Rumi: O mundo é apenas Um, venci o Dois

Hei de lançar-me bêbado sem medo
a contemplar a alma do universo:
ou meus passos se apressam ao destino,
ou perco a vida, além do coração

Um poeta nascido no território do atual Afeganistão (ou do Tajiquistão, segundo outras fontes), no século 13, é hoje um dos mais populares nos Estados Unidos. A poesia de Rumi está presente na ópera Monsters of grace, de Philip Glass, na obra musical de Arooj Aftab, mas também em canções do Coldplay e de Madonna. O guru new age Deepak Chopra criou livros e discos inspirados em sua obra. No século inaugurado pelo ataque às Torres Gêmeas, o maior poeta do Islã está mais vivo do que nunca no Ocidente.

Antes de conhecer a versão em português do escritor Marco Lucchesi, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, li a tradução para o inglês de Coleman Barks, responsável pelo recente sucesso editorial de Rumi. Barks, nascido no Texas, é poeta e professor de literatura. Não conhece a língua persa ‒ nem  turca ou  árabe, eventualmente usadas por Rumi. O tradutor conta que, em 1976, seu amigo (e também poeta) Robert Bly deu-lhe um livro de traduções acadêmicas do bardo e lhe disse: “Estes versos precisam ser libertados de suas jaulas”.

Barks, a partir do que ele descreve praticamente como uma epifania, recriou os poemas de Rumi na dicção moderna americana ‒ a de Walt Whitman, William Carlos Williams etc. ‒ em versos brancos e livres. As recriações de Barks renderam mais de 20 volumes e venderam mais de 2 milhões de cópias em todo o mundo, tendo sido traduzidas para 23 idiomas.

A crítica mais comum dirigida ao tradutor norte-americano é a de que ele teria “desislamizado” Rumi, omitindo todas as referências ao Corão. Barks alega que a superação de todas as religiões, o amor universal e o ecumenismo estão presentes na obra de Rumi. Os críticos não engolem e afirmam que a universalidade que muitos reverenciam em Rumi hoje vem do contexto muçulmano de sua época.

As versões de Barks e Lucchesi (que também o ecumeniza) cumprem o que geralmente se espera de um tradutor: traz ao público do século 21, cuja “espiritualidade” se manifesta em diferentes gradações ‒laica, relativista, ateia ‒, o que há de essencial na obra de um poeta islâmico do século XIII. Barks foi fiel, traindo. O aspecto new age, comumente atacado e apontado ao Rumi ocidentalizado e desislamizado pelos tradutores, de espiritualidade diluída e kitsch, se deve a excertos descontextualizados que são jogados na rede, servindo como estímulos pseudofilosóficos da autoajuda.

Na tradução organizada por Marco Lucchesi, lemos:

O que fazer, se não me reconheço?
Não sou cristão, judeu ou muçulmano.


Se já não sou do Ocidente ou do Oriente,
não sou das minas, da terra ou do céu.


Não sou feito de terra, água, ar ou fogo;
não sou do Empíreo, do Ser ou da Essência.


Nem da China, da Índia ou Saxônia,
da Bulgária, do Iraque ou Hurassân.


Não sou do paraíso ou deste mundo,
não sou de Adão e Eva, nem do Hades.


O meu lugar é sempre o não lugar,
não sou do corpo, da alma, sou do Amado.


O mundo é apenas Um, venci o Dois.
Sigo a cantar e a buscar sempre o Um.


Primeiro e último, de dentro e fora,
eu canto e reconheço aquele que É.


Ébrio de amor, não sei de céu e terra.
Não passo do mais puro libertino.


Se houver passado um dia em minha vida
sem ti, eu desse dia me arrependo.


Se pudesse passar um só instante
contigo, eu dançaria nos dois mundos.


Sams de Tabriz, vou ébrio pelo mundo
e beijo com meu lábios a loucura.

LUCCHESI, Marco. A flauta e a lua: poemas de Rûmî. Ed. Bazar do Tempo

Com o sabor da eternidade, os versos de Rumi vencem o tempo, além de qualquer tradução, traição ou tradição. Sua poética erótica e espiritual, cheia de amor à vida, faz água de todas as arengas e disputas. A obra de Rumi não é o choque, mas o encontro das civilizações. Aspirando ao divino, sua poesia é o triunfo do humano.

Juliano Fontanive Dupont