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Cálculo Numérico - Versão Scilab

3.5 Método das secantes


O método das secantes é uma variação do método de Newton, evitando a necessidade de conhecer-se a derivada analítica de f(x). Dada uma função f(x), a ideia é aproximar sua derivada pela razão fundamental:

f′(x) ≈ f(x) − f(x0) x − x0 ,x ≈ x0. (3.166)

Mais precisamente, o método de Newton é uma iteração de ponto fixo da forma:

x(n+1) = x(n) − α(x(n))f(x(n)),n ≥ 1, (3.167)

onde x(1) é uma aproximação inicial dada e α(x(n)) = 1∕f′(x(n)). Usando a aproximação da derivada acima, com x = x(n) e x0 = x(n−1), temos:

α(x(n)) = 1 f′(x(n)) ≈ x(n) − x(n−1) f(x(n)) − f(x(n−1)). (3.168)

Isto nos motiva a introduzir a iteração do método das secantes dada por:

x(n+1) = x(n) − f(x(n)) x(n) − x(n−1) f(x(n)) − f(x(n−1)),n ≥ 2. (3.169)

Observe que para inicializarmos a iteração acima precisamos de duas aproximações iniciais, a saber, x(1) e x(2). Maneiras apropriadas de escolher estas aproximações podem ser inferidas da interpretação geométrica do método.

Exemplo 3.5.1. Encontre as raízes de f(x) = cos(x) − x.

Solução. Da inspeção do gráfico das funções y = cos(x) e y = x, sabemos que esta equação possui uma raiz em torno de x = 0,8. Iniciamos o método com x0 = 0,7 e x1 = 0,8.





x(n−1) x(n) m x(n+1)




f(0,8)−f(0,7) 0,8−0,7 = 0,8 − f(0,8) −1,6813548 =
0,7 0,8 − 1,6813548 0,7385654




0,8 0,7385654 − 1,6955107 0,7390784




0,7385654 0,7390784 − 1,6734174 0,7390851




0,7390784 0,7390851 − 1,6736095 0,7390851




♢

3.5.1 Interpretação geométrica


Enquanto, o método de Newton está relacionado às retas tangentes ao gráfico da função objetivo f(x), o método das secantes, como o próprio nome indica, está relacionado às retas secantes.


PIC

Figura 3.7: Método das secantes.


Sejam f(x) e as aproximações x(1) e x(2) do zero x∗ desta função (veja Figura 3.7). A iteração do método das secantes fornece:

x(3) = x(2) − f(x(2)) x(2) − x(1) f(x(2)) − f(x(1)). (3.170)

De fato, x(3) é o ponto de interseção da reta secante ao gráfico de f(x) pelos pontos x(1) e x(2) com o eixo das abscissas. Com efeito, a equação desta reta secante é:

y = f(x(2)) − f(x(1)) x(2) − x(1) (x − x(2)) + f(x(2)). (3.171)

Esta reta intercepta o eixo das abscissas no ponto x tal que y = 0, isto é:

f(x(2)) − f(x(1)) x(2) − x(1) (x − x(2)) + f(x(2)) ⇒ x = x(2) − f(x(2)) x(2) − x(1) f(x(2)) − f(x(1)). (3.172)

3.5.2 Análise de convergência


Uma análise assintótica semelhante àquela feita para o método de Newton na subseção 3.4.2 nos indica que, para uma função f(x) duas vezes diferenciável, as iterações do método da secante satisfazem:

|x(n+1) − x∗|≈ C|x(n) − x∗||x(n−1) − x∗|, (3.173)

para aproximações iniciais suficientemente próximas de x∗, onde f(x∗) = 0. Além disso, veremos que:

|x(n+1) − x∗|≤ C|x(n) − x∗|p,p = 5 + 1 2 ≈ 1,618 (3.174)

sob certas condições. Ou seja, o método das secantes tem taxa de convergência superlinear.

