lorenzi
Assistência de Direção: Pedro Schilling
Preparação de Elenco: Renata Lorenzi
Criação e Operação de Luz para Teatro: Henrique Strieder
Operação de Som para Teatro: Renata Lorenzi
Trilha Sonora Pesquisada: O Grupo
Figurinos: O grupo
Cenografia: O grupo
Fotos do Espetáculo: Gabriel Viero
Produção: Cláudia Carvalho, Nairim Tomazini, Mariana Fernandes e Pedro Schilling
Contribuição Artística: Luciana Éboli
Duração: 25 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Sinopse:
É possível ultrapassar uma coisa que não tem resolução? Baseado na dramaturgia de Diogo Liberano, o espetáculo conta a história de cinco pessoas que se veem obrigadas a enfrentar e tentar superar a morte precoce de uma amiga. Como Cavalgar Um Dragão traz questões como a morte – vista como esse ser místico e incompreensível – a perda, e como as relações se estabelecem a partir dela. O que você faria em frente ao inevitável?
Qorpo Qrítico – Vol. 03, n. 07, junho a setembro de 2021. ISSN 2675-4207.
