Por Dione Michels Sá de Souza
Ouça o áudio em https://on.soundcloud.com/n6qe4
O amor é o sustento que nos ampara, que nos embala na renovação da força pessoal, cotidianamente. É o amor que nos fortalece, inclusive diante da dor pela partida nosso filho único, que aos 29 anos nos deixou fisicamente, em 28 de janeiro de 2021, na pandemia de Covid 19.
Não, não existe como superar a perda do filho, não existe como pensar ou se preparar para enfrentar tamanha dor, mas o amor inesgotável é o instrumento para lidar com a ausência. O exercício de ver o mundo através do olhar nobre, forte e destemido do nosso amado filho Joaquim, nosso Quinzinho, é um acalanto.
Nosso lindo anjo que Deus no confiou a existência, nos mostrou a importância de realizar sonhos. O ímpeto desbravador sempre foi a sua bússola, pois desde pequeno nosso filho escolhia quais seriam os seus desafios e os superava. Ele se tornou expert em tudo em que desejava. Para ele, não havia fronteiras que não pudessem ser superadas.
E foi assim que aos 16 anos ele foi estudar fora do país. Fez o terceiro ano do ensino médio no Estados Unidos, em busca do seu maior sonho, aperfeiçoar o idioma, que seria fundamental para a profissão escolhida: aos 8 anos contou a Deus, em uma cartinha, que gostaria de ser o melhor piloto de aviões do mundo. Transcrevo aqui essa carta, que tenho guardada comigo, entre tantos outros trabalhos escolares, os quais sempre cuidei com muito carinho.
“Deus,
Eu gostaria de perguntar a Deus se eu poderia ser alguém de futuro.
Sobre meus medos, eu queria falar a Deus que eu tenho medo de muitas coisas.
Meus sonhos, é que eu tenho muito sonhos para contar a Deus, milhões de sonhos.
Eu só tenho um desejo, me tornar o melhor piloto de avião do mundo e do universo também. É esse o desejo que eu queria contar a Ele.
Joaquim”.
E assim aconteceu quando, de volta ao Brasil, se dedicou aos estudos e fez todos os cursos para ser um grande piloto. Conquistou amigos, cresceu na profissão, era admirado pelos colegas.
Quando foi chamado para voar transportando pacientes contaminados pela Covid 19, não hesitou. Fez dezenas de voos, sempre muito responsável, ajudou a salvar incontáveis vidas. Até a fatídica notícia chegar: “- mãe, fui contaminado, não consegui escapar, um colega de trabalho que também estava contaminado passou Covid pra mim!”.
Foi assim que recebemos a notícia. No início a preocupação, que logo se transformou em desespero, quando a situação dele se complicou, quando houve atraso no atendimento, quando foi internado na UTI e teve o pulmão perfurado... logo tudo se complicou mais ainda, até o fatídico dia em que ele não resistiu e nos deixou para sempre.
E quanto mais falamos do filho amado, os laços indissolúveis tornam o plano de voo em algo que nunca cessará, pois olhar para o mundo é um exercício contínuo, incessante. A essência do nosso Joaquim se mantém no destemor, sempre com a vontade imensa de desbravar o mundo com a coragem ilimitada, esse é o legado indiscutível a honrar.
Joaquim, nosso filho único, também tinha o sonho de construir a família dele, ter filhos, poder nos dar os tão sonhados netos! Em dezembro de 2020, ele convidou a namorada para morar em SP, fez um contrato de união estável, e juntos tinham os sonhos de todo o casal jovem: comprar um apartamento, ter filhos, viajar...todos os sonhos foram interrompidos, inclusive o projeto que fôssemos morar perto dele, o que já era quase uma realidade.
Hoje somos pais enlutados, nossos sonhos foram desfeitos.
Sabemos que ele vive, e viverá para sempre na memória e no coração de todos que o amam.
O amor vencerá a morte!
Sua mãe, Dione,
Seu pai, Joaquim,
Te amaremos para todo o sempre!
*Dione Michels Sá de Souza, 64 anos, advogada aposentada, mãe enlutada de Quinzinho – Joaquim Aires Sá de Souza, 29 anos, piloto de avião da empresa Prevent Sênior. Casada com Joaquim Aires de Souza, 75 anos, e residentes em Ilhéus – Bahia.
____________________________________________________________________________
Os editores e editoras se reservam a fazer apenas pequenos ajustes ortográficos/digitação, mantendo o texto na sua forma original e a escrita espontânea dos autores e autoras.
Histórias e(m) Movimento
por Jean Segata, coordenador da Rede Covid-19 Humanidades MCTI
A história de uma pandemia não se escreve apenas com números e repercussões epidemiológicas. São presenças e ausências, rupturas e transformações; são vidas que se foram, memórias que se vive. São pessoas e coletivos que permanecem e que sofrem, mas que também se fortalecem e resistem. Histórias e(m) Movimento é um projeto coletivo, organizado pela Rede Covid-19 Humanidades MCTI e pela Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 – AVICO Brasil. Ele reúne experiências de quem viveu a pandemia de Covid-19 de diferentes maneiras e intensidades. É um espaço de partilhas, de solidariedade, de força somada e de luta. Porque a história de uma pandemia se escreve com muitas histórias, em movimento.




