Todas através de uma

Durante as quartas-feiras de novembro, o projeto TPE (Teatro Pesquisa e Extensão) traz em cartaz a peça Não há bruxas aqui. A obra foi totalmente construída pelos alunos do curso de teatro da UFRGS, da dramaturgia aos toques finais, desde a dramaturgia até os toques finais. Estética colonial, móveis rústicos, roupas puritanas, golas fechadas até o pescoço, linguajar rebuscado, silêncios, nós na garganta. Tudo orquestrado para conter o que as mulheres têm a dizer e viver.

Na história, uma família recebe uma menina órfã em seu lar, mas não espere fraternidade. Agnes é recebida com desconfiança na cidade de Salem, os Blight a toleram apenas a pedido do reverendo, ou pelo menos é o que o patriarca diz. O passado da menina é um mistério. Sua permanência é motivada por oportunismo. Seu presente é apreensivo e solitário, exceto por Emily, que é a filha dos Blight e a única pessoa que acolhe Agnes de verdade.

O laço formado por elas transcende as amarras. Na presença uma da outra Emily e Agnes constroem momentos de afeto e autenticidade. Mas até sonhar foge da norma e ameaça o bem estar da família. A perspicaz tia Berta questiona a norma sem bater de frente, o que de certa forma contrasta com os anseios por liberdade das jovens. A mãe, sempre temente, se preocupa e procura proteger sua filha a todo custo. O pai violento quer tirar vantagem das situações. Há contrapontos interessantes entre eles.

A violência é exposta de maneira mais sutil, o que é coerente, pois a caça às bruxas não começa na fogueira, e nem só as bruxas são silenciadas. Para quem tem a opressão como cotidiano, um olhar basta para calar. E essa ira que grita em silêncio através do olhar é bem representada pela figura do pai. Tudo isso ecoa na mãe, que se esforça para conter a sua voz.

A trama reserva surpresas para o espectador, principalmente a respeito do passado de Emily. Há quem esteja disposto a defender suas escolhas, e quem ceda em nome da tranquilidade, alguns fazem concessões enquanto o outro tira vantagem. Porém, os personagens não demonstram muitos conflitos internos ou dúvidas, se analisados individualmente. Durante a encenação, há alguns monólogos que me fizeram esperar por um momento em que os personagens ponderassem entre as possibilidades ou demonstrassem alguma dúvida em relação às próprias crenças. Não que cause algum prejuízo, as oposições entre as personagens são eficazes em expor as ideias e tornar a peça interessante.

A trama se passa na cidade de Salem, conhecida por promover massacres às mulheres sob pretexto de caça às bruxas. A peça não força diálogos entre passado e presente, a época que contempla é completa em si. O enfoque está na história de duas meninas que viveram e morreram naquele período.  Acreditando que suas ideias pudessem atravessar o tempo, e que outras mulheres seriam livres para viver seus sonhos.

 

 

Ficha Técnica do Espetáculo:
Elenco: Andrielli Machado, Helena Moreira, Lucas Galho, Marina Lopes e Pâmela Walter
Direção: Victoria Muraro
Dramaturgia: Andrielli Machado e Victoria Muraro
Fotografia: Gabriehl (@porgabriehl)
Operador de som: Camila Consi
Operador de luz: Bino Afonso
Orientação: Patrícia Fagundes

 

 

 

Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 19 – agosto a novembro de 2025. ISSN 2675-4207