15/11/2021

Por Adalberto Oliveira

 

Ouça o áudio em https://on.soundcloud.com/yqaC4

 

O ano de 2021 foi muito triste para toda nossa família, pois perdemos, de forma trágica, uma pessoa importantíssima para todos nós: FRANCISCA  ADALBENE OLIVEIRA SILVA, que não era só minha irmã, ela era inspiração para todos que a conheciam. Com apenas 41 anos e inúmeras vitórias, Bena, como era chamada carinhosamente por seus pacientes, amigos e familiares, era mãe de 2 meninas lindas, sendo Eduarda Larissa a mais velha e Maria Fernanda de 7 aninhos a filha caçula. Bena era sinônimo de superação, estava sempre disposta a ajudar. Era concursada como Agente de Saúde há mais de 15 anos. Como era como portadora de diabetes, automedicava-se 3 vezes ao dia com insulina; sofria de asma, síndrome do pânico, depressão, ansiedade, hipertensão e um problema cardíaco decorrente das inúmeras vezes que esteve em crises. Em  2019  foi diagnosticada com fibromialgia, mas não esmoreceu e continuou trabalhando até o início da pandemia, período em que foi afastada de suas atividades laborais. Mesmo afastada das visitas domiciliares e bastante debilitada, sua rotina de trabalho não parou:  visitava vizinhos acamados, realizava atendimento via celular e cuidava dos a fazeres da casa, sempre com um belo sorriso e palavras de conforto. Assim era Bena.

Após um ano  de licença médica e no aguardo de  resultados científicos no combate ao Vírus da Covid 19,  Bena ainda esperava  por uma vacina que não chegava. Enquanto outras nações davam prioridade na imunização do seu povo, os brasileiros faziam “arminhas” com a mão e gritavam “Mito”.

A chegada da vacina era a melhor notícia que poderíamos receber e finalmente ela veio, embora de forma lenta, sem muitos detalhes sobre sua eficácia em pacientes com comorbidades. Mas veio. Beninha vacinou-se, tomou as duas doses nos períodos indicados pelo Ministério da Saúde. Seu organismo não reagiu e ela não sentiu nenhuma reação. Ela carregava dentro de si esperança e confiança: dizia nos quatro cantos por onde passava que agora estava  imunizada e voltaria  a trabalhar,  mas somente eu sabia o quanto sua felicidade poderia trazer de tristeza para todos nós. Inclusive, a alertei e pedi até, pelo amor de Deus, para ela não aceitar o retorno das visitas domiciliares que ela teria que fazer como agente de saúde. Entretanto, o perito que a atendeu permitiu seu retorno e lá foi ela de encontro ao vírus, um vírus maldito, extremamente violento e alimentado por uma nação hipócrita, que segue sem pensar em alguns líderes políticos ou religiosos.

Minha irmã foi infectada na primeira semana do seu retorno ao trabalho. Na verdade, na minha família foram 9 infectados ao mesmo tempo. Ela, com todas as comorbidades que carregava,  passou  uma semana com sintomas gripais. Ainda sem acreditar no perigo que estava correndo, mesmo com alguns sintomas da infecção viral, dispunha-se a ajudar aos familiares também infectados. Mas eu sabia que a coisa ia ficar incontrolável. Minha irmã procurou o hospital local (UPA), fez alguns exames, mas a situação só se agrava. O hospital estava superlotado. Foi aí que a convenci a fazer uma tomografia dos pulmões, mesmo que para isso tivéssemos que nos deslocar para uma cidade vizinha, pois em Morada Nova, Ceará, de onde somos filhos, não existia esse exame, nem na rede particular. Muitos hospitais estavam superlotados e as pessoas estavam morrendo diariamente, diversos sem tempo nem mesmo de chegar aos hospitais. Era esse o cenário que nos encontrávamos, no início de abril de 2021.

Após retornamos de Limoeiro do Norte com o resultado do exame, comprovando que 50% dos seus pulmões estavam comprometidos, ainda tivemos que escutar da médica plantonista da UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Morada Nova, Ceará, que não havia sequer uma cama para a colocar. Mesmo ela, uma profissional da área da saúde que ajudou a salvar tantas vidas, foi mandada para acabar de morrer em casa, por falta de um leito de enfermaria para recebê-la. E assim fizemos: fomos para casa. Lembro-me muito bem que eu até iria entrar lá naquele hospital e brigar por uma vaga para ela, mas Bena pediu-me, pelo amor de Deus, para que eu não fizesse isso. E escutei essa frase da boca dela: “Eu me entrego nas mãos de Deus, o que tiver que ser, será”. E então me pediu para levá-la para casa. Entramos no carro e seguimos até a sua residência; foi a última vez que eu vi minha irmã. Lá chegando, ela desceu  do carro já fraquejando, sendo auxiliada por minha esposa Eline, que nos acompanhava desde às 7:00 horas da manhã; já era mais de 2:00 horas da tarde. Fui para casa aflito e desesperado, não consegui  relaxar. À noite, praticamente não dormi, lembrando do sofrimento da minha amada irmã.