Teorema 3.5.1 (Método das secantes). Seja f ∈ C2([a,b]) uma função com x∗ ∈ (a,b) tal que f(x∗) = 0. Sejam, também:

m := min x∈[a,b]|f′(x)| > 0eM := max x∈[a,b]|f″(x)| < ∞. (3.175)

Além disso, seja ρ > 0 tal que:

q := M 2mρ < 1,Kρ(x∗) := {x ∈ ℝ; |x − x∗|≤ ρ}⊂ [a,b]. (3.176)

Então, para aproximações iniciais x(1),x(2) ∈ K ρ(x∗), com x(1)≠x(2), temos que as iterações do método das secantes x(n) ∈ K ρ(x∗), n ≥ 1, e x(n) → x∗, quando n →∞. Além disso, vale a seguinte estimativa de convergência a priori:

|x(n) − x∗|≤ 2m M qγn−1 ,n ≥ 1, (3.177)

onde {γn}n∈ℕ é a sequência de Fibonacci7 8 , bem como vale a estimativa a posteriori:

|x(n) − x∗|≤ M 2m|x(n) − x(n−1)||x(n−1) − x(n−2)|,n ≥ 3. (3.178)

Demonstração. Sejam n ∈ ℕ com n ≥ 2 e x(n),x(n−1) ∈ K ρ(x∗), tal que x(n)≠x(n−1), x(n)≠x∗ e x(n−1)≠x∗. Seja, também:
g(x(n),x(n−1)) := x(n) − f(x(n)) x(n) − x(n−1) f(x(n)) − f(x(n−1)). (3.179)

Com isso, temos: g(x(n),x(n−1)) − x∗ = x(n) − f(x(n)) x(n) − x(n−1) f(x(n)) − f(x(n−1)) − x∗ (3.180) = x(n) − x(n−1) f(x(n)) − f(x(n−1)) (x(n) − x∗)f(x(n)) − f(x(n−1)) x(n) − x(n−1) − f(x(n)) + f(x∗) . (3.181) (3.182)

Então, da cota assumida para primeira derivada de f(x) e do teorema do valor médio, temos:

|g(x(n),x(n−1)) − x∗|≤ |x(n) − x∗| m f(x(n)) − f(x(n−1)) x(n) − x(n−1) − f(x(n)) − f(x∗) x(n) − x∗ . (3.183)

Agora, iremos estimar este último termo a direita. Para tanto, começamos observando que da expansão em polinômio de Taylor de ordem 0 da função f(x) com resto na forma integral, temos: f(x(n)) − f(x(n−1)) x(n) − x(n−1) = −∫ 01 d drf(x(n) + r(x(n−1) − x(n))) dr x(n)−x(n−1) (3.184) = ∫ 01f′(x(n) + r(x(n−1) − x(n)))dr (3.185)

De forma análoga, temos:

f(x(n)) − f(x∗) x(n) − x∗ = ∫ 01f′(x(n) + r(x∗ − x(n)))dr (3.186)

Logo, temos:

f(x(n)) − f(x(n−1)) x(n) − x(n−1) − f(x(n)) − f(x∗) x(n) − x∗ = ∫ 01 f′(x(n) + r(x(n−1) − x(n))) − f′(x(n) + r(x∗ − x(n))) dr. (3.187)

Agora, novamente temos:

f′(x(n) + r(x(n−1) − x(n))) − f′(x(n) + r(x∗ − x(n))) = ∫ 0r d dsf′(x(n) + r(x(n−1) − x(n)) + s(x∗ − x(n−1)))ds = ∫ 0rf″(x(n) + r(x(n−1) − x(n)) + s(x∗ − x(n−1)))ds(x∗ − x(n−1)). (3.188)

Retornando à Equação (3.187) e usando a cota para a segunda derivada, obtemos:

f(x(n)) − f(x(n−1)) x(n) − x(n−1) − f(x(n)) − f(x∗) x(n) − x∗ ≤ M 2 |x(n−1) − x∗|. (3.189)

Utilizando a Equação (3.183), obtemos:

|g(x(n),x(n−1)) − x∗|≤ M 2m|x(n) − x∗||x(n−1) − x∗|≤ M 2mρ2 < ρ. (3.190)

Portanto, concluímos que as iterações do método da secantes x(n) permanecem no conjunto Kρ(x∗), se começarem nele. Além disso, temos demonstrado que:

|x(n+1) − x∗|≤ M 2m|x(n) − x∗||x(n−1) − x∗|. (3.191)

Com isso, temos:

ρn := M 2m|x(n) − x∗|⇒ ρ n+1 ≤ ρnρn−1,n ≥ 2. (3.192)

Como ρ1 ≤ q e ρ2 ≤ q, temos ρn ≤ qγn−1, n ≥ 1. Isto mostra a estimativa de convergência a priori:

|xn − x∗|≤ 2m M qγn−1 . (3.193)

Além disso, como γn →∞ quando n →∞ e q < 1, temos que as iterações do método das secantes x(n) → x∗ quando n →∞.

Por fim, mostramos a estimativa de convergência a posteriori. Para tanto, da cota assumida para a primeira derivada e do teorema do valor médio, temos, para n ≥ 3: |x(n) − x∗| ≤ 1 m|f(x(n) − f(x∗)| (3.194) = 1 m f(x(n−1)) + (x(n) − x(n−1))f(x(n)) − f(x(n−1)) x(n) − x(n−1) (3.195) = 1 m x(n) − x(n−1) f(x(n)) − f(x(n−1)) x(n) − x(n−1) + f(x(n−1)) x(n) − x(n−1) . (3.196)

Agora, a iteração do método das secantes fornece:

x(n) = x(n−1) − f(x(n−1)) x(n−1) − x(n−2) f(x(n−1)) − f(x(n−2)) (3.197)

e temos:

f(x(n−1)) x(n) − x(n−1) = −f(x(n−1)) − f(x(n−2)) x(n−1) − x(n−2) . (3.198)

Portanto:

|x(n) − x∗|≤ 1 m|x(n) − x(n−1)|f(x(n−1)) − f(x(n)) x(n−1) − x(n) − f(x(n−1)) − f(x(n−2)) x(n−1) − x(n−2) . (3.199)

Observamos que o último termo pode ser estimado como feito acima para o termo análogo na Inequação (3.183). Com isso, obtemos a estimativa desejada:

|x(n) − x∗|≤ M 2m|x(n) − x(n−1)||x(n) − x(n−2)|. (3.200)

■

Proposição 3.5.1 (Sequência de Fibonacci). A sequência de Fibonacci {γn}n∈ℕ é assintótica a γn ∼ λ1n+1∕5 e:

lim n→∞γn+1 γn = λ1, (3.201)

onde λ1 = (1 + 5)∕2 ≈ 1,618 é a porção áurea.

Demonstração. A sequência de Fibonacci {γn}n∈ℕ é definida por γ0 = γ1 = 1 e γn+1 = γn + γn−1, n ≥ 1. Logo, satisfaz a seguinte equação de diferenças:
γn+2 − γn+1 − γn = 0,n ∈ ℕ. (3.202)

Tomando γn = λn, λ≠0 temos:

λn λ2 − λ − 1 = 0 ⇒ λ2 − λ − 1 = 0 ⇒ λ 1,2 = 1 ±5 2 . (3.203)

Portanto, γn = c1λ1n + c 2λ2n. Como γ0 = γ1 = 1, as constantes satisfazem:

c1 + c2 = 1 c1λ1 + c2λ2 = 1 ⇒ c1 = 1 + 5 25 ,c2 = −1 −5 25 . (3.204)

Ou seja, obtemos a seguinte forma explícita para os números de Fibonacci:

γn = 1 5 1 + 5 2 n+1 − 1 −5 2 n+1 . (3.205)

Daí, segue imediatamente o enunciado.

■

Observação 3.5.1. Sob as hipóteses do Teorema 3.5.1 e da Proposição 3.5.1, temos: lim n→∞|x(n+1) − x∗| |x(n) − x∗|λ1 ≤ lim n→∞ M 2m|x(n) − x∗|1−λ1 |x(n−1) − x∗| (3.206) ≤ lim n→∞ 2m M 1−λ1 q(2−λ1)λ1n∕5 = 0. (3.207)

Isto mostra que o método das secantes (nestas hipóteses) tem taxa de convergência superlinear (λ1 ≈ 1,6).

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