Na madrugada, Bena não aguentava mais e pediu ajuda ao nosso sobrinho Vinícius para levá-la  para a UPA. Chegando lá, foi colocada em uma cadeira hospitalar e permaneceu por 48 horas nessa cadeira por falta de leitos. Eu não me conformava com aquela situação e pedi ajuda nas redes sociais, liguei para vereadores e até para um deputado em busca de ajuda para minha irmã. Mas nada aconteceu. No dia seguinte, recebemos a notícia que havia uma vaga disponível de UTI no Hospital Regional de Quixeramobim, que fica há mais de 100 quilômetros de distância de Morada Nova, Ceará. Mas era uma esperança e confesso que até me alegrei. Como Bena já estava bastante debilitada de tanto sofrer, os médicos do SAMU decidiram que, mesmo ela estando consciente,  para sua transferência ocorrer bem, teriam que entubar a paciente. Conversaram com os familiares e explicaram a situação para Bena que, sorrindo e serena, aceitou o procedimento.

Todos nós estávamos esperançosos, só não contávamos com mais um problema em sua transferência. Após a saída da ambulância do SAMU da UPA com destino a Quixeramobim, em alguns minutos minha irmã mais velha, Francisca Maria, que estava trabalhando, recebeu uma ligação de uma enfermeira que estava acompanhando a paciente Bena. A enfermeira pediu a presença de minha irmã mais velha na UPA, dizendo que a ambulância que havia levado Bena teve que retornar, após os profissionais de saúde identificarem a ausência de oxigênio no equipamento da ambulância. Assim, corremos todos para o Hospital, mas quando lá chegamos recebemos a triste notícia que, após várias paradas cardiorrespiratória, Bena havia falecido,   deixando  para trás sua família desesperada, amigos e parceiros de trabalho desolados, por saberem que não mais teríamos em nosso meio aquela linda mulher, que brilhava e inspirava todos que a conhecia.

Estava ali, dentro de um saco térmico, em um caixão lacrado o corpo de FRANCISCA ADALBENE OLIVEIRA SILVA: filha, mãe, esposa, amiga, irmã e tia, como era considerada por seus vizinhos; a Tia Bena estava morta, sem a permissão nem mesmo para ser velada, dadas as circunstâncias do momento pandêmico em que vivíamos. Foi o dia mais triste de toda minha vida; enterrar minha irmã às pressas, em um dia de sol escaldante. Mas, milagrosamente, o tempo mudou e quando ninguém esperava, já estava  chovendo, isso no verão nordestino em um período de estiagem. Deus providenciou chuva para mostrar que é somente nele que devemos confiar, que os homens aqui na terra são falhos, que a perfeição somente ele é capaz de produzir. E aqui estou, triste, desolado, pensativo e revoltado, mas ao mesmo tempo sereno e confiante no poder de Jesus Cristo para conseguir superar e seguir vencendo, trabalhando e levando o legado de minha irmã ADALBENE que sempre falava: “ajudar a quem precisa é praticar o amor incondicional”.                                                                                                                 

            Morada Nova, Ceará, 30 de setembro 2021.

* Sou Adalberto Oliveira, neto e filho de agricultores de Morada Nova, no Ceará. Sou mais uma vítima da exclusão social governamental que condena, sem direito à defesa, os mais fragilizados à morte, bem como condena os seus familiares ao luto eterno.

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Histórias e(m) Movimento

por Jean Segata, coordenador da Rede Covid-19 Humanidades MCTI

A história de uma pandemia não se escreve apenas com números e repercussões epidemiológicas. São presenças e ausências, rupturas e transformações; são vidas que se foram, memórias que se vive. São pessoas e coletivos que permanecem e que sofrem, mas que também se fortalecem e resistem. Histórias e(m) Movimento é um projeto coletivo, organizado pela Rede Covid-19 Humanidades MCTI e pela Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 – AVICO Brasil. Ele reúne experiências de quem viveu a pandemia de Covid-19 de diferentes maneiras e intensidades. É um espaço de partilhas, de solidariedade, de força somada e de luta. Porque a história de uma pandemia se escreve com muitas histórias, em movimento.




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